Dentre as metodologias de pesquisa qualitativa que possibilitam o diálogo entre o pesquisador e os sujeitos da sua pesquisa de forma efetiva, ressaltamos neste trabalho
a pesquisa-intervenção, já que esta possibilita ao pesquisador a aproximação e construção das informações com os sujeitos da sua pesquisa numa proposta de simultaneidade entre a intervenção e a pesquisa.
A pesquisa-intervenção parte do pressuposto de que o conhecimento é construído a partir do envolvimento do pesquisador com a realidade estudada; da sua implicação no trabalho que desenvolve; e de que a intervenção é uma construção conjunta (colaboração entre pesquisadores e pesquisados), o que possibilita efetivamente a construção do vínculo e abordagem do tema em questão. É uma metodologia que compreende a psique e o social como intrinsecamente imbricados. Amplia, portanto, o escopo de “clínica”, ultrapassando a idéia de “ao pé do leito”, contida na etimologia da palavra (Barbier, 2004; Lévy, 1997/2001a).
Na pesquisa-intervenção, seus sujeitos demandam a intervenção, participam ativamente dela e ao se expressarem, também analisam e elaboram suas representações do conjunto social e da interação estabelecida. O pesquisador assume uma postura clínica, responde à demanda de ajuda, escuta as manifestações verbais dos sujeitos sociais, analisa, interpreta, reflete junto, grava, filma, faz a devolução do que escutou, pensou e registrou e intervém no conjunto social. E, com os clientes ou com sua equipe, procede à elaboração teórica (Machado, 2004).
Esta opção metodológica supõe uma postura ética baseada no respeito e no reconhecimento da liberdade dos atores sociais da pesquisa, principalmente. O processo da entrevista ou de qualquer outra forma de procedimento de construção de informações não pode ser imposto. O pesquisador deve necessariamente compor com os atores sociais da sua pesquisa, desde os primeiros contatos, no planejamento das ações, no processo de intervenção e na conclusão (Lévy,1997/2001a).
O pesquisador parte sempre de uma demanda de mudança ou de ajuda vinda do grupo social. A demanda é objeto permanente de análise e de elaboração, além de condição sine qua non para a continuação da intervenção. Contudo, geralmente, não são claras as demandas de intervenção dos grupos, ou seja, os problemas e necessidades de ajuda dos conjuntos sociais são dificilmente formuláveis e evidentes, devido a processos inconscientes (Machado, 2004). Por isso, em alguns casos, o pesquisador parte da oferta de trabalho inicial para a emergência e compreensão da demanda.
Além disso, é importante ressaltarmos que para a pesquisa-intervenção se desenvolver não é suficiente apenas o pesquisador apreender a demanda. É preciso que
os atores sociais implicados aceitem e permitam um trabalho de análise e exploração coletiva, com todas as limitações e riscos que este comporta (Lévy, 1997/2001a).
A articulação entre a pesquisa teórica e a análise dos problemas de ação (prática de mudança ou intervenção) é necessária tanto para os atores sociais (sujeitos da pesquisa) quanto para o pesquisador ou clínico engajado na prática. A colaboração entre eles oferece a possibilidade de se reduzir a distância entre o saber teórico e as questões de ordem prática a que os atores sociais são confrontados, ou seja, eles deixam de ser apenas receptores do conhecimento trazido pelos “experts”, passando a ser parte ativa do processo de construção do saber (Lévy, 1997/2001a).
Segundo Machado (2004), nem o ritmo do trabalho, nem o fim da intervenção são estabelecidos a priori. Também, não há critérios para determinar seu sucesso ou fracasso. Como neste tipo de trabalho o objetivo é compreender melhor as histórias de vida (sempre em construção) dos sujeitos, desvelando não-ditos, ideologias, recalques, esquecimentos e representações recíprocas, as diferenças entre os envolvidos e as várias cisões internas são expostas e o trabalho pode ser rompido a qualquer momento. Para a autora, existe uma transversalidade do social no interior da intervenção, ou seja, a carga de experiências sociais dos pesquisados e pesquisadores (conjuntos sociais dos quais participam: família, escola, trabalho, igreja, partidos políticos, associações, relações de amizade) atravessa a intervenção, está sempre presente ou ausente nos atos, nos ditos e nos silêncios e são responsáveis por obstáculos e resistências ao trabalho. Interferem diretamente no ritmo e na continuidade do trabalho. Por isso, a utilização desta abordagem metodológica torna-se um recurso mais eficaz quando se propõe encontros aprofundados com um número restrito de sujeitos, do que em uma investigação estendida a uma ampla amostra representativa.
Por ser um trabalho que exige reciprocidade entre os pesquisadores e os atores sociais, tanto a análise e a resolução de problemas de ação e de mudança dependem estreitamente do trabalho de elaboração teórica, quanto o interesse e a necessidade de elaboração teórica precisam se articular com os problemas e questões que surgem do campo de ação. Também implica paciência (tempo) e disponibilidade (material e psicológica) do pesquisador para a construção da pesquisa. Em outras palavras, é preciso dedicar tempo (interno e externo) para que as coisas aconteçam (Lévy, 1997/2001a).
Todos estes elementos descritos, os quais fundamentam o processo de pesquisa- intervenção, são organizados por Lévy (1997/2001a) em três momentos distintos, mas
interdependentes entre si: o momento do “ato”, que relaciona, no aqui e agora, o pesquisador e os atores sociais portadores da demanda de ajuda e de compreensão; o momento da “elaboração teórica”, momento a posteriori, no qual o pesquisador implicado na intervenção formaliza a compreensão resultante dela; e o momento da
“comunicação” das aquisições provenientes da construção das informações e da
elaboração teórica, tanto aos sujeitos implicados na pesquisa quanto ao público em geral (comunidade científica ou profissional).
Reportando estes momentos à prática interventiva, podemos pensar na “elaboração teórica” como processo que, apesar de constante, intensifica-se nas supervisões; e no processo de “comunicação” como momento em que o pesquisador se propõe a “devolver” (por isso o nome devolutiva) aos atores da pesquisa suas reflexões e interpretações sobre a intervenção.
Para que este processo que inclui o ato, a elaboração teórica e a comunicação ocorra efetivamente, a pesquisa-intervenção pressupõe que o pesquisador não vá a campo sozinho. Ao contrário, ela impulsiona o pesquisador ao trabalho em equipe, a qual se responsabiliza pelo auxílio na análise das intervenções, no processo de ação- reflexiva (Pakman, 1999) e no reconhecimento das limitações do trabalho. Assim, a formação e preparação da equipe são de suma importância no processo de construção do vínculo com os atores da pesquisa. É preciso que todos os membros da equipe desenvolvam sua identidade como pesquisadores e se apropriem de pensamentos e de iniciativas diante das demandas que se apresentam no processo da pesquisa; é preciso que desenvolvam um pensamento “qualitativo”, ou seja, não fiquem presos às exigências quantitativas historicamente normatizadas no imaginário metodológico das pesquisas sociais, no que se refere à quantidade de participantes e número de perguntas adequado para o instrumento se tornar legítimo, por exemplo (González Rey, 2005).
O envolvimento do pesquisador e de sua equipe com a prática possibilita a eles se expressarem espontaneamente por meio de sua singularidade. Cada integrante da equipe transforma-se em sujeito de seus pensamentos, construindo suas próprias versões acerca das discussões e intervenções, pois converter-se em pesquisador “envolve a
valoração de suas próprias idéias e a capacidade de segui-las no processo de construção da informação” (González Rey, 2005, p.98).
As supervisões são importantes neste sentido, pois além de trazerem à tona a ação-reflexiva – o pensamento qualitativo - constituem o suporte do pesquisador no reconhecimento e análise dos efeitos da intervenção sobre ele e a equipe, como quando
ocorrem transferências, contratransferências, projeções, narcisismos, identificações, enfim, implicações do pesquisador/pesquisado um com o outro, com o conjunto social, com a pesquisa-intervenção (Machado, 2004). Por isso, os pesquisadores ou clínicos precisam dispor de um lugar e de um momento para interrogar e discutir sobre suas práticas e interpretações, analisar suas atuações; caso contrário, eles podem correr o risco de reproduzir condutas submetidas às determinações sociais e psicológicas (Lévy, 1997/2001a).
Neste sentido, por priorizar a construção coletiva do conhecimento e tê-la como princípio básico e fundamental, a pesquisa-intervenção foi o referencial metodológico adotado para este estudo. Isso porque, entendíamos que a complexidade do tema em questão exigia uma abordagem metodológica também complexa, que permitisse o processo de aproximação ao contexto da pesquisa, de construção do vínculo com os adolescentes e sua conseqüente espontaneidade na co-construção das informações, tornando-as mais próximas da realidade.