Incorporar um debate que envolva a questão da imagem neste trabalho, é imprescindível. A imagem enquanto representação e projeção de objetos, pessoas, ideias, etc. faz parte de muitos contextos, mas, no caso específico dessa pesquisa, ela ganha saliência. A relação com os moradores de Renascer e o cotidiano da aldeia remete a uma reflexão sobre como a produção da imagem (de si mesmo ou dos outros) pode contribuir para o entendimento acerca da organização dessa comunidade, seja dentro de eu espaço e com aqueles que estão a sua volta.
A imagem oferece à antropologia um valioso instrumento metodológico de análise. Entendida como uma linguagem visual, ela representa à antropologia uma alternativa à etnografia clássica, sendo usada como um recurso indispensável na tentativa de desvendar o outro, ao indicar a presença de uma alteridade. Ao longo dos anos a Antropologia foi se apropriando de recursos visuais por meios muitos distintos, buscando sempre novos olhares em relação aos grupos sobre os quais desenvolve suas pesquisas. O modelo da etnografia clássica ganhou, através do uso de imagens, outro formato, uma espécie de complementação ao texto etnográfico que antes era estritamente verbal, o formato visual.
Deste modo, algumas discussões mostram como a imagem pode funcionar como um ponto de partida para a reflexão antropológica, indo além de ser somente um dado empírico, ou como pensava Lévi-Strauss (1994) a respeito da fotografia56 - um mero documento que pode ser compreendido apenas quando concatenado ao diário de viagem - tornando-se uma expressão própria de um processo de pesquisa (CAIUBY NOVAES, 1999).
As fotografias são para ele [Lévi-Strauss] apenas indícios, de "seres, de paisagens e de acontecimentos", que ele sabe que viu e conheceu. A fotografia é, no plano etnográfico, como uma espécie de reserva de documentos, ela permite conservar coisas que não se irá rever outra vez (CAIUBY NOVAES, 1999, p.67)
De acordo com Caiuby Novaes (1999), Lévi-Strauss parece não atentar para o quanto suas próprias fotos são belas e trazem consigo uma grande sensibilidade que remete a reflexão e ao conhecimento, segundo a autora:
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Diferentemente de Malinowski, que faz um uso crescente da fotografia em suas obras, e que dá ao elemento pictórico um papel que complementa (mais do que ilustra) o texto verbal (Samain, 1995), Lévi-Strauss raramente se utiliza da fotografia e quando o faz é a partir de uma visão muito mais estética do que etnográfica (CAIUBY NOVAES, 1999, p.76).
De qualquer modo, sabe-se que as imagens podem trazer à antropologia inúmeros desafios reflexivos, já que elas são repletas de significados e de relações com o contexto do qual fazem parte. A imagem se coloca como uma espécie de representação da experiência sensorial e permite que a Antropologia não se reduza somente ao texto. O corpo e a voz do nativo podem ser apresentados pelo antropólogo com o uso de recursos fotográficos, filmadoras, etc.
Nesse sentido, os filmes – enquanto recursos audiovisuais – constituem-se como importantes objetos de análises antropológicas, não só os de caráter etnográficos, mas também os de ficção, sendo que estes, de acordo com Caiuby Novaes (2004), também são fontes que permitem a exploração do imaginário. Conforme a autora, existem filmes que se valem do cinema para abordar assuntos que envolvam as questões de identidade, tornando-se assim objetos autênticos para a investigação antropológica. Os filmes de ficção também podem ser “documentários preciosos sobre nosso imaginário, sobre nossos valores e aspirações” (CAIUBY NOVAES, 2004, p.53).
São ainda muito significativos porque podem nos conduzir a uma compreensão não só do universo no qual foi filmado, mas ainda do contexto no qual foi realizado, ou seja, por quem ou por qual meio esse filme foi produzido (CUNHA, 1999).
Assim, a sociedade não é meramente refletida no cinema. Um filme vem carregado de múltiplas significações que são construídas por visões peculiares de mundo e abarcam percepções muitos distintas da realidade. Como nos salientam Barbosa e Cunha (2006) a respeito do trabalho com filmes, ele determina ao pesquisador ter consciência de que, ao analisar um filme, ele está diante de um universo de “representações de um imaginário
cotidianamente recriado e em movimento.” (BARBOSA; CUNHA, 2006, p. 55).
Essa problemática pode ser notada no que se refere às filmagens que tratam especificamente da temática indígena, onde esse imaginário fica muito evidente. Elas expressam uma visão de mundo própria de quem produz o filme, e que em muitos casos não se coaduna com a realidade. O índio mostrado pelo cinema, na maioria das vezes, é um índio imaginado, criado e inventado pela percepção que o cineasta tem da realidade desse personagem.
A respeito dessa discussão sobre a visibilidade do índio através do cinema, Cunha (2004) assinala que as imagens produzidas acerca do índio, fizeram
[...] com que o índio tenha se tornado o que é um índio imaginário, um campo semântico complexo, que se exprime de maneiras variadas e tem implicações concretas ligadas à realidade histórica e sociopolítica do momento em que as imagens são mobilizadas (CUNHA, 2004, p. 116).
Com isso pode-se perceber o quanto o cinema e outras formas de produção de imagens se colocam como um campo de pesquisa produtivo e amplo para a antropologia. Um filme pode ser provocador de muitas questões acerca da imaginação e dos processos de sua criação, bem como de sua repercussão quando apresentado ao espectador. Discutir essa questão do cinema e da produção de imagens é importante para auxiliar no entendimento e na reflexão sobre a formação da aldeia Renascer, visto que, a aldeia foi configurada a partir de um processo cinematográfico.