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Como já se afirmou anteriormente, as Oficinas de Música para crianças e jovens portadores de distúrbios graves, de que trata esta pesquisa, foram realizadas nos laboratórios de Psicologia ligados ao Instituto de Psicologia da USP, entre setembro de 2006 e julho de 2007, e faziam parte das atividades desenvolvidas com as crianças e jovens atendidos no Projeto Tecer. Esse Projeto desenvolvia com sua clientela uma série de atividades pedagógicas, jogos, culinária, conduzidos pela equipe de monitores, alunos da graduação do Curso de Psicologia da USP, orientados por psicólogos.

Havia, também, como parte do Projeto, o atendimento psicanalítico às crianças e jovens freqüentadores da Oficina de Música, e a seus familiares.

Todo este conjunto interdisciplinar visava à reabilitação social destas crianças e jovens, para que pudessem ser incluídas em escolas regulares. As intervenções que ocorreram neste espaço, segundo a Dra. Jussara Brauer, coordenadora do projeto, eram destinadas a libertar a criança de inibições decorrentes de graves questões emocionais. Ler, contar histórias e promover atividades em grupo, bem como as propostas desenvolvidas nas Oficinas de Música fizeram parte deste conjunto de procedimentos e colaboraram para que se alcançassem os objetivos do Projeto. As Oficinas de Música foram ministradas uma vez por semana, por este pesquisador, em um período de 50 minutos, para um grupo de sete alunos, de diferentes faixas etárias. Entre eles, havia quatro crianças na faixa de nove e dez anos de idade, e três jovens, dois com dezoito anos e um com quinze. Na Oficina de Música, uma arte construída no tempo cuja matéria-prima é feita de sons e silêncios, esse uso organizado se dava espontaneamente, por meio de ações musicais como, por exemplo, marcar com som ou silêncio o começo e o fim das atividades, ou a mudança de espaço

durante o processo da aula, configurando diferentes tipos de propostas musicais para cada espaço destinado à Oficina, explorando-os. Estas informações básicas serviram para dar um ponto de partida ao trabalho, e esboçar alguns caminhos a serem tomados na Oficina. Nesta fase, também estão incluídos os primeiros encontros com as crianças e jovens atendidos pelo Projeto, a partir dos quais se construiu um conjunto de atividades musicais e corporais, sem qualquer pretensão de estabelecer previamente uma estruturação ou definir um percurso. Nas atividades sugeridas, tinha-se por objetivo desenvolver propostas que abarcassem conteúdos ligados às características simbólicas da música, que, por sua vez, também se situam em um âmbito lúdico da representação e do “faz-de-conta”.

As primeiras atividades da Oficina, portanto, funcionaram, ao mesmo tempo, como amostragem e sondagem. Essa amostragem, posteriormente, seria retomada de modo mais estruturado; a sondagem consistiu em selecionar as propostas mais bem aceitas pelo grupo, observando-se o grau de envolvimento dos clientes em cada atividade e o quanto durava a proposta, até a dispersão dos participantes. Nesses primeiros encontros, procurou-se um reconhecimento do campo de trabalho da pesquisa, uma imersão do pesquisador na vida e no contexto daquelas pessoas ali presentes e do próprio Projeto, no passado e nas circunstâncias presentes que condicionam o problema, tal como indica Chizotti (1991, p.81). A partir das primeiras atividades e por meio da relação estabelecida entre pesquisador e sujeitos da pesquisa, procurou-se iniciar a construção de um plano de trabalho. De acordo com o princípio, implícito no procedimento de observação participante, que pressupõe uma interação entre o pólo do pesquisado e o pesquisador, esta primeira fase destinou-se a procurar interações e possibilidades de comunicação com estes jovens e crianças, que, aliás, é um dos principais problemas usualmente encontrados em portadores de distúrbios graves. Assim, estabeleceu-se, aos poucos, uma comunicação indireta, ou seja, não se buscou saber de sua atuação e interesse por seus depoimentos verbais sobre as atividades, mas a partir do exame cuidadoso de suas reações imediatas ou posteriores à Oficina, diante de cada proposta, analisadas depois de cada encontro.

Nesta análise, levaram-se em conta o grau e o tempo de interesse demonstrado por cada um dos participantes, em cada atividade. Assim, suas reações, suas falas e suas ações diante das propostas e de cada instrumento musical utilizado, durante o processo, foram fatores que tiveram grande influência na condução da pesquisa, no desenvolvimento das oficinas e na análise das propostas e da atuação dos participantes.

Nesse sentido, o procedimento de observação participante com anotações em Diário de Campo foi utilizado com freqüência, além de outras técnicas, como gravações em áudio e em vídeo, a fim de poder focalizar o processo de conhecimento, em que o pesquisador é parte integrante do processo, como sujeito-observador que interpreta os fenômenos, atribuindo-lhes um significado (CHIZZOTTI, 1991, p.79).

2.5.1PRODUÇÃO DE UM SABER:FASE EXPLORATÓRIA

Esta fase foi o momento de estabelecer contatos iniciais para a entrada em campo, localizando os informantes que, no caso deste estudo, foram:

Ȼ a coordenadora do projeto;

Ȼ os monitores integrantes do Projeto Tecer, que já conviviam com os jovens e crianças atendidos;

Ȼ os próprios alunos participantes da oficina.

Este período da pesquisa, que se pode chamar de fase exploratória, ou de sondagem, se desenvolveu por meio de atividades quinzenais ministradas às crianças e jovens atendidos pelo Projeto Tecer e de reuniões semanais com a equipe do Projeto

Esta fase foi realizada entre 21 de setembro e 30 de novembro de 2006 e serviu para recolher informações básicas a respeito do campo de pesquisa - o Projeto Tecer -, um projeto destinado ao tratamento clínico de crianças e jovens com distúrbios graves, cuja meta é melhorar as condições das crianças e jovens atendidos, de modo a dar-lhes condições mínimas de se integrarem ao ambiente sociocultural em que irão viver e possibilitar a sua inclusão em escolas regulares.

Muitas informações provenientes desta fase foram obtidas em uma reunião com a equipe do Projeto e sua idealizadora e coordenadora, Profa. Dra. Jussara Falek Brauer.

Nesta reunião, tratou-se do número de crianças e jovens atendidos pelo projeto e que estariam presentes na Oficina de Música, de suas características individuais e do relato a respeito de outras atividades culturais e pedagógicas que já haviam sido realizadas naquele espaço. Os fatores principais a respeito dos alunos/pacientes trazidos à reunião foram suas dificuldades de fala, socialização, interação e comunicação e as presenças

funções da atividade pedagógica ou artística para as crianças atendidas no Projeto era quebrar o vazio angustiante proveniente da estrutura sintomática de seus distúrbios e, ao mesmo tempo, dar sentido aos silêncios e cortes, usando-os para organizar e estabelecer sentidos a suas ações.

2.5.2INTERVENÇÃO ESTRUTURADA:OFICINAS EPROJETOS

Após a fase exploratória explicitada no tópico anterior, procurou-se adequar a Oficina às instabilidades encontradas nos participantes. No caso específico desta pesquisa, em vista das características das crianças e jovens com distúrbios graves, acreditava-se que as atividades deveriam assumir o formato de Oficinas Musicais de durações variáveis, a partir das possibilidades e interesse da clientela atendida.

Uma das características observadas no contato com as crianças, apenas para dar um exemplo, refere-se à instabilidade de um dos alunos quanto à sua motivação para participar da Oficina, o que afetou sua freqüência, seu envolvimento e sua permanência nas aulas. A instabilidade observada poderia ser decorrente de vários fatores, como conflitos familiares, efeitos de medicamentos e alterações de estados psíquicos e, quando ocorria em meio à Oficina, trazia muitas variações na disposição dos alunos em relação às aulas. Outro ponto que deve ser destacado diz respeito à inibição cognitiva e afetiva dos participantes, responsável pelo desinteresse das crianças e jovens do projeto por atividades em grupo.

Para se adequar a esta clientela, a proposta pedagógica precisou se desenvolver por procedimentos didáticos mais abertos do que os usuais. Metodologicamente, havia um problema a ser enfrentado: como lidar com tantas variáveis na condução da Oficina?

Um grupo de crianças e jovens como esses, atendidos no Projeto Tecer, com dificuldades de simbolização, de fala, de socialização, além de inibições cognitivas e afetivas e alta instabilidade emocional não parecia adaptar-se a qualquer procedimento metodológico conhecido, que trouxesse regras de conduta ou propostas de trabalho seqüenciais e lineares. Nesta pesquisa, tentou-se observar com o máximo de acuidade todas as atitudes dos alunos, da mais sutil à mais manifesta. Mesmo que algumas destas atitudes não tivessem uma relação direta com a musicalidade dos alunos, estavam relacionadas indiretamente com a atividade musical e representavam um progresso muito grande para o grupo e o indivíduo.