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4. DATA, VARIABLE CONSTRUCTION, DESCRIPTIVE STATISTICS, AND

4.2 V ARIABLE CONSTRUCTION

A hipótese desta pesquisa foi considerar a Música uma área do conhecimento contribuinte e participante no processo de inclusão, por apresentar características que atingem o ser humano em sua subjetividade, o que permite sua utilização educativa e terapêutica.

Para descrever o caminho tomado no que diz respeito ao processo metodológico, desde o estudo teórico até suas aplicações, na prática de uma Oficina de Música, é preciso partir de tal hipótese, pois ela direcionou o trabalho para um percurso que fez surgirem pontos de união entre Psicanálise, Educação e Música. A proposta de atender crianças e jovens do Projeto Tecer com o oferecimento de atividades ligadas à música foi idéia da coordenadora do Projeto desenvolvido no Instituto de Psicologia da USP, Profa. Dra. Jussara Falek Brauer. As crianças e jovens atendidos naquele espaço são portadores de um tipo de distúrbio que lhes causa dificuldades de socialização, comunicação e de estabelecimento de vínculos afetivos.

A Dra. Brauer pensava que promover atividades culturais com a sua participação poderia auxiliá-las na superação das dificuldades que apresentavam. A idéia de desenvolver uma Oficina de Música dentro do Projeto Tecer, portanto, surgiu com propósitos educativos e culturais de trabalhar em uma perspectiva simbólica, trabalhando com codificações sonoro- musicais e com demarcações no espaço para representar um terreno lúdico, visto ser essa questão uma das mais importantes a serem focalizadas com os clientes atendidos, na opinião de sua coordenadora, Dra. Jussara Falek Brauer. A partir dessas idéias, estruturou- se uma estratégia prática de observação e intervenção neste campo de estudo.

Apoiando-se nessa concepção, a idéia de uma oficina de música no Projeto Tecer surgiu como proposta cultural, com o propósito de, por meio de ações criativas, tecer redes simbólicas por meio das quais a criança, com seus gestos, sons e marcas, tivesse condições de compartilhar suas peculiaridades. Acreditava-se que a oficina, organizada e pensada dessa maneira, como ato educativo e cultural, poderia oferecer a estes alunos uma filiação simbólica, levando-se em conta que em toda educação é transmitido algo; além do caráter utilitário do aprendido, o aprendiz se filia a uma tradição que o identifica aos demais, por participar de uma legalidade própria àquele grupo (ROCHA, 2001, p. 6).

Nessa perspectiva, a educação é ato que contribui com a subjetividade, permitindo que o sujeito circule socialmente como semelhante e participe, assim, das ações de uma dada comunidade ou grupo. Acredita-se, portanto, que trabalhar para a possibilidade de inclusão dos jovens e crianças atendidos no Projeto Tecer em uma escola regular, ou sua participação em oficinas artísticas fazem o ato educativo ser, cultural e integrador.

No entanto e apesar desse efeito estrutural de uma oficina de música, cabe esclarecer que o professor de uma classe inclusiva ou de uma oficina de arte não está, de maneira alguma, na condição de terapeuta; sua atuação é estritamente educativa, embora, para estas crianças, pelos efeitos obtidos, torne-se terapêutica. Considerando os procedimentos realizados em uma Oficina de Música como processo educativo, duas questões de caráter interdisciplinar permearam este trabalho. A primeira questão consistiu em descobrir o quanto um processo de Educação Musical pode contribuir em projetos de inclusão de portadores de distúrbios graves da infância em escolas regulares.

A segunda foi saber o que a Psicanálise pede à Educação (KUPFER, 1997), neste

paradigma de inclusão social. O caráter interdisciplinar da primeira questão reside na busca por maior eficácia na inclusão, em que se constrói uma rede interdisciplinar com várias áreas do saber, como: Educação, Arte-Educação, Psicologia, Psicanálise e Saúde.

Na questão seguinte, está evidente a relação entre Psicanálise e Educação, mas, ao mesmo tempo, é preciso considerar que esta, com seus pontos divergentes e convergentes é bastante complexa. Para poder estabelecer um caminho no interior desta complexidade, buscou-se em Maud Mannoni (1988, 1989), respostas para as questões aqui colocadas, tentando achar um ponto de equilíbrio entre as mencionadas divergências e convergências na relação Psicanálise e Educação.

Esta autora viu na educação um forte coadjuvante para o desenvolvimento subjetivo de jovens e crianças portadores de distúrbios graves. Em sua acepção, a ação educativa que proporciona tal desenvolvimento é aquela que procura entender estes jovens e crianças como sujeitos dotados de desejos próprios, não os considerando somente como um objeto que demanda cuidados especiais (1989, p. 72). O conjunto de práticas que colaboram com a Psicanálise para que a atividade educativa tenha uma relação de extensão terapêutica tem como referencial o trabalho desenvolvido na Escola Experimental de Bonneuil, na França, fundada por Maud Mannoni em 1969.

distúrbios graves na infância, Mannoni afirma que uma criança psicótica (mas isso, também, vale pra qualquer criança) tem necessidade, primeiro e acima de tudo, de viver num lugar onde seja possível o acesso à fantasia e à criação.

Para ela, uma escola ou um espaço educativo só ganha um sentido verdadeiramente educativo para seus alunos, quando a criança é tomada numa rede simbólica, em um lugar que dê espaço à tradição oral, em que ela tenha liberdade para descobrir o prazer de ter mãos que criam (1989, p.72). Para um aprofundamento da reflexão a respeito da importância de atividades culturais, tomadas em seus aspectos simbólicos para integrarem projetos terapêuticos, abordam-se alguns fundamentos que alicerçaram esta pesquisa, correspondentes à educação e explicação psicanalítica no que se refere à constituição da subjetividade humana. Serão evidenciadas, inicialmente, as concepções de Maud Mannoni (1988, 1989) no que diz respeito à influência cultural e simbólica no processo terapêutico e na constituição do sujeito e, posteriormente, o fator da inibição constituinte da estrutura sintomática da criança com distúrbios graves, conforme apontado por Jussara F. Brauer (2003).