O homem faz da sua atividade vital mesma um objeto da sua vontade e da sua consciência. Ele tem atividade vital consciente. Esta não é uma determinação (Bestimmtheit) com a qual ele coincide imediatamente. Karl Marx
A motivação não se confunde com a vontade. Esta, além daquela, contém outros componentes que imprimem uma qualidade específica à motivação, a qualidade de ser consciente. Por outro lado, se a motivação é componente do ato volitivo, pode, ainda que intrinsecamente orientada, não representar um ato da vontade, mas um imperativo circunstancial que obriga a uma determinada ação. Portanto, existe um desenvolvimento da motivação, quando representa a expressão do ato volitivo.
A proposição de Vigotski (2000, p. 150) sobre as transformações das relações interpsicológicas em intrapsicológicas pode nos fornecer um exemplo claro sobre a possibilidade do homem agir motivado, mas sem que isso signifique necessariamente uma expressão da vontade. Leontiev (1978, p. 155) explica que nessa proposição de Vigotski, está contida a ideia de que a “estrutura elementar da ação voluntária” nasce do processo pelo qual inicialmente – nas relações interpsicológicas - o sinal que dá origem às ações de um sujeito e que é emitido por outro indivíduo se converte em meio psicológico individual de produção da ação, isso é, como meio para o autocontrole. Isso quer dizer que o sujeito da ação tomou, em alguma medida, a consciência sobre a orientação de uma determinada ação, que agora pode, também em alguma medida, ser a sua própria ação, o que se pode propor como internalização em diferentes níveis de apropriação.
Disso se pode deduzir que, em um primeiro momento, o sujeito executa ações que são orientadas externamente por outro indivíduo, visto que não são completamente dominadas, e falta-lhe, por exemplo, conhecimentos específicos, previsão do resultado esperado pela ação, valoração afetivo-emocional ou hierarquização dos motivos, significado social, sentido
ϭϰϵ
pessoal, etc. Contudo, ainda que exista a motivação, essa ação não representa a expressão do autocontrole consciente. Como considera por exemplo, Leontiev (1978a, p. 156)
Para a atividade humana, o princípio da sua gênese é a falta de coincidência entre os motivos e os fins. Sua coincidência é um fenômeno de ordem secundária: ou é o resultado do fim que adquire uma força impulsora independente, ou o resultado da tomada de consciência dos motivos que transformam a estes, em motivos-fins. (tradução e grifo – negrito – nosso) Para entender essa postura, é necessário considerar que a criança inicia a sua vida participando de poucas atividades e a sua participação pode aumentar com o tempo, tal condicionante está ligado com a variação, também, das atividades e de diversas aprendizagens que se complementam.
O conhecimento dos conteúdos das atividades, as experiências da criança com os objetos e situações vão se acumulando como ligações afetivo-emocionais e cognitivas que formam sempre uma intrincada rede de elos entre as experiências e as atividades. Essa ligação ocorre pelo fato de que as ações e operações necessárias são reproduzidas em outras atividades, o que implica, por sua vez, que os motivos das ações já executadas podem, da mesma forma, coincidir ou não com os motivos da atividade atual.
A possibilidade da alteração da motivação para uma mesma ação significa que a atividade pode ser polimotivada, como diz Leontiev (1978a), ou ainda, poliobjetivada, isto é, direcionada a diversos objetivos que respondem às variações circunstanciais. Assim, as circunstâncias criam necessidades de articulação adequada de motivos e objetivos para a execução de uma ação. Dominar essa articulação dos motivos e objetivos implica conhecer os recursos instrumentais e materiais e os meios psicológicos de execução operacional da ação contextualizada, isto é, ter um controle consciente sobre a atividade.
Desse modo, a inclusão de uma criança em uma atividade nova para ela, produz a necessidade de recorrer às experiências anteriores e recuperar os constituintes afetivo- emocionais e cognitivos que possibilitem a constituição de uma orientação para as ações atuais, nas circunstâncias dadas. A história individual das experiências pode ou não ter formado, suficientemente, o conjunto de conhecimentos, sentidos pessoais e significados sociais exigidos para o momento. Por isso, uma criança pode participar de uma atividade, ter motivos para isso, mas a insuficiência cognitiva, afetiva e emocional (expressão da personalidade) pode impedir o surgimento da vontade, pois não permite o controle consciente das ações.
A formação da vontade representa o desenvolvimento e satisfação de necessidades criadas nas atividades, isto é, tem um histórico de produção de motivos, conhecimentos e
ϭϱϬ
afetos que exigem a mediação consciente para a sua efetivação – “[...] a vontade surge na criança como um controle consciente de sua conduta, de suas ações externas e internas” (MUKHINA, 1996 p. 219). Para que um ato seja expressão da vontade de um indivíduo, ele precisa do controle consciente dos motivos, objetivos e meios instrumentais e psicológicos. Fora dessa condição, os atos representarão sempre, em alguma medida, a expressão de um ato reflexo impulsivo, isto é, não mediado pela atividade intelectual mais complexa e superior da consciência, ou seja, como apontou Vigotski (2001, p. 327) por ocasião da análise da linguagem interna, “[...] como atividade volitiva complexa, isto é, mediante reflexão, deliberação e escolha”.
Essa noção sobre a vontade como expressão da integralização das necessidades, motivos e seus objetos, dos meios materiais e recursos instrumentais e psicológicos com a realidade concreta como objeto da consciência, pode ser percebida nas palavras de Gramsci (1995, p. 47) quando ele está tratando da questão sobre o que é o homem e afirmou que
[...] a existência das condições objetivas – ou possibilidade, ou liberdade – ainda não é suficiente: é necessário “conhecê-las” e saber utilizá-las. Querer utilizá-las. O homem, neste sentido, é vontade concreta: isto é, aplicação efetiva do querer abstrato ou do impulso vital aos meios concretos que realizam esta vontade.
Desse ponto de vista, a vontade representa a gradual superação da atividade reflexa (motivação interna) pela reflexiva (motivação intrínseca/extrínseca), que leva o homem não somente a conduzir e controlar suas relações com o meio material respondendo à estimulação sensível, mas dominar as circunstâncias orientando e controlando as suas transformações. A vontade está orientada não somente à execução de uma ação, mas nela o homem se realiza como expressão da sua individualidade humanizada. Como afirmou Marx (2004, p. 110) “[...] o sentido de um objeto para mim (só tem sentido para um sentido que lhe corresponda) vai precisamente tão longe quanto vai o meu sentido, por causa disso é que os sentidos do homem social são sentidos outros que não os do não social [...]”. (grifos do autor)
A vontade expressa, ainda, o sentido que o indivíduo dá para a sua própria existência no momento dado, na efetivação de suas finalidades, sentido que reflete as relações sociais e a posição ocupada nas relações com os outros. Tratando da gênese dos processos reflexivos Vigotski (1997, p. 78) afirma que “qualquer processo volitivo é inicialmente social, coletivo, interpsicológico. Isso se refere a que a criança domina a atenção de outros ou, pelo contrário, começa a utilizar consigo mesmo os meios e formas de comportamento que ao princípio eram coletivos”. É por isso que a vontade pode ser compreendida como uma particularidade da
ϭϱϭ
personalidade (LEONTIEV, 1978a), que é um desenvolvimento histórico das relações interpessoais e, portanto, que se desenvolve juntamente com a personalidade.
As mudanças que causam a formação da vontade estão correlacionadas às variações da motivação e das necessidades. Assim, por exemplo, a persistência em uma atividade depende da existência concreta da necessidade e das estimulações que afetando o indivíduo se transformam em motivos intrínsecos, motivos da personalidade que têm um sentido próprio e consciente como finalidade das ações de uma atividade.
A vontade, ainda, pode passar por alterações em função da ocorrência de contradições entre motivos, ou a existência de motivos igualmente avaliados, mas orientados a interesses opostos. Nesse caso, a vontade estará sujeita a uma decisão, a uma escolha e, com isso, pode ser paralisada e depender da satisfação de outras necessidades instrumentais ou de meios psicológicos, ou situações afetivas, por exemplo. É um momento em que a impulsividade deve ser inibida pela racionalidade, pois é necessária a hierarquização das motivações em função da situação e das circunstâncias, isto é, uma tomada de consciência das possibilidades de expressão da vontade. O desenvolvimento gradual desse processo, de tomada da consciência, leva à constituição do autodomínio, com o correspondente desenvolvimento da vontade. Por isso, compreende-se que a vontade está inserida em uma complexa unidade de fenômenos psicológicos e resulta da articulação “dinâmica causal e sistêmica”, como diz Vigotski (2000, p. 101), e depende de todo um conjunto de condições históricas passadas e atuais.
A vontade está diretamente ligada a toda uma cadeia de estimulações, produção de afetos e motivos diante de necessidades concretas. Isso a enquadra sempre como possibilidade dentro de uma atividade, mas, dependente, também, do conjunto de afetações presentes e coordenadas para uma finalidade. Pode-se dizer que a força da vontade depende da intensidade dos interesses criados e motivados durante a atividade, porém, como possibilidade autônoma criada pela apropriação das forças humanas já desenvolvidas para tal situação, o que permite que, como afirmou Vigotski (1997, p. 78) sobre a gênese do ato voluntário, cumprindo primeiro as ordenações dadas por alguém em uma dada situação, depois, “O indivíduo se ordena a si mesmo e ele mesmo cumpre”.
A vontade, portanto, significa uma forma de expressão da consciência no plano individual. Isso quer dizer que os aspectos da vontade que são produzidos pelos significados sociais (possibilidade de orientação lógica, auto-comando, mediação racional das ações, inibição da impulsividade, etc.) se transformaram em personalidade no indivíduo. Esse processo de transformação qualitativa do comportamento é inicialmente produzido pela
ϭϱϮ
afetação sensível, e a formação de afetos compõe os tipos de tendências reflexas que caracterizam, por assim dizer, o comportamento individualmente variável. Esse comportamento individualmente variável que é produzido como forma reflexa no início da formação dos comportamentos, pode se denominar de personalidade em um próximo momento do desenvolvimento cultural e da linguagem, quando o indivíduo adquire a consciência do seu lugar de sujeito nas relações sociais e se depara com as contradições da sua vida cultural. Por isso, a vontade também é uma forma de expressão da personalidade.
É necessário ressaltar ainda, sobre desenvolvimento dos processos volitivos, que, como afirmou Vigotski (1997, p. 220), “surgem e se manifestam inicialmente em alguma forma coletiva de atividade”, e que “[...] o jogo com regras ocupa na história do desenvolvimento da vontade infantil o mesmo lugar que a disputa ou a discussão na história do desenvolvimento da reflexão”.
A transformação dos significados sociais em personalidade refere-se a dois aspectos do desenvolvimento do indivíduo social: primeiro, que manifesta a aquisição do poder humanizado como qualidade da consciência individual; expressa a medida pela qual se manifestam as possibilidades de agir, pensar, sentir e participar da vida social, isto é, constitui a possibilidade de dominar – de um modo próprio – as esferas da sua atividade vital; segundo, manifesta a possibilidade inscrita no processo de humanização que se refere à tomada de consciência de si como membro de uma coletividade e qual é o valor dessa participação, qual é a importância que tem para si, fazer parte desta comunidade. A vontade como função psíquica, que adquire relevância em uma ou outra situação, deve expressar esses dois aspectos como forma de integralização das funções psíquicas superiores na realização de ações orientadas a um fim.
Por tudo isso, a motivação significa a emergência dinâmica e direcionada por um sentido, da concatenação dos recursos psicológicos, como capacidades psíquicas superiores, afetos, conhecimentos, representações, imaginação, e dos recursos materiais como instrumentos, organização no espaço/tempo e condições objetivas, que estão em função das características próprias do objeto de uma ação ou atividade. Portanto, não basta reconhecer o objetivo da ação, é necessário coordenar as possibilidades concretas de realização para que o sentido da ação (motivação) concorde racionalmente com os objetivos da atividade, para que a motivação exista como forma de orientação. A motivação, portanto, não existe em si mesma como uma entidade do psiquismo, que só pode ser explicada por si mesma ou por fatores parciais como a afetividade ou os interesses extrínsecos ou mesmo intrínsecos do indivíduo, isoladamente. Para se compreender a motivação deve-se poder articular o conjunto das
ϭϱϯ
condições materiais objetivas e subjetivas coordenadas com as características próprias do objetivo ou objeto da atividade.
A emergência do movimento psíquico humano não é em si mesma uma potência a priori no indivíduo, mas deve ser produzida a partir do próprio processo de desenvolvimento das capacidades e da consciência. Decorre disso que a exigência de que uma criança tenha motivação para esta ou aquela atividade só faz sentido depois que se aferiu o desenvolvimento das capacidades necessárias para a realização consciente e do domínio das possibilidades de efetivação das operações necessárias à atividade. Fica assim, posta em questão a comum exigência na qual a criança deva ter uma motivação natural, espontânea e individual, como se fosse inata a motivação para as coisas não naturais ou culturais.
A exigência comum no processo educativo escolar, que se manifesta sob a expressão “a criança tem que ter”: limites, motivação, interesse, vontade, respeito é acompanhada pela noção de que essas capacidades deveriam existir ou desenvolver-se naturalmente na criança, sem a intervenção inteligente do professor.
A motivação é a síntese de um processo que conjuga sempre a situação interna com as condições objetivas do objeto da ação. Aqui se faz importante uma consideração sobre o processo de significação. Quero tomar o significado como sendo algo que está além da palavra ou do signo. Como se pode deduzir das proposições de Vigotski (1997; 2001), o significado não pode ser atribuído exclusivamente à palavra, ao conceito ou ao pensamento. O significado pertence ao mundo dos homens, visto que está na intersecção entre o fazer, o ser das coisas e os meios psicológicos de orientação do ser social. Assim o significado contém tanto a palavra quanto seus objetos, mas também, por ter sido produzido na atividade humana, ainda contém, por sua natureza afetiva, os próprios indivíduos e a sua coletividade. O significado não pode ser localizado a não ser na existência concreta dos homens, por isso não pode ser imobilizado. Assim, a motivação, plena de significado, encontra-se ligada pelo processo de significação, a uma multiplicidade de aspectos da vida humana, isto é, não pode ser compreendida como função em si mesma.
Portanto, a análise da motivação deve ser levada a cabo como a análise da significação que encontra para si um significado e uma palavra, isto é, um meio objetivo de existência entre os homens. Da mesma forma, a motivação encontra um objeto que lhe dá existência objetiva e, então, o psiquismo se orienta em direção a esse objeto. “Uma vez que a necessidade encontra a sua determinação no objeto (se "objetiva" nele), o dito objeto torna-se motivo da atividade, aquilo que o estimula” (LEONTIEV, 1978 p. 109).
ϭϱϰ