O mais típico para a infância inicial, segundo a opinião de todos os investigadores, é a total unidade do afeto e da atividade. A criança se encontra totalmente dominada pelo afeto, ela está toda dentro da
situação. Lev Semionovich Vigotski
A orientação extrínseca da motivação indica que os objetos e as situações e suas qualidades físicas, materiais (textura, cor, movimento, som, temperatura, dureza, flexibilidade etc.) afetam os órgãos dos sentidos correspondentes e provocam uma estimulação sensível que produz uma resposta, inicialmente baseada nos reflexos biológicos naturais que se fundiram às experiências individuais e pessoais socialmente constituidas. Observe-se que esse processo é marcado pelo desenvolvimento histórico das relações do indivíduo. Logo, os objetos ou situações adquirem sempre novas qualidades, ou por suas próprias transformações naturais ou porque passam a afetar diferentemente o indivíduo por conta do desenvolvimento dos afetos, e, deflagram um determinado ato motor, a existência de uma vontade, desejo ou de uma objetivação.
Assim, partimos do fato que a orientação extrínseca da motivação está relacionada com a constituição do mundo objetivo composto por objetos e outros indivíduos e as situações. Até aqui poderia se afirmar que isso não diferencia muito a motivação intrínseca da extrínseca, porque naquela também se encontram os mesmos componentes, isto é, um sujeito em relação com outros indivíduos e objetos que produzem, de alguma maneira, valores afetivos, afetos, que articulados em torno de um objeto transformam-se em motivo para a atividade.
No entanto, pode-se argumentar que a valoração produzida nas relações tem particularidades que fazem distinguir uma orientação da motivação da outra. Enquanto na orientação intrínseca da motivação, a valoração correlaciona-se com aspectos existenciais do indivíduo como particular, na orientação extrínseca da motivação a valoração correlaciona-se com aspectos existenciais do próprio grupo e do indivíduo enquanto ser social. É por isso que Serra (1995, p. 115), por exemplo, diz que “Os estímulos extrínsecos são os que vêm de fora (os prêmios e os castigos). A motivação extrínseca é aquela dirigida para uma meta parcial, cujos motivos se encontram fora dela, por exemplo, trabalhar por dinheiro”.
A compreensão da motivação como direcionamento e orientação da atividade demanda compreendê-la como unidade de processos fisiológicos, neurofisiológicos e
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simbólicos que se alternam conforme a estimulação que se forma tem prioridade interna ou externa. Isso exige compreender que, o que torna prioritário o movimento orientado é o valor das relações e suas alterações sejam elas materiais, sociais ou culturais. Da mesma forma, exige-se compreender que a motivação é muito fluida e se condiciona com o desenvolvimento da atividade na qual ela existe, transitando a todo o momento de uma orientação a outra. Por isso, há a necessidade de se compreender a motivação como unidade e não como tipos independentes. Essa noção de mobilidade da motivação, ou seja, da alteração da sua significação, pode ser tomada de empréstimo da noção da inconstância dos significados, assim como expresso por Vigotski (2001a, p. 407408), quando ele afirma que
A descoberta da inconstância e mutabilidade dos significados das palavras e do seu desenvolvimento é a descoberta principal e única capaz de tirar do impasse a teoria do pensamento e da linguagem. O significado da palavra é inconstante. Modifica-se no processo do desenvolvimento da criança. Modifica-se também sob diferentes modos de funcionamento do pensamento. É antes uma formação dinâmica que estática.
A atividade motora, inicialmente motivada por condições biológicas, adquire formas que são dadas pelas circunstâncias e qualidades da objetividade na qual acontece. Nesse processo é que os atos inicialmente reflexos vão se constituindo como atividade, isto é, um conjunto de atos motores que se coordenam segundo um sentido dado pelas qualidades da concreticidade e das necessidades. Isso, quer dizer que uma motivação inicialmente reflexa adquire qualidades da objetividade material, isto é, que o objeto de uma necessidade se converte em constituinte motivacional.
Consequentemente, as características objetivas que são convertidas em características da motivação, passam a ser, então, intrínsecas. Esse processo pode ser compreendido como internalização ou interiorização, conceito proposto por Vigotski (1997, p. 75,77,78, 81; 2001, p. 309, 312, 319; 2000, p. 150; 1996, p. 149,) para explicar a conversão dos aspectos socioculturais em aspectos psicológicos. Como, por exemplo, ele propõe que “Toda função psíquica superior passa ineludivelmente por uma etapa externa de desenvolvimento porque a função, ao princípio, é social. Esse é o ponto central de todo o problema da conduta interna e externa” ou, ainda, quando trata do desenvolvimento dos sistemas psicológicos (1997, p. 81) e exemplifica com a memória e a atenção, também confirma que,
O que para o escolar é externo no âmbito da memória lógica, da atenção arbitrária, do pensamento, se converte em interno no adolescente. Vemos que a interiorização se realiza porque essas operações externas se integram em uma função complexa e em síntese com toda uma série de processos internos. Devido a sua lógica interna, o processo não pode continuar sendo
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externo, sua relação com todas as funções restantes variaram, se formou um novo sistema, se reforçou e se converteu em interno.
É necessária, então, uma afirmação que elucide o processo de internalização e seu desenvolvimento. Visto que a apropriação não ocorre de forma imediata, isto é, que qualquer aprendizagem demanda um processo, um tempo de ocorrência que ao final aparece na objetivação do sujeito como algo que foi aprendido, cumpre esclarecer esse movimento do internalizado ao apropriado e objetivado.
Seguindo o movimento que vai da experiência sensível imediata, do registro de uma imagem sensorial do momento vivenciado como unidade elementar da atividade psíquica, e da articulação dos diferentes registros em uma atividade subjetiva do pensamento como forma de ação recombinatória das imagens para a criação de um sentido afetivo da experiência, teremos, ao final, a compreensão de que aquilo que foi internalizado é aquilo que foi imaginado. Então, o que foi internalizado como processo de imaginação e criação subjetiva deve ser testado na realidade como forma de avaliação do conhecimento sobre a realidade. Quando o imaginado é transformado em ação concreta, objetiva-se apresentando-se ao indivíduo como efetivação ou não do conhecimento da realidade e a resposta dessa objetivação se desdobra em um ciclo de atividade que se confirma como apropriação ou necessidade de um novo processo de imaginação e criação para que o movimento vivo entre em acordo com a realidade. Esse processo cria um sentido produzido pelo próprio sujeito.
Poderíamos dizer que existem motivações exclusivamente extrínsecas? É possível afirmar a existência de tipos independentes de motivação?
Avaliemos, por exemplo, as alterações no ambiente material que são independentes da vontade humana, as mudanças climáticas, o esgotamento de recursos, etc. Nesses casos, não poderíamos afirmar que o motivo das ações não foi dado por um valor interno ou intrínseco, mas pelas qualidades da exterioridade? Isso não significaria que a ação foi motivada pela necessidade de adaptação e, portanto, externamente motivada?
Uma condição externa pode, de fato, obrigar um organismo a produzir determinados movimentos, ações e até mesmo uma adaptação geral frente a novas condições. Um organismo pode ser plenamente orientado pelas condições externas obedecendo às leis naturais do reflexo psíquico. No entanto, no caso humano o processo de orientação e controle do movimento passa por transformações históricas que superam essa forma primitiva de motivação. No homem socialmente desenvolvido, a atividade cultural produz meios de controle psicológico que possibilitam a autonomia para a escolha das ações. Assim, o indivíduo será sempre autor de escolhas diante das situações. Isso implica que as condições
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externas sempre produzirão movimentos por meio das condições internas, dos meios psicológicos disponíveis, o que, torna a motivação uma complexa unidade das condições externas e internas.
Uma ameaça externa, por exemplo, produz motivações diferentes tais sejam as condições ou meios internos que possibilitem a alocação de recursos psicológicos para a motivação. Assim, um indivíduo pode responder positiva ou negativamente à mesma ameaça, dependendo dos seus interesses afetivos ou recursos cognitivos. Nesse caso, aquilo que poderia parecer uma motivação externa, pela sua aparência, resulta, na verdade, das condições internas.
Assim, o uso de qualquer objeto, circunstância ou situação com a finalidade de produzir uma motivação unidirecionalmente orientada pelas condições externas, não somente pode produzir resultados contraditórios - a não adesão aos interesses motivadores, ou ainda, o enfrentamento incompatível com a situação - como também, produzir efeitos afetivo- emocionais imperceptíveis externamente, isto é, que não podem ser imediatamente correlacionados à situação e que resultam na formação de características conflituosas para a personalidade. Porque a carência ou má formação de recursos psíquicos exigidos pela circunstância externa pode levar à inibição, ao sentimento de ameaça ou desorientação, criando uma situação de crise psicológica.
Uma questão importante que se pode deduzir dessas afirmações é que a utilização de objetos ou situações externas como meio de motivação para alguma ação exige antes a verificação das condições internas. Para alcançar êxito na criação da motivação, é necessário produzir antes as condições afetivas e cognitivas que se transformam em recursos psicológicos com os quais alguém pode responder positivamente a uma situação criada com a intenção motivacional. Isso quer dizer que a motivação pode, ainda, não somente ser criada, mas principalmente educada, isto é, planejada como produto do processo educativo. Nesse sentido, concordo com Serra (1995, p. 116) quando afirma que
A melhor via para a formação das necessidades e dos motivos é o emprego harmônico dos estímulos extrínsecos e intrínsecos, de maneira tal que uns não limitem ou interfiram nos outros. Se em um primeiro momento os estímulos extrínsecos podem ser os mais eficientes e atuantes, a formação ótima requer que estes se vão eclipsando e passem a um primeiro plano os intrínsecos e com eles a função ativa do sujeito na formação de suas próprias necessidades e motivos.
A harmonização do uso de estímulos extrínsecos ocorre, como eu entendo, a partir do momento em que o professor busca primeiro pelas condições de desenvolvimento dos indivíduos e escolhe, então, os melhores meios externos que permitam a mediação entre as
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necessidades da atividade e as necessidades dos indivíduos, como parâmetro para a formação de um sentido motivador em relação à aprendizagem. É nessa regulação do poder de participação na atividade que se encontra a possibilidade de criação de uma motivação intrínseca que inclui o outro e a existência social como objeto da motivação.