jornalismo nas redes digitais1
Suzana Barbosa / Universidade Federal da Bahia, Brasil
Apresentação
A proposta deste artigo é sistematizar reflexões sobre o jornalismo na interseção com as mídias móveis (especialmente os smartphones e tablets) considerando-se o contexto da convergência jornalística e o que esta pode trazer de inovação e renovação para os processos de produção de conteúdos, sua linguagem, formatos de apresentação, edição, circulação, recirculação, recepção e consumo.
Nesse contexto, a lógica não é de dependência, competição ou de oposição entre os meios e seus conteúdos em diferentes suportes, característica de etapas anteriores do jornalismo, principalmente quando o examinamos a partir do surgimento das versões de produtos jornalísticos para a web. O cenário atual é de
atuação conjunta, integrada, entre os meios, conformando processos e produtos, marcado pela horizontalidade nos fluxos de produção, edição, e distribuição dos conteúdos, o que resulta num continuum multimídia de cariz dinâmico.
A abordagem aqui apresentada agrega a categoria da medialidade (Grusin, 2010, p.6-7) para indicar que na contemporaneidade a produção jornalística
1) Artigo produzido a partir da conferência “Jornalismo e mídias móveis: entre a transposição 2.0 e os produtos autóctones”, proferida no dia 15 de novembro de 2012 no congresso Jornalismo e Dispositivos Móveis (JDM). Ambos resultam da investigação ora em curso no Projeto Laboratório de Jornalismo Convergente (PPP Nº 0060, FAPESB/CNPq, http://www.labjorconvergente.info), sediado na Faculdade de Comunicação, da Universidade Federal da Bahia, Brasil. Este texto reúne, ainda, questões trabalhadas em artigos anteriores, pertinentes à abordagem aqui realizada.
presente nos diversos formatos de conteúdos (textos, fotos, áudios, vídeos, infográficos, slideshows, newsgames, linhas de tempo...) criados, editados, distribuídos pelas organizações jornalísticas é totalmente realizada por profissionais empregando tecnologias digitais e em rede. As atuais rotinas de produção pressupõem o emprego de softwares, de bases de dados, algoritmos, linguagens de programação e de publicação, sistemas de gerenciamento de informações, técnicas de visualização, metadados semânticos, etc. Com isso, já não se tem uma oposição entre meios antigos/tradicionais e os new media. Sendo assim, medialidade explica melhor esse panorama, quebrando a retórica do ‘novo’ e, acrescentamos, dissipando a equivocada ideia de concorrência entre meios que compõem um mesmo grupo jornalístico multimídia.
Em consonância com essa perspectiva, identifica-se uma quinta geração de desenvolvimento para o jornalismo nas redes digitais. Seus aspectos delineadores serão traçados, em paralelo à discussão sobre a convergência jornalística, situando as mídias móveis como agentes propulsores de um novo ciclo de inovação, no qual a emergência dos chamados aplicativos jornalísticos autóctones para
tablets são produtos paradigmáticos. Em nossa análise, amparada por trabalhos
anteriores (Barbosa, 2007, 2008, 2009a, 2009b, 2011) e pela investigação no âmbito do Projeto Laboratório de Jornalismo Convergente (Barbosa, Firmino da Silva, Nogueira, 2012; Barbosa Torres, 2012; Barbosa, Seixas, 2013), verifica- se também a existência de um nível expressivo de replicação de conteúdos na distribuição multiplataforma/cross-media, caracterizando uma transposição 2.0.
A teoria da convergência jornalística
Desde a década de 70, o fenômeno da convergência vem sendo abordado sob diferentes perspectivas (tecnológica, cultural, de propriedade, empresarial, estrutural, legal/regulatória, produtiva, da narrativa e/ou dos conteúdos, dos usuários) e em âmbitos diversos da Comunicação. É atribuída a Ithiel de Sola Pool a popularização do termo a partir da publicação do seu livro The Techonologies
modos de comunicação a partir da tecnologia eletrônica. Nos anos 90, o digital passa a ser a matriz predominante, vigorando mais fortemente com a expansão das conexões em rede, dos computadores, do surgimento da web, das melhorias nas infraestruturas de acesso, até a atual fase da ubiquidade das tecnologias e das redes e dispositivos móveis.
Para além do viés tecnológico, como assinala Henry Jenkins (2004, 2008), a cultura contemporânea é em si a da convergência. Ela modifica as relações não apenas entre tecnologias existentes, mas entre indústrias, mercados, gêneros, audiências e consumo dos meios. E, para o que nos importa diretamente, a convergência promove a reconfiguração dos meios, o redesenho da sua estética e da sua economia. Temos, assim, a convergência jornalística como uma das convergências ora em desenvolvimento num panorama contemporâneo mais amplo.
É na década de 2000 que ela desponta como força e vai originar variados estudos acadêmicos que têm sistematizado uma teoria da convergência jornalística. Associados a isso, estão outros trabalhos formulados por consultorias com propósitos mais comerciais, para atender à demanda das empresas informativas na implementação da integração de redações, dos novos fluxos de produção e de rotinas de trabalho convergentes. Para a abordagem que se desenha, a convergência jornalística é reconhecida como um processo (Dailey et al, 2003; Appelgren, 2004; Lawson-Borders, 2006; Domingo et al, 2007; Salaverría, García Avilés, Masip, 2008, 2010; Salaverría, Negredo, 2008), cujo conceito alude à integração de meios de comunicação tradicionalmente separados afetando a empresas, tecnologias, profissionais, produtos, conteúdos e aos usuários, no consumo, e interação com as informações.
Como definição operacional, adota-se a formulada por pesquisadores espanhóis que, de 2006 a 2009, participaram de rede colaborativa de investigação especificamente constituída para o estudo da convergência jornalística, suas características, processos e consequências nos meios da Espanha. Segundo Salaverría, García Avilés e Masip (2010, p. 59), a convergência jornalística é:
um processo multidimensional que, facilitado pela implantação generalizada das tecnologias digitais de telecomunicação, afeta o âmbito tecnológico,
empresarial, profissional e editorial dos meios de comunicação, propiciando uma integração de ferramentas, espaços, métodos de trabalho e linguagens anteriormente separadas, permitindo que os jornalistas elaborem conteúdos para serem distribuídos através de múltiplas plataformas, mediante as linguagens próprias de cada uma2.
Tal definição está, assim, de acordo com as inferências que se faz para a proposição de uma quinta geração de desenvolvimento para o jornalismo nas redes digitais. Ao aporte teórico-conceitual, vincula-se a categoria da medialidade (Grusin, 2010, p.6-7), a qual, como indicado na abertura do texto, melhor auxilia na compreensão da lógica que caracteriza a atuação dos meios na contemporaneidade, pois já os considera todos como conformados por tecnologias digitais, bem como seus processos, suas práticas, seus formatos, seus produtos. Desta maneira, nessa lógica de atuação conjunta, integrada, tem- se a horizontalidade perpassando os fluxos de produção, edição, distribuição, circulação, e recirculação dos conteúdos. O que se traduz, então, na noção de um
continuum multimídia de cariz dinâmico.
Esse conceito pode expandir o escopo do que Dailey et al, em artigo originalmente escrito em 2003 e publicado em 2005, propuseram com o modelo
Convergence Continuum para se entender a convergência. Àquela altura, os
autores consideravam que as ações de coordenação entre meios de comunicação
tradicionais (grifo nosso) permitiriam gerar um terceiro meio – todo baseado
no digital – que naquele momento era definido como o site web. Para tanto, seria necessário passar por distintas etapas (promoção cruzada, clonagem ou reprodução de conteúdo, competição cooperativa, compartilhamento de conteúdo3) e, deste modo, atingir-se-ia de fato um nível de convergência.
2) “un proceso multidimensional que, facilitado por la implantación generalizada de las tecnologías digitales de telecomunicación, afecta al ámbito tecnológico, empresarial, profesional y editorial de los médios de comunicación, propiciando una integración de herramientas, espacios, métodos de trabajo y lenguajes anteriormente disgregados, de forma que los periodistas elaboran contenidos que se distribuyen a través de múltiplas plataformas, mediante los lenguajes propios de cada una”.
A conjuntura atual, com os diversos modelos de convergência já implementados ou em curso em organizações e grupos de comunicação ao redor do mundo, de acordo com as especificidades de cada um e levando em conta as distintas áreas de abrangência – integração de redações, gestão editorial multiplataforma, polivalência midiática e a multimidialidade para os conteúdos (López García, Pereira Fariña, Limia, 2010, p. 322) –, a nosso ver, está mais afinada com a ideia de um continuum multimídia. Até porque redações integradas, também chamadas redações multimídia4 (seja reunindo as operações
do impresso, do site web, dos aplicativos para tablet e smartphones, caso dos brasileiros O Globo, Estadão e Folha de S. Paulo, ou também combinando a essas a produção para rádio e tv, a exemplo da Cadena Capriles, da Venezuela), são a norma vigente5 para assegurar a distribuição multiplataforma/cross media.
Por outro lado, também são crescentes as estratégias baseadas no modelo digital
first, que marcas do porte do The Guardian já haviam inaugurado e que, no início
de 2013, teve a adesão do Financial Times6.
Portanto, avaliamos que a noção de continuum multimídia de fluxo horizontal e dinâmico pode auxiliar na melhor compreensão das distinções entre aquela etapa
4) Com produção baseada no ciclo contínuo 24/7; jornalistas que são platform-agnostic, isto é, capazes de tratar a informação de acordo com as linguagens apropriadas de maneira que sua distribuição seja feita para o impresso, para a web, para as redes sociais, para os dispositivos móveis, para rádios, tvs, etc. Junto a isso, o desafio para a criação de narrativas jornalísticas originais, com emprego efetivo da hipertextualidade/hipermídia, além das técnicas para gerar formatos inovadores. Tem-se, ainda, a introdução de novas funções (ex: editor de plataformas digitais, editor ou coordenador multimídia, editor de redes sociais, editor de aplicativos, entre outras), além de habilidades multitarefas para os jornalistas; e o trabalho de interação com os usuários, as audiências ativas.
5) Lawson-Borders (2006, p. 74) localiza a versão moderna de convergência sendo empregada por um grupo de comunicação em 1993, sendo pioneiro a Tribune Company (Chicago/EUA), com as sinergias que implantou para a produção de notícias por suas tvs a cabo em Chicago e em Orlando. À época, a World Wide Web dava seus primeiros passos, e sites jornalísticos ainda estavam engatinhando. O mais comum era ter os conteúdos de jornais sendo distribuídos através de sites de provedores como America On Line, Compuserv, entre outros.
6) O editor do FT, Lionel Barber, anunciou a nova estratégia em janeiro de 2013, afirmando tratar-se de uma grande mudança cultural, que permitirá à empresa atuar melhor na era digital, conquanto essa estratégia também signifique cortar custos, entre eles diminuição de postos de trabalho. Ver em: http://www.guardian.co.uk/media/2013/jan/21/financial-times-digital-first. Acesso em 22 jan.2013. Nos Estados Unidos, Media News Group e Journal Register Company são gerenciados pela empresa Digital First Media, criada justamente para conduzir a estratégia digital dessas empresas jornalísticas. Ver em: http://www.digitalfirstmedia.com/.
(início da década de 2000) e a atual. O conceito abrange aspectos relacionados aos desenvolvimentos tecnológicos, à absorção de novos procedimentos para realizar os processos e rotinas de produção do jornalismo, como também os avanços já empreendidos nos estudos para o melhor entendimento do fenômeno da convergência jornalística, suas particularidades, consequências e