• No results found

Se em 1900 havia pouco mais de cinqüenta nações independentes, esse número chegou a quase duzentas no ano 2000. Com o fim da Segunda Guerra iniciou-se o processo de massificação das independências nacionais, resultantes do desmoronamento do modelo e do regime colonial estabelecido em fins do século XIX, ocorrendo primeiramente na Ásia e se estendendo à África, Oceania e ilhas do Caribe. As décadas subseqüentes seriam marcadas pelo acréscimo do número de Estados independentes, refletindo-se em uma extensa gama de novos símbolos nacionais, cujas bandeiras, brasões e hinos passaram a figurar no cotidiano da sociedade global. Em muitos casos, o nacionalismo de base política ajudou na formação dos símbolos, com as cores da bandeira do partido que reivindicou a independência servindo de base para a bandeira nacional (FIRTH, 1973; SMITH, 1975). A epopéia da “libertação nacional” e o desejo de um futuro glorioso nas décadas de 1950-1960 resultaram em uma série de concursos para a escolha dos hinos nacionais onde palavras como “Deus”, “Pátria” “Liberdade” eram agora entoadas por todos os cantos. Diferente das “operetas” da América Latina, os hinos dessa fase pós-colonialista se caracterizaram por marchas simples, com raras exceções ao padrão já consagrado da música ocidental. Na década de 1970, o que restava do antigo império português na África se esvaeceu, assim como grande parte das pequenas colônias britânicas e francesas na Oceania e Caribe.

51 Na voz de Sergei Balyasnikov, do Instituto Russo do Ártico e Antártica: “Este é um caminho muito importante

para a Rússia demonstrar seu potencial no Ártico... É como colocar uma bandeira na lua”, notabilizando-se como uma “marca permanente da presença Russa no pólo” como afirmou o líder e explorador da missão russa, Artur Chilingarov. Fonte: Russia plants flag under N Pole, BBC News Europe, 2 de agosto de 2007. Disponível em: <http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/6927395.stm> Acessado em 20 de julho de 2012.

Figura 7: Bandeiras-chave de influência histórica, regional e cultural (séculos XIII-XX)

7.1: Holanda (c.1572-1660) 7.2: Rússia (1721-1917/1991-) 7.3: Estados Unidos (1960-)

7.4: França (1794-) 7.5: Francisco de Miranda (1806) 7.6: General Belgrano (1812)

7.7: União Soviética (1923-1991) 7.8: Revolta Pan-Árabe (1917) 7.9: Etiópia (1897-)

7.10: Marcus Garvey (1920) 7.11: Dinamarca (séc.XIII-) 7.12: Império Otomano/Turquia

(1867-)

7.13: Reino Unido “Union Jack” 7.14: Estandarte azul 7.15: Estandarte vermelho (1801-) (Blue ensign) (Red ensign)

Fotografia 1: Segunda Guerra – a conquista de Iwo Jima pelas tropas norte-americanas (1945)

Fonte: http://commons.wikimedia.org

Fotografia 2: Segunda Guerra – bandeira hasteada pelas tropas soviéticas no Reichstag, Berlim (1945)

Fonte: http://commons.wikimedia.org Fotografia 4: a bandeira russa é colocada no leito

do Ártico, no Pólo Norte geográfico (2007)

Fonte: http://www.bbc.co.uk Fotografia 3: astronauta David Scott saúda a

bandeira norte-americana na lua (1969)

Fonte: http://lunarscience.nasa.gov Fotografia 5: tempos de guerra – tropas alemãs removem o brasão de armas da Polônia no posto

de fronteira em Zoppot (1939)

Fonte: http://www.bundesarchiv.de

Fotografia 6: tempos de paz – parlamento da Lituânia recebe novo brasão, substituindo antigas

armas do período soviético (1990)

Entretanto, o ponto marcante na florescência de novas bandeiras desdobrou-se no final do século XX com as mudanças advindas da queda do Muro de Berlim (1989) e o fim da União Soviética (1991), que culminaram não só com a ascensão de novos símbolos nacionais (re)introduzidos na ampliação do quadro dos Estados soberanos, mas também nas mudanças das bandeiras dos países sob influência do marxismo, tanto os Estados satélites europeus, bem como as nações do chamado Terceiro Mundo. Essa tendência havia sido colocada à prova ainda durante a Revolução de 1956, na Hungria, quando o brasão usado na bandeira desde 1949 foi retirado pelo povo durante os protestos de rua, deixando-a com um buraco, ao mesmo passo que a Primavera de Praga em 1968 demonstrou o papel da bandeira como símbolo político, enquanto que a Bulgária viu seu hino mudar duas vezes (de 1944 a 1964).

O começo do século XXI tem demonstrado uma mudança pontual em relação aos símbolos nacionais, como desdobramento, reflexo ou ajuste do que havia sido legado no século passado. Nos regimes autoritários sob a intervenção militar dos Estados Unidos no Oriente Médio a partir do final de 2001, novos símbolos foram adotados no Afeganistão (entre 2002-2006) e no Iraque (entre 2004-2009). As mudanças territoriais no mapa mundial também confluíram para essa mudança, com a independência de Timor Leste (2002) sob os auspícios das Nações Unidas e a separação pacífica da Sérvia e Montenegro (2006).

A declaração de independência de Kosovo (2008), embora reconhecida parcialmente, já produziu sua bandeira e brasão, além de um hino (sem letra), escolhidos de forma a expressar a neutralidade perante as tensões étnicas daquele Estado-nação, seguindo a cartilha do discurso democrático dos regimes Euro-Atlânticos (ELGENIUS, 2011). Em 9 de julho de 2011 o Sudão do Sul conquistou sua independência após um referendo organizado pelas Nações Unidas, com símbolos já pré-escolhidos, enquanto os efeitos da “primavera árabe” demonstraram a força da bandeira enquanto símbolo, ostentada nos protestos populares da Tunísia ao Iêmen, embora a principal mudança nos países árabes acontecesse com queda do regime de Muamar Khadafi, que ressuscitou a primeira bandeira da independência (1951).

Os símbolos nacionais mudam e resistem de acordo com sua eficácia simbólica e conforme os processos históricos produzidos e associados a eles (fotografias 5 e 6). Como foram incorporados por uma entidade política cuja base é nacional, torna-se necessário compreender seus pormenores nos últimos (três) séculos, quando o modelo de Estado europeu soberano e territorial passou a ser reproduzido e copiado e a expansão do mundo moderno através do imperialismo fragmentou o espaço de tal forma que criou e legou uma série de entidades territoriais “nacionais” que se multiplicaram vertiginosamente nos últimos cinqüenta anos. Tanto do ponto de vista temporal, quanto pelo caráter regional, mostram que

o conteúdo simbólico de bandeiras, brasões e hinos fornece, em diversos graus, uma forma de preencher esse vazio deixado em seus diferentes processos e etapas da constituição de uma identidade nacional. Mas antes, é necessário analisar de forma pormenor como a tradição dos símbolos nacionais estendeu-se ao mundo colonial, sobretudo entre os séculos XIX e XX.