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Do início da belle époque até a primeira metade do século XX assiste-se ao momento mais propício para o apelo aos símbolos nacionais, quando os meios de comunicação em massa (jornal, rádio e cinema) ao lado das tradicionais instituições do Estado, como a escola, o serviço militar e os prédios públicos, passam a reproduzir sistematicamente os valores da nação. Como visto, o hino nacional teve franca utilização como instrumento da propaganda nacionalista com o advento de novas tecnologias de gravação e reprodução em larga escala. Nos países envolvidos com a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, cartões e pôsteres patrióticos mostravam a bandeira nacional e dos aliados como uma mensagem clara de que “nós lutamos por nosso país e temos amigos estrangeiros ao nosso lado” (ZNAMIEROWSKI, 2004, p.44), convertendo-se em um símbolo visual que foi profundamente enraizado na consciência moderna pela mídia.49 Além disso, ocorre uma transição que vai além do discurso do Estado na construção dos símbolos nacionais, que passam a agregar as influências dos partidos políticos nos processos de revolução e independência.

A bandeira do Partido Comunista, composta de um pavilhão vermelho com o emblema dourado da foice e do martelo (representando a união dos camponeses e proletários), junto com a estrela vermelha (comunista), transformou-se na bandeira da União Soviética (1924). O padrão vermelho do partido comunista foi copiado por outros países que seguiram o mesmo modelo estilístico e ideológico, sobretudo nas nações da Ásia e África (SMITH, 1975; ZNAMIEROWSKI, 2004) [7.7]. Por vezes, o padrão de uma bandeira nacional é destinado a simbolizar ligação, bem como diferenciação, conforme o caso das bandeiras da Comunidade Britânica [7.13; 7.14; 7.15]. No conjunto das bandeiras modernas e sua influência regional, há também a Dannebrog (bandeira da Dinamarca), que influenciou com sua cruz nórdica (herança da época das Cruzadas) os símbolos das nações da Escandinávia [7.11]; a bandeira da Turquia, herdada do Império Otomano [7.12], cujo crescente e estrela, embora sejam mais antigos em uso que o próprio Islã, indicam hoje a irmandade muçulmana, embora, para Firth (1973), nem todas elas tem uma relação histórica com esta versão turco-otomana.

49 No caso da Áustria derrotada, esta invenção política ocorreu no hino usado entre 1920-1929. “Este autor

lembra de ter se submetido a tal peça de invenção política em uma escola primária austríaca na metade dos anos 20, na forma de um novo hino que tentava, desesperadamente, convencer as crianças que um punhado de províncias que sobraram ou que foram arrancadas da secessão do império Habsburgo formava um todo coerente que merecia amor e devoção patriótica; [...] A ‘Áustria alemã’, começava esse curioso e passageiro hino, ‘terra magnífica (herrliches) nós te amamos’, e continuava, como previsto, como um guia de viagem ou uma lição de geografia, seguindo os riozinhos alpinos das geleiras ao vale do Danúbio e a Viena, concluindo com a afirmação de que essa nova Áustria residual era ‘minha terra natal’ (mein Heimatland)” (HOBSBAWM, 1990, p.112-113).

Outras bandeiras de influência ideológica no século XX se configuraram na usada pela revolta árabe de Hejaz (1917) contra o domínio otomano, ou mesmo a bandeira do movimento egípcio de libertação (1953), cujas cores (verde, vermelho, preto e branco) influenciaram os estandartes das nações no Oriente Médio e norte da África [7.8]. A bandeira da Etiópia (1930) teve forte influência com suas cores (vermelha, amarela, verde) no movimento pan-africanista nas décadas de 1950-1960 [7.9], assim como o movimento negro norte-americano de Marcus Garvey, que havia criado um estandarte (1920) para manifestar o sentimento de irmandade africana, nas cores vermelha (o sangue derramado no correr da história), negra (a cor da pele da qual “devemos nos orgulhar e não nos envergonhar”) e verde (como a esperança) [7.10].

Nessa época, as influências do discurso político foram meticulosamente projetadas pelos regimes totalitários para serem absorvidas como símbolos nacionais50 e durante a Segunda Guerra Mundial o valor ideológico e moral da bandeira foi além do campo de batalha, reproduzido pelos meios de comunicação em massa (fotografias 1 e 2). Embora as tropas militares usassem bandeiras e estandartes para suas unidades e infantaria e cavalaria desde o final do século XVI, o modo como se praticou a guerra a partir do final do século XIX tornou a função das cores no campo de batalha obsoletas. As guerras do século XX foram travadas essencialmente com a bandeira nacional.

Conscientes de que a bandeira era um símbolo poderoso, muitos dos regimes totalitários e opressivos procuraram deslegalizar as bandeiras de seus oponentes e perseguir aqueles que desafiassem tal proibição (ZNAMIEROWSKI, 2004) mesmo após o período do entre guerras. Na Espanha sob o regime de Franco, tornou-se ilegal exibir a bandeira basca; na União Soviética, pessoas podiam ser mandadas para o campo de concentração se exibissem a bandeira nacional da Lituânia, Armênia ou qualquer outra nação anexada pelo domínio soviético. O mesmo aconteceu aos demais símbolos que demonstrassem qualquer sentimento “nacional”, em especial o brasão de armas (SLATER, 2007).

Agregando tradições às novas invenções, o costume simbólico de fincar a bandeira em lugares que foram descobertos ou conquistados se estendeu até os tempos modernos. Roald Amundsen fincou a bandeira da Noruega no Pólo Sul durante sua descoberta em 1911 e em 1953 Edmund Hillary e Sherpa Tenzing Norgay fincaram as bandeiras da Nova Zelândia e do

50 Um exemplo marcante dessa mudança de significado e da manipulação dos símbolos nacionais talvez tenha

aparecido justamente com a bandeira da Alemanha durante o período entre guerras, quando o padrão preto- vermelho-amarelo das cores nacionais foram mudadas para as antigas cores imperiais e logo em seguida foi adotada a bandeira da suástica por Hitler em 1935 como símbolo oficial. Die Fahne Hoch (A bandeira ao alto) ou “Canção de Horst Wessel” foi usada como hino semi-oficial na Alemanha nazista (1933-1945) ao lado de

Das Lied der Deutschen (A canção dos alemães); na Itália fascista usou-se a canção partidária Giovinezza

Nepal no Monte Everest. Robert Peary carregou a bandeira dos Estados Unidos no Pólo Norte em 1909 e em 1969 Neil Armstrong e Edwin Aldrin a colocaram na lua, no auge da Guerra Fria (fotografia 3). Em 2007 foi a vez de a Rússia plantar em pleno leito do Oceano Ártico a sua bandeira nacional (fotografia 4), como uma forma de demonstrar soberania sobre a região, mostrando a vitalidade e a plasticidade deste símbolo em tempos modernos: 51

O fato de as bandeiras serem desfraldadas em navios e construções, hasteadas em batalhas e no topo das montanhas, carregadas nos Jogos Olímpicos e para o espaço exterior, ostentadas em eventos desportivos e em comícios políticos, as tornam símbolos primários da idade moderna. Brasões de armas são menos expressivamente usados por causa de serem menos flexíveis, geralmente aparecendo pintados, impressos ou esculpidos para identificar uma agência ou instrumento do governo (SMITH, 1980, p.6).