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A perspectiva tradicional ou normativa da sociologia da ciência foi desenvolvida entre as décadas de 1940 e 1970 e seu principal representante foi Robert Merton, o qual produziu um estudo aprofundado sobre a atividade social da ciência na Inglaterra do século XVII, propondo a existência de uma importante relação entre o desenvolvimento científico e as condições sociais, econômicas, políticas e culturais da época. Robert Merton também fundamentou a ideia de que o progresso científico é produto, principalmente, da atividade autônoma de cientistas que constroem um conhecimento que acumula importantes conquistas e que, posteriormente, será utilizado por novos empreendedores da ciência.

O nascimento da ciência moderna abrangeu esforços individuais, tais como os realizados por Galileu, Newton e Descartes. Naquela época, os trabalhos desses autores ainda permaneciam em uma dimensão muito restrita a atividades individuais, o que seria modificado durante os séculos XVII e XVIII, período no qual a ciência deixou de se constituir como um esforço individual e passou a ser um esforço coletivo que, paulatinamente, foi se institucionalizando na sociedade. A criação do primeiro coletivo de cientistas se deu no ano de 1662. Estes se organizaram na primeira sociedade científica, conhecida como Royal Society, o que representou a evidência concreta de que a ciência constituía-se como um trabalho especializado, realizado por determinadas pessoas que estabeleciam critérios de avaliação e certificação dos resultados de seus estudos, podendo assim caracterizá-los como conhecimentos científicos. Pelo contrário, aqueles trabalhos ou práticas que não fossem coerentes com o que estava estabelecido pelo coletivo científico eram rejeitados e

considerados como conhecimento não científico. Os coletivos de cientistas proliferaram pela Europa surgindo, assim, as academias de ciência na Prússia, em 1700, na Rússia, em 1735 e na Suécia, em 1739. Juntamente com a criação dessas primeiras sociedades científicas nasceu a profissão de cientista e, desta forma, a ciência se constituiu como atividade reconhecida pela sociedade, representada pelos detentores de um tipo de conhecimento particular em comparação com os pré-existentes.

Merton também considerou que o puritanismo e a importância tecnológica para o desenvolvimento da indústria da mineração, da indústria têxtil e militar exerciam alguma influência no desenvolvimento científico, embora não o determinassem. Muitos membros da Royal Society eram puritanos e, provavelmente, suas crenças sobre a ordem perfeita de Deus, representada na natureza, resultaram em uma motivação levemente manifesta para a busca de um conhecimento rigoroso e aprofundado sobre o funcionamento da mesma e para a aceitação das reflexões e críticas como aspectos essenciais para que os indivíduos enfrentassem a realidade.

Merton realizou aprofundamentos na tese de que a ciência era uma atividade autônoma e, embora estivesse relacionada com as atividades sociais, políticas e econômicas da época, estas não poderiam determinar o seu desenvolvimento, pois a ciência tinha um ethos específico, constituído pelo conjunto de normas e valores envolvidos no julgamento do trabalho e do comportamento dos cientistas, com o qual a comunidade concordava. Assim, a integridade e o valor da pesquisa científica eram cuidados. Merton (1973) afirmou que a institucionalização social da ciência representava o reconhecimento de que aquele conhecimento era verdadeiro e acreditável na medida em que apresentava uma estrutura lógica e procedimentos rigorosos de verificação e de constatação. Nesse sentido, era possível propor quatro princípios ou normas que fundamentavam o ethos da ciência moderna: 1) universalismo, 2) comunalismo, 3) desinteresse e 4) ceticismo.

O universalismo é representado pelo fato de o conhecimento científico ser objetivo e verdadeiro na medida em que sua estrutura e construção não dependem de crenças ou valores pessoais ou sociais. Dessa forma, a natureza desse conhecimento não depende de atributos pessoais dos cientistas, tais como classe social, religião ou nacionalidade, mas dos critérios de validade adotados na estrutura lógica e racional da ciência. Embora na história de alguns países, tais como a Alemanha Nazi ou a União Soviética comunista, existisse a pretensão de justificar certas práticas de cientistas como universais, as pretensões ideológicas e

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antidemocráticas colocavam-se contra a ideia do universalismo, ao que se devia atentar também no contexto de uma política democrática da ciência.

A norma do comunalismo indica que o conhecimento científico é construído colaborativamente pelos cientistas da comunidade e essa construção é realizada publicamente, pois existem os instrumentos de socialização criados pelas escolas de ciências e as associações de ciências para esse fim. Independentemente da nacionalidade ou da origem do cientista, sua produção não pertence a ele nem ao local de sua origem, mas é parte da comunidade. Porém, embora existam pressões políticas de toda ordem, seja capitalista ou socialista, a ciência cuida do valor da produção comunitária. Merton apresenta exemplos da história da ciência, tais como os conflitos existentes entre o verdadeiro autor do cálculo na disputa desenvolvida entre Newton e Leibniz para indicar que, apesar desses conflitos, a estrutura social da ciência elabora os mecanismos, procedimentos e instrumentos necessários para cuidar da natureza comunitária da ciência, tais como os direitos ou a propriedade intelectual, o que ajuda a reconhecer a produção dos cientistas em uma estrutura comunitária e colaborativa, pois existem os mecanismos de avaliação e certificação criados pela comunidade para dirimir divergências de opinião.

O desinteresse implica reconhecer que a ciência é uma profissão que não se pode julgar pela adesão de valores altruístas ou valores individualistas, mas pela busca objetiva de um conhecimento consistente. Embora os cientistas possam agir de acordo com valores de respeito, honestidade e solidariedade, estes não determinam a natureza do conhecimento por eles produzido; o importante são os processos de justificação e avaliação empregados pelos cientistas mais experientes e detentores de maior autoridade para julgar a qualidade de uma produção científica, em acordo com as próprias regras da comunidade e não em função de seus interesses pessoais.

A norma do ceticismo garante que a ciência, como atividade autônoma, não se torne uma doutrina absoluta e inquestionável, pois garante a necessária crítica e uma discussão aberta dos resultados e conclusões da ciência. Os resultados empíricos e lógicos da ciência podem gerar conflito com as crenças, princípios e atitudes de outras instituições que, ao mesmo tempo, podem gerar pressões sobre a atividade científica na qual os cientistas não consideram distinção entre o sagrado e o profano, e onde a crítica e a análise são realizadas conforme a objetividade do conhecimento e suas possibilidades de refutação e contradição.

De acordo com Shin e Ragouet (2008), as ideias diferenciacionistas de Merton foram também desenvolvidas por outros autores, como é o caso de Joseph Ben-David (1920-1986),

o qual propôs que, além da autonomia da ciência, a competição entre instituições e pessoas, bem como a descentralização institucional e o surgimento de especialistas disciplinares seriam fundamentais para impulsionar o crescimento científico. Alguns aspectos da tese deste autor são questionados por Shin e Ragouet (2008) no sentido de mostrar que não necessariamente os processos de descentralização representaram um maior crescimento da ciência; por exemplo, na França da primeira metade do século XX, onde não houve uma relação linear entre descentralização, centralização e maior avanço científico. Não se trata de um maior investimento em ciência para que esse campo autônomo possa crescer mais rápido e gerar maiores benefícios, mas sim de algo mais complexo e que abrange a geração de estratégias articuladas de investimento e desenvolvimento científico. Recentemente, a sociologia diferenciacionista da ciência também se apoia na cienciometria, para embasar as medidas de notoriedade científica e produtividade em termos de visibilidade dos trabalhos científicos e da qualidade destes; dessa forma, por exemplo, as medidas de índices de citação e impacto mostram que o reconhecimento científico aumenta quando os trabalhos são desenvolvidos pelos pesquisadores com maior perícia.

A perspectiva tradicional e normativa da ciência embasada principalmente no trabalho de Merton, apesar de contribuir para a compreensão do processo de institucionalização da ciência na modernidade, bem como para a elaboração de uma proposta concreta para explicar a construção social da ciência enquanto coletividade social, orientada por determinadas normas, foi indiretamente questionada pelo trabalho fundador de Kuhn (2001) que, ao considerar que a compreensão da ciência dependia da adesão dos cientistas aos valores, normas e princípios de um determinado paradigma, deixou em aberto a possibilidade de se pensar que existem várias versões de ciência e que estas podem entrar em competição de acordo com determinadas evidências experimentais e postulados teóricos. Dessa forma a ciência é semelhante a outros tipos de conhecimentos, nos quais há diversidade de opções e não pode mais ser governada por normas que definam sua autonomia absoluta.

A partir da análise de casos notáveis da história da ciência, Kuhn (2006) demonstrou que o desenvolvimento científico experimenta importantes mudanças e que não segue somente uma ordem linear, nem cumulativa, pois existem episódios extraordinários nos quais a tradição da ciência é questionada, podendo gerar a substituição total ou parcial de um determinado paradigma científico. Os três casos estudados por Kuhn foram: a invenção da segunda lei de Newton, a invenção da pilha elétrica por Alessandro Volta, e o problema do corpo negro proposto por Max Planck. Quando os cientistas são partidários de determinado

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paradigma, fazem adesões que não são exclusivas de seus compromissos acadêmicos, mas que podem expressar compromissos políticos e ideológicos, assim, a ideia de um comunalismo autônomo, que nada tenha a ver com tais compromissos, é rechaçada a partir da análise histórica de Kuhn.

No denominado programa forte da sociologia, proposto por David Bloor e Barnes Barry, membros da Escola de Edimburgo, estes retomaram a ideia relativista de Kuhn e decidiram desenvolver uma nova alternativa sociológica para compreender a natureza da atividade científica, um referente importante foi o livro de Bloor, Knowledge and social imagery publicado em 1976, propondo os princípios de causalidade, imparcialidade, simetria e reflexividade inspirados no funcionamento de outras ciências.