A tese da necessária adoção do relativismo para uma melhor compreensão sociológica da ciência é fundamentada em uma crítica importante à sociologia funcionalista e normativa de Merton. Barnes e Dolby (1994) questionam os quatro princípios dessa sociologia (universalismo, comunalismo, desinteresse e ceticismo) que seguem um racionalismo excessivo, o qual define regras estritas – adotadas somente pela comunidade científica –, desconhecendo que as pessoas e os coletivos de pessoas também devem aceitar normas estabelecidas; por exemplo, para conseguir a comunicação entre elas, necessariamente são seguidas normas impostas pela linguagem que envolve processos de negação, contradição e discriminação. Assim, o relativismo defende a tese de que o conhecimento da ciência é relativo a pessoas e locais, a culturas e história. Segundo Barnes e Bloor (1997), o relativismo é fundamental para todas as disciplinas interessadas na pesquisa da diversidade de sistemas de conhecimento e na distribuição e padrões de mudança dos mesmos. Os princípios básicos do relativismo são definidos, em primeiro lugar, na ideia de que as crenças sobre um tema variam permanentemente; em segundo lugar, que o uso dessas crenças depende dos contextos particulares que as definem e, em terceiro lugar, o fundamental do relativismo que é o postulado de simetria ou equivalência, o qual não considera que todas as crenças sejam igualmente verdadeiras ou falsas, mas sim que a credibilidade destas exige pesquisas empíricas para determinar suas causas locais ou específicas. Vários trabalhos históricos e antropológicos desenvolvidos por Bruno Latour, por exemplo, seguem esse princípio e constituem-se em uma base importante da perspectiva sociológica atual.
O relativismo aceita que as suas preferências e avaliações estão ligadas ao contexto e têm credibilidade local. Assim, o sociólogo deve focar-se nas causas das crenças e explicar os padrões institucionalizados do conhecimento. A realidade é um fator comum em todas as respostas cognitivas e, ao mesmo tempo, é diferente por não depender somente de uma razão incondicional e por ser um processo de aquisições de convenções específicas da cultura; em consequência não há significados padronizados, pois, as regras em termos linguísticos são especificas ao contexto, mais que universais.
A sociologia com o programa forte faz uma crítica aos princípios essenciais da sociologia mertoniana e, nesse sentido, o universalismo não pode ser um principio exclusivo da atividade científica, pois toda sociedade têm determinados princípios que são de aplicação impessoal e não é pertinente confundir os critérios de verdade com os indicadores de verdade (BARNES; DOLBY, 1994). Os cientistas constroem critérios de verdade de acordo com seus trabalhos particulares e locais, a partir dos quais defendem suas conclusões e, dessa forma, têm um posicionamento e preferências por uma determinada teoria, o que não é coerente com o principio do ceticismo que garante a objetividade do conhecimento e, assim, as possibilidades de sua refutação e de oposição. Em alguns casos, há cientistas que articulam elementos de teorias que estão em conflito e, portanto, assumem uma perspectiva que os torna céticos diante de alguns resultados; no entanto, podem aceitar outros.
A natureza social ou coletiva do conhecimento científico não é considerada conforme o comunalismo mertoniano que defende a autonomia absoluta da ciência; diferentemente, os cientistas baseiam suas ações e decisões no paradigma que seguem e, dessa forma, é possível considerar, no trabalho científico, a transmissão de conhecimentos sob um paradigma que orienta a formação de crenças de seus partidários e se constitui como espaço de formação dos futuros cientistas. Considerando historicamente o princípio de comunalismo, é possível evidenciar que o mesmo não estava amplamente desenvolvido no século XVIII, quando ainda existiam cientistas que não estavam interessados em publicar seus trabalhos ou que agiam de forma secreta para proteger suas pesquisas de seus adversários; assim, é claro que em determinados contextos o comunalismo não existe para proteger a autonomia da ciência.
O principio de desinteresse na ciência também foi questionado por Barnes e Bloor (1997). Por exemplo, o aumento das aplicações econômicas da pesquisa científica tem gerado um acelerado crescimento da ciência e, em consequência, o controle de empresas ou militares é evidente. Além disso, a coesão, solidariedade e compromisso existente na comunidade de cientistas são valores próprios das normas particulares de um paradigma e não dependem de
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um ethos global. Os processos através dos quais se consegue o acordo ou consenso entre os cientistas são fundamentais para favorecer mudanças na ciência, mas diante dessa preocupação surge aquela voltada para as normas, especialmente para as que poderiam constituir crítica aos adversários. Nesse sentido, não é pertinente basear essa análise na racionalidade, no ceticismo ou no desinteresse. O não acordo normativo é fundamental na ciência, mas são a linguagem e a cultura partilhada pelos cientistas que fazem úteis as normas técnicas implícitas nos paradigmas e não as normas especificamente científicas.
Podemos dizer que a sociologia relativista da ciência propôs uma nova forma de entender a natureza social do conhecimento científico e, até certo ponto, a tese referida a construção do conhecimento dependente dos contextos locais e históricos foi levada a sério por antropólogos como Bruno Latour, o qual desenvolveu interessantes pesquisas que procuraram entender a atividade científica na ação e nos contextos locais, como no laboratório. Recentemente, esse autor desenvolveu a teoria de ator de rede, a qual não está baseada em um referencial teórico especifico, mas utiliza alguns conceitos orientadores, tais como simetria, relativismo e híbridos, entre outros, para denotar que os atores são os que fazem quase tudo o que o sociólogo precisa estudar. Latour (1994; 1994a) apresenta as complexas relações que os cientistas estabelecem nas redes que constituem e às quais se vinculam, e denota as disputas entre diferentes pontos de vista, nas quais se conquistam vitórias graças ao poder.
A perspectiva sociológica relativista e os trabalhos etnográficos, como os realizados por Bruno Latour e Steven Wolfgar, são considerados por Shin e Ragouet (2008) como uma abordagem antidiferenciacionista da ciência, na medida em que consideram que essa atividade pode ser analisada de acordo com olhares históricos e antropológicos que não a consideram como uma construção autônoma. Para esses autores esta abordagem antidiferenciacionista desmitificou, desde os inícios do ano de 1980, a tese normativa, autônoma e absoluta da ciência, ao mostrar que o poder, o dinheiro e o lucro simbólico se constituem elementos essenciais do trabalho científico, da mesma forma que constituem outros microcosmos sociais. Dessa forma, o que os cientistas interpretam como natureza é uma construção da cultura. Quanto à verdade científica, ela não se reveste senão de um estatuto que conferimos aos enunciados e às proposições de atores vencedores no contexto de disputa do qual participa a ciência.
Ainda, segundo Shin e Ragouet (2008), embora as contribuições da perspectiva antidiferenciacionista resultem interessantes para se analisar criticamente a sociologia
tradicional da ciência, tem gerado exagerados discursos niilistas e de anticiência. Diante dessas limitações, os autores propõem uma sociologia transversalista, embasada nos seguintes postulados:
1) a autonomia relativa do campo científico, o que significa que ele está dotado, ao mesmo tempo, de mecanismos de regulação que lhe são próprios e que ele estabelece com outros microcosmos sociais - campos econômico, político, etc – de relações de interdependência;
2) a existência de fluxos migratórios transversais aos espaços disciplinares que concernem tanto aos praticantes quanto aos conceitos e instrumentos sobre os quais os antidiferenciacionistas se debruçaram, mas para ver neles somente o testemunho de uma desaparição das fronteiras, notadamente disciplinares;
3) a persistência de movimentos de convergência intelectual e de capitalização cognitiva que transcendem as demarcações disciplinares, bem como, a estabilização de subcampos de pesquisa (SHIN; RAGOUET, 2008, p. 123).
A sociologia transversalista dá conta de aspectos de universalidade que são desconsiderados pelas perspectivas antidiferenciacionistas. A validade da universalidade aparece quando os praticantes inscritos em diferentes domínios obtêm resultados estáveis e duráveis. A universalidade prática permite que os cientistas, os engenheiros e o público leigo possam se comunicar além das fronteiras culturais que os separam, assim, a universalidade é uma produção social.
Finalmente, podemos dizer que a discussão sociológica realizada acima nos permite sintetizar outras características da NdC que são fundamentais para a análise das compreensões dos professores ao discutirem QSC. Estas características são apresentadas em seguida:
a ciência é uma atividade social e cultural que estabelece múltiplas relações com outras atividades sociais, econômicas e políticas. Embora não se possa afirmar que seja uma atividade totalmente autônoma, pode-se dizer que os cientistas estabelecem determinadas regras, valores, formas de produção, comunicação e divulgação que constituem determinadas práticas, as quais, articuladas a um determinado paradigma, garantem a obtenção de resultados estáveis em um determinado tempo;
a produção de conhecimentos científicos está influenciada por diversos interesses, tanto dos pesquisadores envolvidos como de outros atores sociais que podem, em determinadas condições políticas, controlar o trabalho do cientista;
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a crítica na atividade científica não está restrita às normas estabelecidas pela comunidade científica; também há pressões externas e dinâmicas locais, contextuais e culturais que podem gerar críticas importantes para orientar de outra forma a ciência;
na ciência existem disputas entre os seus praticantes, tanto por questões teóricas, empíricas, quanto por interesses de outra ordem, que podem ser ideológicos, políticos ou econômicos.