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Esclarecemos inicialmente que a decisão por intitular a nossa proposta como dicionário enciclopédico toponímico” foi tomada considerando que, a microestrutura veicula dados enciclopédicos, como informações geográficas e históricas, como veremos de modo mais detalhado no tópico 4.4 Microestrutura dos verbetes.

Para esta escolha encontramos respaldo nas palavras de Haensch (1982, p. 130) para quem

As enciclopédias registram, por um lado, palavras com função designativa, e, por outra, nomes próprios. Às vezes é realmente quase impossível estabelecer uma acentuada separação entre dicionários de

língua e dicionários de coisas, pois o lexicógrafo precisa também, se desconsiderarmos as unidades léxicas funcionais ou relacionais, de informações sobre as coisas, sobre a matéria, para elaborar dicionários de língua. Em outros casos, os dicionários linguísticos dão definições enciclopédicas onde se espera uma definição linguística. Em outras palavras, um dicionário enciclopédico abarca também um dicionário linguístico. Existe uma forma mista ou híbrida: o chamado dicionário enciclopédico.11 (HAENSCH, 1982, p. 130).

Além dessa, é certo que há diversas outras explicações e posições sobre o que se configura como dicionário e como enciclopédia, especialmente com reflexões partindo da definição. Haiman (1980) explica que, se as descrições dos significados das unidades léxicas encontradas nos dicionários utilizam somente conceitos semânticos e não descrições do mundo extralinguístico, poucas informações são acrescentadas na prática. Hernández (1989, p. 20) pondera que “tradicionalmente se admite que a missão do dicionário é a de definir palavras e a da enciclopédia descrever objetos”12, mas questiona: “não será essa distinção mais teórica do que prática?”13.

Também encontramos em Bosque (1982, p.12) a defesa de que informações de origem enciclopédica são quase inevitáveis para a completude de uma obra dicionarística. Para o autor, “o lexicógrafo não pode deixar de incorporar aos dicionários as definições enciclopédicas, pois isto só resulta em benefício para o usuário”14.

Assim, acreditamos que nossa proposta não poderia ser chamada somente de “dicionário”, uma vez que apresenta informações de tipo geográfica e histórica, contudo, limitaríamos sua abrangência se a nomeássemos apenas como enciclopédia, já que o que justifica a organização do sistema conceptual são justamente os traços

11Las enciclopédias registram, por una parte, palavras com función designativa y, por outra, nombres

próprios. A veces, hasta resulta casi imposible estabelecer uma separación tajante entre los diccionarios de la lengua y los diccionarios de cosas, puesto que el lexicografo también necessita, si prescindimos de las unidades léxicas funcionales o relacionales, información sobre las cosas, sobre la matéria, para poder redactar diccionarios de la lengua. Em otros casos, os diccionarios linguísticos dan difiniciones enciclopédicas, ali donde se espera más bien una definición linguística. Em otras palavras, um dicionário enciclopédico encierra em si también um dicionário linguístico. Existe uma forma mixta o híbrida: el llamado ‘diccionario enciclopédico.” (Tradução nossa)

12 “tradicionalmente se admite que la misión del dicionário es la de definir palavras y de la enciclopédia describir objetos”(Tradução nossa)

13 “no será esta distinción más teórica que práctica?”. (Tradução nossa)

14 “el lexicógrafo no puede deixar de incorporar a los diccionarios las definiciones enciclopédicas puesto que ello solo redunda em beneficio del usuario” (Tradução nossa)

semânticos relacionados às características hidrográficas dos elementos geográficos e a taxionomia toponímica de cada um. Além disso, na composição da microestrutura dos verbetes de nosso dicionário há os itens informação gramatical e etimologia que se configuram como dados linguísticos.

Nossa proposta pode ser classificada como parcialmente onomasilógica, pois, como explica Haensch (1982, p. 165), “a ideia fundamental do agrupamento onomasiológico é o de levar em conta as associações que existem entre os conteúdos, tanto do ponto de vista da língua como das coisas”15. E, em nossa proposta, no sistema conceptual apresentamos os dados tanto por função semântica, organizado por taxionomias, quanto em ordem alfabética dentro de cada subdivisão. Optamos por esta forma de apresentação por notarmos que, para o tipo de dado ao qual pretendemos aplicá-lo, no caso, os topônimos, mostra-se o mais adequado.

É possível também nomearmos a nossa proposta de dicionário de ‘analógica’, considerando a definição apresentada por Biderman (1982, p. 11), segundo a qual “um dicionário analógico organiza os conceitos em campos semânticos, ao invés de ordenar as palavras em ordem alfabética como os dicionários comuns”. A autora (1982, p. 12) explica que

no universo em expansão em que hoje vivem os homens, estaria ocorrendo uma convergência dos sistemas classificatórios, expressos por denominações lexicais. E, mais ainda, na aldeia global dos meios de comunicação em que está vivendo o homem contemporâneo, intensifica-se a tendência à universalização de conceitos, sobretudo no domínio técnico-científico. (BIDERMAN 1982, p. 12).

Há carência de tratamento de topônimos em forma de dicionários, contudo entendemos que isso se deva provavelmente ao fato de a Toponímia, abordada como disciplina da Linguística, ser um ciência recente em relação à outras disciplinas linguística já mais consolidadas. Nesse sentido, consideramos que nossa proposta de dicionário enciclopédico toponímico venha a dar um a contribuição nesse campo.

15 “la idea fundamental de la agrupación onomasiológica es la de tener en cuenta las asociaciones que existen entre contenidos, tanto desde ponto de vista de la lengua como desde el de las cosas.”. (Tradução nossa)