5 Input data for modelling
5.3 Emission data
5.3.2 Road traffic, present situation
Apesar de a história das mentalidades ser extremamente criticada por muitos historiadores, seja por se afastar da tradição dos Annales, seja por dela herdar seus defeitos, contraditoriamente, representa ainda um campo de estudos profícuo. Considerada como irmã da Nova História, em parte porque se preocupa com os modos de sentir e de pensar, preocupação dos intelectuais dos Annales, a história das mentalidades teve um percurso peculiar, pois também rompeu, em parte, com as temáticas valorizadas por Febvre, Bloch e Braudel.
No início do século XX, no Ocidente, a palavra mentalidade designava os comportamentos e as atitudes coletivas. Embora usada na antropologia com sentido pejorativo para indicar comportamentos primitivos, na historiografia, foi usada para denominar “as atitudes mentais de uma sociedade, os valores, o sentimento, o imaginário, os medos, o que se considera verdade, ou seja, todas as atividades inconscientes de determinada época. As mentalidades são aqueles elementos culturais e de pensamento inseridos no cotidiano, que os indivíduos não percebem”. (SILVA & SILVA, 2010, p. 279).
Apesar de Lucien Febvre e March Bloch serem considerados os pioneiros dos estudos sobre as mentalidades por fazerem delas seu objeto de investigação histórica, já existia essa preocupação nos trabalhos de Johan Huizinga e Norbert Elias. Todos eles “reconheciam à história em domínio diverso daquele a que estivera limitado, o das atividades conscientes, voluntárias, orientadas para a decisão política, a propagação das ideias, a conduta dos homens e dos acontecimentos”. (ARIÈS, 2005, p.208). A história era
entre presente e passado no conhecimento histórico, contra qualquer concepção que negue as responsabilidades sociais do historiador” (CARDOSO, 1988, p. 42-43).
vista, nos Annales, sob o ponto de vista da evolução psicológica, considerando os comportamentos e atitudes mentais coletivas14.
Febvre propôs o conceito de “outillage mental”, ou “aparelhagem mental”, inspirado pelo conceito de mentalidade primitiva ou pré-lógica de Lévy Bruhl, para designar “todas as formas de percepção, expressão, ação, as técnicas e a língua de uma sociedade, abarcando, dessa forma, o conjunto de elementos usados pelos indivíduos para se expressarem e interagirem em sociedade” (SILVA & SILVA, 2010, p. 280).
Bloch usou o conceito de “representações coletivas” para indicar o estudo das formas de sentir e pensar de determinado período, influenciado pelas teorias sociológicas de Durkheim. A preocupação com as mentalidades esboçou-se em Bloch, quando examinou as “crenças populares no poder curativo do toque real desde a Idade Média ao séc. XVIII, comparando as monarquias francesa e inglesa” (VAINFAS, 1997, p.132).
A história das mentalidades, na primeira geração dos Annales, era apenas uma faceta da história social ou da história econômica e social. Depois passou a ser vinculada à história demográfica, pois contribuía para o entendimento das atitudes diante da vida, da idade, da doença, etc. “Séries numéricas na longa duração revelaram modelos de comportamento de outro modo inacessíveis e clandestinos. Assim, as mentalidades surgiam ao cabo de uma análise das estatísticas demográficas” (ARIÈS, 2005, p.24).
A história das Mentalidades utiliza as abordagens da etnologia, técnica da Antropologia que descreve a comunidade estudada, sem se preocupar com sua historicidade, e da Psicologia, no tocante ao inconsciente coletivo, à estrutura mental, ou seja, aos traços mentais que os indivíduos, numa determinada sociedade, num determinado tempo, têm em comum sem que percebam. Usando a técnica da Etnologia, o historiador, ao escolher um determinado contexto histórico, tenta descrevê-lo em todos os seus aspectos, tanto os relacionados à economia quanto às formas de sentir e agir. Essa preocupação conduziria a História a cumprir uma das metas propostas pelos Annales: a história total.
Quando Braudel assumiu o controle dos Annales, houve certo apagamento da preocupação com a mentalidade para problematizar o espaço e o tempo na construção da história. Com a aposentadoria de Braudel, assumiu Le Goff o controle e, com ele, a história das mentalidades passou novamente a ser construída. Abriu-se, assim, o caminho para que a produção historiográfica francesa fosse do porão ao sótão, “metáfora então usada para exprimir a mudança de preocupação da base socioeconômica ou da vida material para os
processos mentais, a vida cotidiana e suas representações”. (VAINFAS, 1997, p. 136). Foi a partir da década de 1960, então, que as mentalidades tomaram novo impulso com os trabalhos de Philippe Ariès (1971), Le Goff (1993;1994) e Georg Duby, principalmente tratando da Idade Média francesa.
Além da ampliação das fontes, as mentalidades também agraciaram novos temas. Com os exemplos do imposto (Marcel Mauss), do tempo (Le Goff), do espírito maligno (Febvre) e da contracepção, o conceito de mentalidade provocou ou implicou uma maior abrangência no território do historiador. Os temas mais recorrentes na história das mentalidades foram “a vida no trabalho, a família, as idades da vida, a educação, o sexo, a morte, isto é, as zonas que se acham nas fronteiras do biológico e do mental, da natureza e da cultura”. (ARIÈS, 2005, p.227). Vainfas (1997) propõe uma classificação desses temas em quatro grupos: aqueles ligados à religiosidade; à sexualidade; aos sentimentos coletivos e à vida cotidiana. Em relação ao estilo, a narração e a descrição são a tônica, afastando-se da explicação globalizante.
É difícil, entretanto, delimitar o campo e o objeto desta história. Geralmente afirma- se que é a história “a mais aberta possível à investigação dos fenômenos humanos no tempo, sem excluir a dimensão individual e mesmo irracional dos comportamentos sociais, e procurando resgatar os padrões menos cambiantes da vida cotidiana, mormente o universo de crenças ligadas ao nascimento, à morte, aos ritos de passagem, ao corpo, aos espaços e ao tempo”. (VAINFAS, 1997, p.138). Além disso, é a história das mentalidades afeita à interdisciplinaridade e à quantificação dos dados.
Vovelle (1991), por sua vez, vincula a história das mentalidades à ideologia, traçando, portanto, uma relação intrínseca com os pressupostos marxistas no que se refere à dominação de classe. Mas a história das mentalidades não deve ser confundida com a ideologia, porque a ideologia “sugere uma dependência das formas de pensamento para com a realidade concreta econômica, assim como pode ser também uma forma de representar as condições de vida de determinada classe, ao passo que a mentalidade é um conceito mais amplo, que abrange formas de pensamento independentemente da classe social” (SILVA & SILVA, 2010, p. 281).
Ginzburg (1987) é também um historiador das mentalidades e um dos expoentes da micro-história que, a partir da cosmologia de um moleiro chamado Menocchio, tenta apreender as relações entre um sistema de crenças e de valores frente ao seu pertencimento social. Outros historiadores não franceses também estudaram as mentalidades, como é o
caso de Natalie Davis (1990), que se preocupou com as implicações da Reforma protestante na vida das mulheres e dos trabalhadores comuns do início da França moderna, e Robert Darnton (1990, p. 231), para quem a história das mentalidades é uma “história intelectual de não-intelectuais, uma tentativa de reconstruir a cosmologia do homem comum ou, em termos mais modestos, de entender as atitudes, os pressupostos e as ideologias implícitas de grupos sociais específicos”.
Ao considerar apenas a historiografia sobre as mentalidades na França, Vainfas (1997) indica três variantes da história: 1) uma herdeira da tradição dos Annales, seja na valorização da aparelhagem mental, seja na crença de que o estudo mental só faz sentido se articulado a totalidades explicativas, como a produzida por Le Goff, Duby, Le Roy Ladurie; 2) uma marxista, que relaciona os conceitos de mentalidade à ideologia, no caso de Vovelle, e 3) uma preocupada em descrever e narrar épocas ou episódios do passado, sem considerar a explicação e a diferença entre narrativa literária e narrativa histórica, gerando micro-campos, como a vida privada, história de gênero e história da sexualidade, além da micro-história– a exemplo de Ginzburg (1987), em o Queijo e os Vermes.
A história das mentalidades, geralmente, é confundida, por assim dizer, com a história das ideias. Para Silva & Silva (2010, p. 281), a História das Ideias dela se distingue por “abordar as inovações e ideias revolucionárias no campo da política, da ciência ou da religião, pouco se preocupando com o que o povo pensa”. Falcon (1997), entretanto, adverte os leitores para a pluralidade de conceitos por causa dos efeitos de sentido que a palavra “ideias” carrega.
Para Chartier (2002), a história das ideias não existe nem como noção, mas a historiografia francesa contempla uma espécie de história social das ideias, a história das mentalidades. Nesse caso, história das ideias tem o mesmo sentido de história das mentalidades quando à palavra “ideias” sobrepõe-se a palavra “social”. O fato é que cada historiografia nacional apresenta um conceito diferente para a história das ideias. Uma delas é a de Ehrard (1974 apud CHARTIER, 2002, p.24) para quem a história das ideias engloba três histórias: “história individualista dos grandes sistemas do mundo, história dessa realidade coletiva e difusa que é a opinião, e história estrutural das formas de pensamento e de sensibilidade”.
Darnton (1990, p.188), por sua vez, aponta 4 disciplinas onde as ideias são estudadas sob a perspectiva conceitual vertical – num dos extremos, estuda-se a ideia contida nos sistemas filosóficos; noutro, examinam-se as atitudes e rituais dos iletrados:
“a) a história das ideias propriamente ditas- o estudo do pensamento sistemático, ou seja, as ideias geralmente expostas em tratados filosóficos, contra a qual Febvre trava um combate; b) história intelectual- o estudo do pensamento informal, climas de opinião, movimentos literários; c) a história social das ideias- estudo das ideologias e da difusão das ideias; d) história cultural- estudo da cultura no sentido antropológico, inclusive as concepções ou visões de mundo e as mentalidades”.
Para Krieger (apud FALCON, 1997), entretanto, existem duas tendências básicas: a historicista – que reúne o modelo marxista, o modelo norte-americano da história das ideias associado a Lovejoy e parte do modelo proposto por Nobert Elias – e a sociointelectual – que reúne o modelo francês de mentalidade de Febvre e Bloch, a abordagem de Warburg em termos de tradição e parte também de Norbert Elias. Nessa tendência, dá-se prioridade ao popular e seus historiadores “identificam as ideias e as atitudes como produtos de uma função social distinta, reconhecendo certa autonomia ao papel histórico das ideias e a necessidade de métodos históricos específicos para sua compreensão (...)” (FALCON, 1997, p.118). Os principais historiadores deste grupo são os franceses da “terceira geração” dos Annales, como Chartier, Revel e Furet; o norte- americano Robert Darnton e o inglês Peter Burke. Ainda fazem parte Foucault, Norbert Elias, Geertz, Bourdieu, Certeau e Ginzburg, com algumas ressalvas.
Tanto a história das ideias quanto a história das mentalidades refugiaram-se na denominação História Cultural que se caracteriza pela rejeição do conceito de mentalidades por considerá-lo vago e impreciso quando se refere à relação entre o mental e o social. Em alguns casos, para evitar ser confundida com a antiga história da cultura, disciplina acadêmica que visava estudar as manifestações oficiais ou elitizadas da cultura de uma determinada sociedade, a história cultural apresenta-se como Nova História Cultural. Além de se preocupar com as classes sociais, com os conflitos entre classes, pretende também ser uma história múltipla, apresentando múltiplos caminhos para a investigação histórica.
Com essa nova designação, para evitar os entraves conceituais, Chartier propõe uma história preocupada não com a prática cultural popular, até porque a identificação dos níveis culturais ou intelectuais a que pertencem determinadas objetos ou práticas não é tarefa fácil, mas com a representação e a apropriação dessas práticas. Os documentos são vistos como textos, como “um sistema construído segundo categorias, esquemas de
percepção e de apreciação, regras de funcionamento, que remetem às suas próprias condições de produção” (CHARTIER, 2002, p. 56).
Como se pode ver, é difícil, senão quase impossível, dissociar a história das ideias da história cultural.