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questões aqui colocadas visam à construção de conceitos matemáticos

pertencentes ao conteúdo programático escolar - mais especificamente aos

encontrados nos estudos sobre sólidos geométricos, ângulos e simetrias -

articulados aos objetos utilizados na construção de barcos, prática

tradicionalmente desenvolvida na região de pertencimento dos alunos. Mas

isso não é tudo. Almejar que os alunos compreendam os aspectos

peculiares à geometria euclidiana através de peças e etapas da construção

de barcos, além de ser um recurso didático-metodológico, é também um

recurso que exercita o operador cognitivo de pensar a produção do

conhecimento a partir da sistematização científica (matemática escolar)

sem desconsiderar outros tipos de sistematização advindas de outras

fontes não menos reconhecidas entre seus interlocutores – nesse caso, os

saberes desenvolvidos pelos mestres-artesãos através da prática da

construção de barcos.

O desejo também é de se trazer à tona outros referenciais explicativos que fazem do objeto barco um símbolo-signo ao povo abaetetubense (Paes Loureiro, 1995), mais que um aparato metodológico que serve como referencial de identificação e discussão de informações do conteúdo matemático escolar. Pois da rede de informações interdisciplinares da qual o barco faz parte é que se

pretende oferecer ao aluno uma visão da complexidade pertinente a produção do conhecimento que é requisitado pela instituição a partir do momento que ele (aluno) começa a fazer parte dela.

É desta inspiração – o barco - que os objetivos relacionados a seguir, divididos por atividades para fins didáticos de exposição, contêm aspirações de cunho específico e geral, particular e universal, uno e múltiplo.

2.1 ATIVIDADE 1: CONSTRUINDO BARCOS E MATEMÁTICA

Objetivos: caracterizar os principais sólidos geométricos (cubo, paralelepípedo, prima triangular, pirâmide, esfera, cilindro e cone) a partir da observação de peças que compõem o barco e de outros objetos comuns ao cotidiano; identificar o uso das formas dadas pelos sólidos geométricos para fins práticos e os utilizados por religiões; discutir sobre o uso dos sólidos geométricos em outras áreas senão as identificadas no texto orientador das atividades; observar material iconográfico (fotos e pinturas) de embarcações que compõem o universo das artes realçando a estética na composição de formas e cores.

Já vimos que os barcos podem receber vários nomes, de acordo com suas finalidades ou capacidades. Aqui em Abaeté3 também lidamos com barcos que

possuem várias denominações tipo:

3O nome Abaeté é comumente utilizado pela região ao se referir ao Município de Abaetetuba,

tendo em vista que, ao longo de sua história houve por duas vezes a troca de nome de Abaetetuba para Abaeté.

Canoa: possui popa e proa iguais, ou seja, com o mesmo formato, que é chamado de “manco”, ao invés de cadaste, espinha e beque4. As canoas podem

possuir tolda (chamada pelos mestres de “torda”), mas se não, são reconhecidas por batelão. Seu deslocamento pode ser por meio de remos ou motor (Lucena, 2002, p. 68)

Montaria: é uma mini-embarcação em madeira com capacidade de, no máximo, 10 passageiros. Geralmente é construída com 3 a 4 tábuas de revestimento e mantém estruturação semelhante a de embarcações com maior porte (Idem, p. 69).

Casco: é a mais rudimentar construção artesanal, não exige peças estruturadas para sua montagem. Serve para o transporte de até duas pessoas. O casco é feito da escavação de um tronco de árvore (idem, idem).

Rabeta: pequena embarcação motorizada, sua estrutura assemelha-se ao casco, porém é mais comprida e se caracteriza pelo localização do motor no centro da embarcação, promovendo maior velocidade.

Barco pesqueiro: sua principal característica é a colocação de uma urna embutida na parte da frente do convés, que serve para o acondicionamento do pescado preservado pelo sal ou pelo gelo. Possui meia-tolda, também conhecida como “casinhola”, lugar de abrigo dos pescadores no barco e, por vezes, pode possuir tolda inteira. Variam entre duas e setenta toneladas (Lucena, 2002, p. 69).

Geleira: um tipo de barco tido como de médio e grande porte (3T a 50T), comum às pescarias de longos períodos. Abaixo do convés é feito uma geleira, uma

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espécie de conjunto de saletas cujas paredes divisórias são revestidas com isopor líquido ou polioretano para garantir a conservação do pescado por semanas. Esse barco possui meia-tolda (também pode possuir tolda inteira) e banheiro (Idem, p. 70).

Cargueiro: é um tipo de barco que não tem convés e, portanto, também é conhecido como bote cargueiro. Por vezes, possui uma espécie de “convés móvel”, tábuas emparelhadas e móveis, formando no compartimento inferior o que chamam de porão. Sua capacidade pode variar de duas a cem toneladas. Esse tipo de barco possui maior capacidade que o barco geleiro (Idem, idem).

Bote: sua principal característica é não possuir convés. Porém, ao contrário da canoa, possui cadaste, espinha e beque na sua estrutura inicial. Por possuir espaço aberto, sem cobertura, é usado para cargas e redes de pesca (pesca de pouca duração). Para garantir maior espaço para o carregamento, possui apenas meia-tolda, podendo variar entre três e quinze toneladas (Idem, idem).

Bajara: tipo de bote que possui tolda inteira. É geralmente usada para transporte de passageiro. Além disso, pode possuir banheiro e assentos. As acomodações, costumam ser feitas através de redes emparelhadas ao longo do comprimento da embarcação. Os mestres se referem a bajara como “um barco sem jeito”, no sentido de poucos detalhes (Idem, idem).

Iate: barco com acabamento artístico contendo banheiro e cozinha, destinado a passeio. No que se refere à construção, o iate aproxima-se ao bote, porém, é um barco mais veloz. Os mestres dizem que na sua construção ele o iate tem que ser voltado mais “pra carrera” (veloz), o que pode ser possibilitado através do alongamento da peça que dá sustentação a popa (espinha) da embarcação.

Quanto à capacidade, por ser um barco de passageiros, cabe à Capitania definir. (Idem, idem).

Barca: é um tipo de barco com porão mais fundo que os outros. Possui divisórias para camarotes, cozinha, banheiros e demais compartimentos adequados ao uso tanto para turismo, passeio, quanto para ser transformado em barco geleira. Tem um pequeno toldo e convés corrido. Sua capacidade é a partir de dez toneladas (Idem, idem).

Lancha: é um barco de passeio. Difere do iate na estrutura de seu casco. A lancha tem que ser mais “lançada” (como chamam os mestres), isto é, com a proa mais alongada, feita para deslizar, não servindo para carga (Idem, idem).

Cada uma das embarcações tem finalidades, capacidades e estruturas de construção diferentes. Ao longo das atividades aqui sugeridas iremos distinguindo-as.

Os mestres nos ensinam que qualquer barco, independentemente de sua finalidade ou capacidade, começa por uma peça chamada quilha. A quilha é confeccionada a partir do tronco de uma árvore, que pode ser a Sapucaia ou o Pau D’arco, ambas escolhidas por suas resistências.

A depender da altura do tronco, a quilha poderá ter vários