3. Arbitrasje
3.2 Risiko
O método da AET tem como premissa a análise situada de uma determinada condição de trabalho (GUÉRIN et alii, 2001). Este caráter situado e socialmente referenciado confere ao método uma característica de maior compreensão da situação estudada (MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO, 2002).
Este método tem como objeto inicial a compreensão de um problema singular e bem definido posto por um caso demanda, e neste sentido a análise mantém
importante proximidade com o estudo de caso. A opção por um estudo de caso por meio de uma AET impõe cuidadosa passagem da compreensão do objeto de estudo do caso específico para a constituição de um corpo organizado de conhecimentos potencialmente facilitadores de entendimento de outros casos.
Para Leplat (2002) há uma interface metodológica entre a AET e o método de estudo de caso, podendo-se distinguir neste último dois grandes tipos de finalidades: um prático e outro teórico.
A finalidade prática busca responder ao problema específico posto pelo caso, enquanto a finalidade teórica visa não somente encontrar uma solução ao caso particular considerado, mas inserir o princípio desta solução encontrada em uma cadeia teórica, pertencendo a uma categoria mais ampla, orientada para o enriquecimento do corpo de conhecimento, transmissível e útil para outros casos.
Leplat (op. cit.), não posiciona estes dois objetivos em termos antagônicos ou mesmo incompatíveis, de modo que encontrar uma solução para um problema e encontrar o princípio de elaboração de uma solução são dois objetivos diferentes, mas não independentes. O estudo de um mesmo caso pode ser explorado para prover solução a um problema específico e também para elaborar um modelo geral de compreensão sobre um determinado objeto de conhecimento e para isto cumpre determinar claramente os diferentes objetivos.
Em sentido contrário, Curie (2004) ao indicar as condições mínimas para que uma pesquisa seja científica, conclui que aparentemente é muito difícil manter simultaneamente uma posição de pesquisador científico e interveniente em ergonomia em uma mesma situação.
Este estudo se alinhou à proposição de Leplat (2002), posto que o mesmo parte de uma demanda ergonômica surgida no seio de uma situação produtiva específica que ocorre em uma organização na qual havia o curso de todo um programa de ergonomia. A partir da demanda inicial é desenvolvido um processo de análise que tem um objeto singular - cujos resultados são restituídos fundamentalmente em termos da organização - e um objeto que se propõe a considerar as características do caso tratado como representantes de uma categoria mais ampla, na qual é proposto um enriquecimento a partir da inserção de novas propriedades.
Ao tratar do problema da generalização, Yin (1994) propõe que a generalização de base analítica deve ser distinta daquela de base estatística. A generalização estatística visa justificar a atribuição de uma população a partir de resultados obtidos sobre uma amostra desta, enquanto a analítica, não considera o estudo de caso como uma experiência que tem comportamento distinto, como unidade amostral, como medida repetida, mas como análoga à própria experiência.
Outra interface metodológica da AET é estabelecida com os estudos etnográficos. Ao estudarem a relação entre os estudos etnográficos típicos e a etnografia do trabalho Ball e Ormerod (2000) propõem que para a identificação de determinada pesquisa com a técnica etnográfica, devem ser observadas dez características descritas a seguir:
Estudo situado – os dados são coletados por um observador participante, inserido no cotidiano do contexto de interesse;
Riqueza – o observador estuda comportamentos em todas as manifestações, os dados são obtidos de uma grande amplitude de fontes, incluindo entrevistas, discussões em grupo, conversas incidentais, documentos, bem como interações não verbais;
Autonomia Participante – os observadores não são obrigados a cumprir algum procedimento predeterminado e rígido;
Abertura – o observador está aberto à descoberta de tema novo ou inesperado que possa dar luz ao estudo em andamento;
Personalisação – o observador toma nota de suas impressões em relação a situação encontrada durante a coleta de dados.
Reflexividade – o observador assume posição empática e reflexiva no sentido de compreender o ponto de vista dos observados;
Auto-Reflexão – o observador deve saber que seu ato interpretativo pode ser influenciado pela tradição;
Intensidade – as observações devem ser intensivas e de longa duração, assim como o observador deve estar imerso na cultura e ambiente dos observados;
Independência – o observador não deve ser constrangido por metas ou teorias;
Historicismo – O observador deve conectar as observações á base histórica e contingências culturais.
Ball e Ormerod (2000) ao tratarem da etnografia cognitiva, identificam profundas semelhanças com a chamada etnografia do trabalho, mas para aplicação no trabalho apontam problemas relacionados à elevada intensidade do estudo - que por vezes se estende por longo período de tempo, à baixa verificabilidade dos dados analisados e à dificuldade de independência. Para o estudo do trabalho a partir da técnica etnográfica os autores propõem modificações no sentido da adoção de uma maior especificidade, em contraposição à intensidade; maior verificabilidade e maior atuação propositiva.
A análise da atividade de trabalho requer o cumprimento de importantes características dos estudos etnográficos, de modo que a atividade de trabalho analisada manifesta não somente sua relação ao objeto imediato de ação, mas também à relação do sujeito com a atividade do ergonomista. Contudo, o direcionamento da demanda e a expectativa do resultado, podem caracterizar um papel social de especialista e prescritor, que por sua vez insere um viés para a condição de observador tipicamente etnográfico.
Ao tratar das dificuldades operacionais relacionadas à intensidade da análise ergonômica Falzon (1994b) coloca que uma abordagem de pequena imersão pode representar um sério problema para a linguagem estabelecida entre o ergonomista e o sujeito do trabalho, visto que o ergonomista precisa dar conta do caráter multimodal das comunicações.