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Risiko og mulighet i internasjonale prosjekter

Segundo a definição do dicionário Houaiss, trocadilho é “um jogo de palavras com sons semelhantes e significados diferentes, de que resultam equívocos por vezes engraçados.” Os trocadilhos podem resultar do uso de parônimos (palavras semelhantes quanto à forma e ao som), de palavras homófonas (com o mesmo som, ainda que com formas

diferentes), ou ainda da polissemia das palavras. Resultado dos sons, podemos dizer que os trocadilhos constituem uma manifestação de oralidade, pois embora possamos percebê-los numa leitura silenciosa, isso só é possível porque, na realidade, mesmo na leitura silenciosa, sentimos ecoar o som.

Numa tradução direta, apenas semântica, normalmente o trocadilho se perde, pois as palavras que são parônimas, homófonas ou polissêmicas na língua de partida raramente o são na língua de chegada. Dessa forma, é necessário que se façam adaptações, ou alterações nas frases, as vezes com acréscimos para que os trocadilhos sejam restituídos na língua de chegada.

Queneau, na sua busca incessante do humor e da inclusão de elementos da língua falada, utiliza muito frequentemente esse tipo de jogo de palavras, muitas vezes provocando ou criando expressamente a homofonia com a junção de partes de duas palavras que resultem numa terceira, ou ainda alterando ou criando palavras para provocar o trocadilho. Veremos a seguir exemplos dos vários tipos.

a) homofonia

Um exemplo de trocadilho criado com o uso de palavras homófonas é: “ Sur les

bords du ru voisin, campaient deux Huns; non loin d’eux un Gaulois” (13), onde “Huns” (hunos) é homófona de “un” (um) e “d'eux” (deles) é homófona de “deux” (dois), provocando a percepção de uma contagem regressiva “dois um”, repetida duas vezes. Nossa tradução, mantivemos a tradução literal “dois hunos”, um trocadilho diferente, com alguma perda, já que em português “uno” não é o numeral, mas significa “único”. No segundo caso, fizemos uma adaptação ao traduzir “d'eux” por “dos dois” de forma a manter o trocadilho. O resultado foi “Às margens do riozinho vizinho, acampavam dois hunos; não longe dos dois um gaulês”.

Outro exemplo encontramos em “Sarrasins de Corinthe” (13), em que o final da palavra “Sarrasins” é homófona de “raisins” (uvas). Acrescentando “de Corinthe”, Queneau força uma leitura separando a primeira sílaba “Sa rasins de Corinthe” resultando na expressão “raisins de Corinthe” que designa a uva passa. Na tradução, alteramos o nome da cidade já que Corinto só foi colocado para construir o trocadilho e, usando o mesmo procedimento, traduzimos por “sarracenos de Mans”, em que o final da palavra “sarracenos”, homófona de “acenos”, permite a leitura “acenos de mão”, expressão que é retomada algumas páginas adiante, no capítulo III.

b) polissemia

Em maior número, encontramos os trocadilhos baseados na polissemia das palavras. Quando o duque observa a situação histórica, dentre os vários povo, ele vê “Francs

anciens” (13); depois, descrevendo o que faziam, “le Gaulois fumait une gitane, les Romains

dessinaient des grecques, les Sarrasins fauchaient de l’avoine” (13). No primeiro caso, o trocadilho vem da polissemia da palavra “franc” que, além de designar o povo, designa também a moeda francesa da época, de forma que a expressão “francs anciens” faz alusão à moeda antiga. A tradução literal “francos antigos” permite o mesmo efeito pois em português a palavra “franco” também tem os mesmos sentidos. Já no segundo, a polissemia depende de um fato cultural francês, pois “gauloises” et “gitanes” são duas marcas muito populares de cigarros franceses. Nesse caso a polissemia não existe em português e o trocadilho é totalmente perdido na tradução. Optamos então por uma compensação, fazendo um trocadilho entre “gaulês” e “galo” e usando ainda uma expressão idiomática, traduzimos por “ o gaulês cantava de galo”. O terceiro exemplo resulta da polissemia de “grecque” que, além de designar a mulher nascida na Grécia, designa também um tipo de ornato geométrico usado em frisos e barras. Mantivemos a tradução literal “os romanos desenhavam gregas”, já que em português a palavra também tem os dois significados. Finalmente, o último trocadilho vem da polissemia de “Sarrasins” que, além do povo, designa uma espécie de trigo. Embora tenha esse sentido também em português, a referência não é tão imediatamente reconhecida por brasileiros quanto por franceses. Em nossa tradução, em vez de “aveia” (avoine) usamos “cevada”, de forma a, além de permitir a referência aos cereais, criar uma aliteração em /s/: “os sarracenos ceifavam cevada”.

Outro exemplo de trocadilho baseado na polissemia encontramos no momento em que Cidrolin recebe uma campista canadense em sua chata: “Encore une Canadienne que je

ne reverrai pas, murmura Cidrolin. Et pourtant j’en aurai vu des Canadiennes, des bottes même, des bottes de Canadiennes, des Canadiennes sans bottes ni canadiennes d’ailleurs, parce que toutes celles que je vois c’est en été.” (39). Aqui temos duas palavras polissêmicas, “canadienne” que designa a mulher natural do Canadá mas pode ser também uma roupa longa forrada de pele de carneiro e ainda uma pequena barraca de camping. A outra palavra é “botte” que, além de significar “bota” significa também “feixe”. Com esse último sentido, é retomada, dois parágrafos abaixo, descrevendo o momento em que o duque desperta: “couché

à ses pieds sur une botte de paille, le fidèle page Mouscaillot”. Em nossa tradução o trocadilho com “canadienne” se perdeu, mas para mantermos pelo menos o segundo, fizemos

uma adaptação usando a palavra “forrado” que tanto pode significar “revestido”, pode também dar ideia de grande quantidade. Além disso, essa palavra também pôde ser retomada na descrição do despertar do duque. Conscientes das perdas, traduzimos por “Mais uma canadense que eu não vou ver mais, murmurou Cidrolin. E no entanto o que já vi de canadenses, já vi isso aqui cheio de canadenses, forrado mesmo, forrado de canadenses, de canadenses de botas forradas, de canadenses sem forro, até porque todas as que eu vejo é no verão. (...) ... deitado a seus pés no chão forrado de palha, o fiel pajem Mouscaillot”.

Finalmente, quando um dos genros do duque admira a mobília moderna, estilo Louis XIII, Mouscaillot comenta “Monsieur le duc tient à être tout à fait à la page, dit le

page” (118), em que a palavra “page” é usada, no sentido de “página” na expressão “être à la

page”, (estar na moda) e em seguida como “pajem”. Em português, a palavra “pajem” não sendo polissêmica, criamos um trocadilho por homofonia entre o final da palavra “roupagem”, que, segundo o dicionário Houaiss significa “conjunto de roupas”, mas também, em sentido figurado “aspecto exterior, aparência” e que portanto faz sentido no comentário de Mouscaillot: “O senhor duque faz questão de atualizar a roupagem, diz o pajem”.

c) paronímia

Quanto ao uso de parônimos, podemos citar dois exemplos. O primeiro, quando, discutindo sobre o perigo de contar histórias, Cidrolin diz a Lalix: “Elles révèlent ce que vous

êtes au fond. Tout comme les rêves. Rêver et révéler, c’est à peu près le même mot.” (159). Aqui a paronímia entre os verbos “rêver” e “révéler” é explicitada na própria fala da personagem. Ora, em português entre “sonhar” e “revelar” não há nenhuma semelhança, de forma que, na tradução, introduzimos a palavra “sondar” que mantém o sentido e permite o trocadilho explícito: “Nelas pode-se sondar o que se é no fundo. Exatamente como os sonhos. Sonhar e sondar... é quase a mesma palavra.”

O outro exemplo é um pouco mais complexo. Primeiramente, porque há referência a uma expressão conhecida e facilmente identificada por um francês, “Honni soit

qui mal y pense”, divisa da Ordem da Jarreteira, criada por Eduardo III da Inglaterra, referência essa que não seria percebida pelo leitor brasileiro. Em seguida porque o duque, de muito bom humor, decide expressamente fazer trocadilho e repete-o três vezes com pequenas alterações. Em cada uma dessas vezes ele retoma alguma palavra recém proferida que rima com “honni” et que pode substituí-la na divisa. Finalmente porque a última dessas palavras é “Copernic”, cuja doutrina acaba de ser citada e que, portanto, é necessária no contexto

devendo obrigatoriamente ser mantida na tradução. Eis os trocadilhos originais: “Nenni,

nenni, ma chère. Nenni soit qui mal y pense.” (146) “Sthène en était fort satisfait ; quand on

le lui montra, il hennit. Hennit soit qui mal y pense.” (148) “Copernic soit qui mal y pense, dit

le duc distraitement” (151). Nesse caso, fizemos uma adaptação mais radical. Para que os trocadilhos funcionassem em português, escolhemos uma frase que fosse facilmente reconhecida pelo leitor brasileiro. Essa frase deveria ter uma palavra com o som /é/ para poder soar como Copérnico. Optamos então pelo provérbio “Quem com ferro fere com ferro será ferido”. Em seguida, alteramos o cotexto anterior ao trocadilho para introduzir a palavra a ser retomada. O resultado foi: “Não, minha querida, está tudo certo. Quem com certo fere com certo será ferido”, “Stenes ficou mui satisfeito; quando lhe mostraram ele disse: esse pintor é fera. Quem com fera fere com fera será ferido”, e “Quem Copérnico fere, com pérnico será ferido, disse o duque distraidamente”.

d) homofonia criada pela junção de palavras

Queneau não perde a oportunidade, ao longo de todo o texto de criar humor e exemplo disso são as ocasiões em que deliberadamente ele provoca a homofonia para gerar um trocadilho e consequentemente um efeito de humor. Um exemplo é quando entre os povos que o duque observa, há “Alains seuls” (13) em que o final da primeira palavra mais a seguinte criam uma homofonia com “linceul” (mortalha). Esse trocadilho seria perdido na tradução “alanos solitários”. Como no caso o povo citado não é o mais importante, mas sim o jogo de palavras resultante dele, optamos por uma adaptação em que invertemos as referências a alanos e a ossetas de forma a produzir jogos de palavras em português. Em vez de “alanos solitários”, o duque vê “ossetas velozes” em que a homofonia do final da palavra permite a leitura “setas velozes”. Em outra referência aos mesmos povos, Queneau diz que “les Alains regardaient cinq Ossètes”, em que há um trocadilho provocado pela junção das palavras “cinq” et “Ossètes” com a expressão “cinq à sept” que designa uma reunião no fim da tarde, um “happy hour”. A opção de alterarmos os povos citados permitiu a tradução por “os ossetas apontavam dois alanos”, em que mais uma vez há a possibilidade de leitura “setas apontavam”.

Temos outro exemplo quando, conversando com o rei Luís IX o duque diz: “mon

saint homme de chapelain, l’abbé Onésiphore Biroton, me mène vers les voies de la sanctification” (25). Aqui a junção das duas palavras “saint homme” (santo homem) é homófona de “symptôme” (sintoma), leitura justificada pelo contexto em que se fala sobre doenças adquiridas nas cruzadas. Duas páginas depois as mesmas palavras são repetidas

quando o duque fala do rei: “Lui, Louis, ce n’est pas comme moi, c’est un saint homme” (27). Nesse caso, introduzimos algumas palavras que, sem alterar o sentido, permitem que se observe o trocadilho: “meu capelão, o abade Onesíforo Biroton, sim toma medidas para me conduzir ao caminho da santificação” e “Ele, Luís, não é como eu, sinto mas é um santo homem”.

O mesmo procedimento é utilizado quando, Cidrolin conversa com uma canadense que procura o camping: “- Je sommes iroquoise, dit-elle, et je m’en flattons. - Il y

a de quoi. - C’est de l’ironie? - Non, non. Ne mettez pas d’ire au quoi” (38). Aqui as três palavras juntas são lidas como “iroquois” (iroquês). Procurando manter efeito semelhante em português, traduzimos por “- Eu ser iroquesa, disse ela e me orgulhar muito disso. - Tem de quê. - Isso é ironia? - Ir o quê? Não, não é isso”.

Finalmente, um último exemplo, quando, discutindo com o abade sobre a natureza dos sonhos, o duque diz que não falava com serpentes nos sonhos como Eva, ao que o abade responde que Eva não sonhava: “- Bon. Voilà qui me satisfait fort, car jamais n’eus

conversation avec un serpent en rêve ; ce n’est point comme notre mère Ève. -Elle ne rêvait point.” (44), Aqui “mère Ève” é homófona de “mes rêves” (meus sonhos). Na impossibilidade de manter o mesmo trocadilho, introduzimos as palavras “mais sã” que no contexto em que se fala de Eva e de serpente, permite identificar o fruto proibido “maçã”; “- Bom. Isso me deixa mui satisfeito, pois nunca conversei com uma serpente em sonho; não é como nossa mãe Eva. - Eva, mais sã, não sonhava.”.

e) palavras criadas

Em duas oportunidades, Queneau cria palavras expressamente para criar trocadilhos. Na primeira, tentando convencer o duque a participar de mais uma cruzada, Luís IX diz “D’abord, cette fois-ci, nous n’allons pas en Égypte (à quoi na sert?) mais nous

voguons vers Carthage.” (25). Aqui, Queneau usa a palavra “na” em vez de “ça” para possibilitar a leitura de “na sert” como “Nasser”, nome do presidente egípcio na época em que o livro foi escrito. Optamos por uma adaptação em que o verbo “nascer”, com o acréscimo de um acento também fosse lido em português como “Nasser”: “Pra começar, desta vez, nós não vamos ao Egito (o que poderia náscer daí?) mas vogamos na direção de Cartago.”.

Na outra passagem, Queneau inventa a palavra “lorique”, quando, depois de uma série de provérbios, diz: “Et autres prouverbes de vaste salaison issus du fin fond aussi faux

que lorique de la sapience îledefrançouèse.” (35). Dessa forma “faux que lorique” é lido como “folklorique” (folclórico). Adotamos o mesmo procedimento, criando a palavra “clórico”, mas acrescentamos ainda o adjetivo “amorfo”: “E outros prouvérbios de vasto alcance tirados do fundo falso amorfo ou clórico da proverbial sapiência francesa.” Desta forma, a última sílaba do adjetivo permite a leitura de “fo ou clórico” como “folclórico”, causando o mesmo efeito em português.

Novamente, notamos que Queneau não perde uma oportunidade para fazer com que o significante ganhe autonomia e importância. Se o acaso não cria o trocadilho, Queneau cria o acaso, acrescenta, altera ou cria palavras, de modo a forçar uma leitura em que o trocadilho apareça. Tudo é válido para que a evolução da trama e o semântico sejam perturbados pela preponderância do significante.