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Como vimos, Les Fleurs bleues é um romance oulipiano. Há na sua construção, várias contraintes sobretudo as de tipo numérico. Além dessas contraintes numéricas, há ainda as repetições que Queneau dizia corresponder na prosa às rimas na poesia, e a construção dos dois enredos paralelos, em que as vidas de Auge e de Cidrolin são como espelhos, uma refletindo a outra, as personagens que entram em uma das histórias tendo sempre uma correspondente na outra: Auge é viúvo e se casa com Russula, filha de um lenhador. Cidrolin é viúvo, passa a viver com Aalice, filha de um lenhador. Auge tem três filhas, Belusina, Pigranela e Feliza, e três genros, o sir de Ciry, o conde de Torves e o vidama de Malplaquet. Cidrolin tem três filhas, Bertranda, Sigismunda e Aamélia, e três genros, Iolando, Lizeto e Cuveton. Se na corte de Auge há o abade Onesíforo Biroton e o diácono Rifinge, do lado de Cidrolin há Onesíforo, dono do bar Bitúrico e o “quase-padre”. Se Auge tem cavalos que falam, Cidrolin tem os nômades campistas com quem conversa em diversas línguas. Na história do duque há personagens que marcam as diferentes épocas, São Luís (1264), o arauto (1439), Timoleu Timolei (1614), Altaviva y Altamira (1792); na história de Cidrolin há os passantes que surgem e desaparecem.

Ao se pensar na tradução de uma obra oulipiana, pensa-se primeiramente na

contrainte utilizada e na possibilidade de conseguir um efeito semelhante ao adotá-la na outra língua. O lipograma, por exemplo, utilizado por Georges Perec no romance La Disparition totalmente escrito sem a utilização da letra “e”, a mais frequente em francês. A aplicação

137 “L'écrire, le traduire ne s'accomplissent que s'ils sont une pratique de l'oralité. Et sans doute on n'est

une écriture que si on est l'invention de sa propre oralité.” ( MESCHONNIC, H. La rime et la vie. Paris: Verdier. 1989, 291)

dessa contrainte levou o tradutor espanhol a suprimir, em El secuestro, a letra “a”, o que resultou não numa tradução no sentido estrito do termo, mas um exercício lipogramático em espanhol como o que havia sido feito em francês. Embora procurasse respeitar o enredo e a estrutura do original, numa tradução frase por frase, houve mudanças importantes para que se pudesse manter o lipograma adotado, como podemos ver ao compararmos os trechos seguintes:

L'ami d'Anton Voyl avait pour nom Amaury Conson. Il avait six fils. Son plus grand, qui, par un hasard coïncidant, avait pour nom Aignan, avait disparu, au moins vingt- huit ans auparavant, à Oxford, au cours d'un Symposium qu'organisait la Fondation Martial Cantaral, non sans la participation du grand savant anglais Lord Gadsby V. Wright. Son fils suivant, Adam, avait, quant à lui, connu la mort dans un sanatorium où, n'arrivant plus à avoir faim, il tombait d'inanition. Puis, par trois fois, avait surgi la mort: À Zanzibar, un gros poisson avalait Ivan; à Milan, Odilon, qui assistait Lucchino Visconti, succombait, un os trop pointu s'incrustant dans son pharynx. À Honolulu, Urbain mourait d'hirudination: un lombric colossal lui suçait tout son sang, on lui faisait, mais trop tard, vingt transfusions. Amaury n'avait donc plus qu'un fils survivant, Yvon; mais il aimait moins Yvon car Yvon, vivant au loin, voyait son papa trois fois l'an, jamais plus. 138

Na tradução espanhola foram alterados todos os nomes próprios, de personagens e de lugares, além de outras adaptações como, por exemplo, a morte de Odilon que, no original teve um osso (os) atravessado na laringe e na tradução foi engolido por um urso (oso):

El íntimo de Tonio Vocel tiene por nombre Emery Consonte. Tuvo seis hijos. Su primogénito, cuyo nombre – es curioso – es Gustín K. se esfumó, de eso hizo, por lo menos, dos decenios y pico, en Quebec, en el curso de un Simposio dirigido por el centro de estudios del científico de Locus Solus y presidido por el erudito inglés Lord Ernest Vincent Wright. Su siguiente hijo, Ernesto, sucumbió por el sinérgico poder que los helmintos desenvolvieron en su intestino. Después, el exterminio se repitió tres veces: en el Sind Isidoro murió desnutrido por no poder pedir de comer en sindhi; en Turín Odilón, script de Luchino Visconti, fue engullido por un oso de los del filme. En Honolulú, Ugolino, pese el seguimiento médico de que gozó, murió por fuerte crisis de sinusitis. Emery sólo tiene, pues, un hijo superviviente, Yvon, pero no lo quiere mucho porque Yvon, que vive lejos, en doce meses sólo suele verlo tres veces, y eso como mucho. 139

138 PEREC, Georges. La disparition. Paris: Denoël, 1969, p. 59

139 PEREC, Georges. El sequestro. Tradução de Marisol Arbués, Mercè Burrel, Marc Parayre, Hermes

Em Les Fleurs bleues, no entanto, não são as contraintes que determinam o tipo de tradução a ser feita, pois elas incidem sobre o a estrutura do romance, e por isso não acarretam problemas específicos para a tradução: a estrutura binária do romance, o número de capítulos, o intervalo entre os períodos históricos são naturalmente mantidos numa tradução de forma transparente. Se, por um lado, uma tradução pela contrainte, como a de La

disparition não seria adequada pelo fato de as contraintes não incidirem sobre o significante, por outro lado, como a ambientação do romance na França é essencial já que ele é pautado pelos elementos da história e da geografia francesas, também não seria adequada uma tradução totalmente livre como a que foi realizada por Luiz Rezende para os Exercices de

style. Nesse livro o narrador conta seu encontro, num ônibus, com um jovem de pescoço comprido, que usava um chapéu com uma trança em vez de fita. Esse jovem troca algumas palavras com outro passageiro e vai sentar-se num lugar livre. Mais tarde, o narrador revê o jovem discutindo com um amigo que o aconselha a mudar o botão superior de seu sobretudo. Essa história é contada 99 vezes, em cada uma com um estilo diferente. Nesse caso, o importante é o estilo e não a história, por isso a tradução, como diz Márcia Arbex, “comporta criações e adaptações, tendo o tradutor por diversas vezes radicalizado e ampliado os efeitos dos jogos de linguagem de Queneau, optando por lançar mão, sempre que possível, do repertório oral e escrito brasileiro”. 140 Rezende introduz inclusive pontos de referência geográfica brasileiros, como, por exemplo no texto “Metaforicamente”, em que traduz “Au

centre du jour, jeté dans le tas des sardines voyageuses d'un coléoptère à l'abdomen blanchâtre...” 141 por “O astro apolíneo parecia ter imobilizado seu tão célere curso em zenital posição e dardejava implacável no meridião escaldante como as dunas de Copacabana, exasperando o sufoco da massa compacta num coleóptero de alvo abômen, tal sardinhas em lata...” 142, ou ainda em “Negatividades”, em que traduz “Ce n'était ni la gare du Nord, ni la

gare de Lyon, mais la gare Saint-Lazare.” 143 por “Nem a Luz nem a Central, mas São Lázaro.” 144

140 ARBEX, Márcia. Exercícios de estilo com “sotaque tupiniquim”: Luiz Rezende tradutor de Raymond

Queneau. disponível em

<http://www.letras.ufmg.br/poslit/08_publicacoes_pgs/Eixo%20e%20a%20Roda%2018,%20n1/07-Marcia- Arbex.pdf>, p. 133

141 QUENEAU, Raymond. Exercices de style. Paris: Gallimard, 1947. p. 11

142 Id. Exercícios de Estilo. Tradução de Luiz Rezende. Rio de Janeiro: Imago, 1995, p. 22 143 Id. Exercices de style. Paris: Gallimard, 1947. p. 29

Em Les Fleurs bleues, uma “adaptação” à brasileira, em nome de uma “domesticação” do original, para retomar o conceito de Venuti 145, ou aclimatada, em nome de uma apropriação cultural, são soluções que, certamente, não contemplam o que entendemos por tradução. Nesse romance, o jogo do significante não é imposto pelas contraintes, mas é um trabalho muitas vezes elaborado pelo autor pelo puro prazer de jogar com a língua francesa, fiel a seu objetivo de inclusão da língua falada na literatura. Ele cria provérbios, trocadilhos, e neologismos, provoca aliterações e faz alusões ou citações, mas esse trabalho não contribui para a evolução do enredo, ao contrário, quebra-o, interrompendo o fluxo dos acontecimentos e chamando para si a atenção do leitor, o que, aliás, é feito algumas vezes de modo explícito pelas próprias personagens ou pelo narrador. Ao traduzir, há, pois, a necessidade de adaptações para que esses trabalhos com a língua sejam restituídos em português, pois trata-se aí de manipulação de significantes da língua de chegada.

Para que seja possível a tradução para o português de um romance tão peculiar em relação ao uso da língua francesa, há que se levar em conta as características dos dois sistemas linguísticos.