Pretendeu-se investigar a temática Educaidade: para além da objetivação do
educando por meio de um Estudo de Caso naturalístico qualitativo, perpassando por um olhar
etnográfico.
4.1.1 Estudo de Caso Naturalístico
Inicialmente, o estudo de caso era utilizado por várias áreas do conhecimento, como a medicina, psicologia, antropologia, administração de empresas, e sustentava-se no paradigma positivista. Nesta época, as críticas a tal abordagem de estudo foram inúmeras, pelo seu olhar unívoco, centrado em um só caso a ser analisado, o que impedia a generalização e a credibilidade das pesquisas desenvolvidas por este paradigma. Mesmo assim, por sua origem e seu caráter unívoco, o estudo de caso agregava credibilidade e adeptos quando se tratava de situações muito específicos, como, por exemplo, o estudo de uma doença pela medicina.
Já a utilização do estudo de caso numa abordagem naturalística14 é recente. André (1984) salienta que para que o estudo de caso fosse aceito nas discussões educacionais foram necessárias várias discussões na comunidade científica a respeito dos pressupostos epistemológicos e metodológicos.
Lüdke e André (1986, p.17) esclarecem que “o estudo de caso é o estudo de um caso, seja ele simples e específico ou complexo e abstrato”. Eis que o mesmo permite estudar algo singular, mas com valor em si próprio, pois, para as referidas autoras, o estudo de caso constitui uma unidade que pode ser um sistema, uma escola, uma sala de aula. O estudo se desenvolve numa situação natural em que os dados são descritivos, tentando focalizar a realidade de forma contextualizada.
14 CASTRO (1983) relata que Egon Guba prefere utilizar a expressão “construtivista” como sinônimo de
Ao trabalhar com dados da realidade, na visão de Soares (1992), o pesquisador pode ser tanto objetivo, neutro e ausente, como assumir sua subjetividade, afirmando sua posição de sujeito e participando, conjuntamente com os pesquisados, na produção de conhecimento. Assim, também é compreendido aquele que revela os dados, ou seja, este pode participar passivamente, como simples destinatário da observação, ou receber ativamente os resultados da pesquisa. No que se refere ao gênero, define a estrutura e a apresentação da pesquisa, podendo ser estruturada de modo convencional ou tradicional, caracterizando-se pela rigidez de busca da comprovação de hipóteses pré-estabelecidas; ou não-convencional ou construtivista, que prevê um caráter mais flexível, instituindo hipóteses de trabalho ou questões norteadoras para a propositura do trabalho. Além destes aspectos, um outro muito considerado na distinção dos dois paradigmas é a generalização que permite ser considerada no paradigma construtivista.
Um estudo de caso constituído sob o paradigma tradicional é aquele onde, segundo Stake (1983, p.23), o investigador
[...] esforça-se para manter o contexto sob observação. O pesquisador quantitativo pode manter algumas poucas variáveis contextuais sob consideração, mas, também, tenta eliminar o fenômeno do contexto, a fim de estabelecer compreensões gerais, ou seja, aquelas que têm a mais ampla possibilidade de aplicação.
Considerando esta postura, os dados científicos são medidos, mensurados, isoladamente do contexto, buscando, exaustivamente, a neutralidade. Os dados são obtidos através de aproximações estatísticas, produzindo escalas, percentagens, probabilidades. Por esta tendência, os resultados são expressos como categoria-fechada que não dão margem a outro posicionamento que não seja o dual de aceitação-negação e assemelhados.
No paradigma construtivista ou naturalístico, segundo André (1984, p.52), o estudo de caso não é um “pacote metodológico padronizado”, mas uma forma de perceber o mundo a ser estudado sob vários enfoques e múltiplos olhares. Assim, segundo a autora, o estudo de caso qualitativo
[...] não é um método específico de pesquisa, mas uma forma particular de estudo. As técnicas de coleta de dados utilizadas no estudo de caso se identificam com as técnicas do trabalho de campo da sociologia e antropologia. Porém, a metodologia do estudo de caso é eclética, incluindo, via de regra, observações, entrevistas, fotografias, gravações, documentos, anotações de campo e negociações com os participantes do estudo.
O estudo de caso que foi realizado nesta pesquisa, além de observar o caráter qualitativo, desenvolveu-se numa situação natural, pois se pretendeu riqueza de dados descritivos, um plano aberto e flexível, focalizando a realidade de forma complexa e contextualizada sem a preocupação com a generalização. Logo, a presente investigação é classificada como um estudo de caso amparado no paradigma qualitativo e construtivista ou naturalístico.
Para que se desenvolva um bom trabalho é preciso que o caso seja bem delimitado, devendo ser claramente definido no desenrolar do estudo. O caso pode ser similar a outros, mas é ao mesmo tempo distinto, pois tem um interesse próprio singular. O interesse, portanto, incide naquilo que ele tem de único, de particular, mesmo que posteriormente venham a ficar evidentes certas semelhanças com outros casos ou situação.
O estudo de caso começa como um plano muito incipiente, que vai se delineando mais claramente à medida que o estudo se desenvolve, não partindo de uma visão predeterminada da realidade, mas buscando os aspectos ricos e imprevistos que envolvem uma determinada situação. Uma vez identificados os elementos-chave do problema, o pesquisador inicia a coleta sistemática de informações, utilizando instrumentos mais ou menos estruturados de acordo com as características do caso em estudo. Após esta fase se inicia o registro das informações, registros de observações e análise das entrevistas. Evidentemente, essas fases não se completam numa seqüência linear, mas se cruzam em vários momentos, característica peculiar deste paradigma, o que o afasta do tradicional. A não linearidade traduz-se pelo esforço do pesquisador qualitativo em perceber o contexto em observação. Mas, sob este aspecto, lembra Stake (1983, p.23) que “o pesquisador qualitativo pode manter algumas poucas variáveis contextuais sob consideração, mas também, tentar eliminar o fenômeno do contexto, a fim de estabelecer compreensões gerais, ou seja, aquelas que têm a mais ampla possibilidade de aplicação”. O referido “controle” não remete à rigidez imposta pelo paradigma quantitativo, apenas ressalta o caráter científico do processo.
O estudo de caso como pesquisa qualitativa naturalística visa sempre à descoberta do fenômeno, mesmo que a investigação parta de alguns pressupostos teóricos já existentes, pois procurará novos elementos que poderão ser acrescentados na medida em que o estudo avance.
No desenvolvimento deste estudo, em específico, pretendeu-se considerar para além dos educadores e educandos observados, percebendo-se também as instituições, tanto do
ponto de vista geográfico (o aqui e o agora), como do ponto de vista histórico (análise de seus documentos). Pois, “para compreender a aprendizagem seja como mestres, seja como alunos devemos compreender o contexto social em que são geradas” (POZO, 2002, p.24).
Nota-se, então, que o conhecimento não é algo acabado, mas uma construção que se faz e se refaz constantemente. Assim considerado, o investigador, no estudo de caso naturalístico, está sempre aberto e estimulado a buscar novas indagações no desenvolvimento de seu trabalho. Percebe-se que este paradigma exige que o investigador esteja em constante contato com os informantes para que, juntos, decidam quais são os dados relevantes, a pertinência de seu conteúdo e o que deve ser tornado público. De acordo com Engers (1994) este processo é definido por “negociação”.
Segundo Bogdan e Biklen (1982), a metodologia do estudo de caso pode atender vários tipos de procedimentos. Os autores denominam de estudo de caso histórico- organizacional aquele que o interesse do pesquisador centra-se sobre a vida de uma instituição. No estudo de caso observacional, desloca-se o foco da organização na totalidade para a parcialidade, ou seja, permite-se um recorte na estrutura organizacional para melhor compreensão do objeto a ser investigado. O estudo de caso denominado história de vida objetiva aprofundar-se na história de um sujeito num caráter social ou popular. Já o estudo de caso comunidade tem como visão integral o seu foco de análise. Os autores denominam de análise situacional o estudo de caso no qual o pesquisador procura compreender o ponto de vista e as circunstâncias que são peculiares de um determinado evento e situação. Por fim, o que neste trabalho pretende-se abordar, o estudo de caso etnográfico, que focaliza aspectos muito específicos de uma realidade maior.
Yin (1984) considera a metodologia sugerida por Bogdan e Biklen (1982) sob dois enfoques: o holístico, que leva em conta as características globais de um enfoque ou fenômeno; e, o parcial, que examina os aspectos particulares de um dado fenômeno.
Por considerar que o estudo de caso naturalístico oferece condições ao pesquisador para compreender as complexas problemáticas educacionais e por pretender estudar contextos muito específicos, assim foi definida a escolha da abordagem. Neste sentido, busca-se, a seguir, ampliar a discussão a respeito do estudo de caso etnográfico sob o enfoque do presente estudo.
4.2 PROCEDIMENTOS DA INVESTIGAÇÃO: A PRESENÇA DO MÉTODO COMO