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A escolha por um paradigma revela algo não somente sobre os pesquisados mas, como afirma Borges (1994, p.45), “a metodologia da pesquisa que adotamos revela algo sobre nós mesmos. Revela, no mínimo, qual é nosso paradigma em pesquisa educacional”. Neste sentido, a interação da escolha do paradigma qualitativo para desenvolvimento desta investigação deu-se justamente por este considerar que conhecimento e conhecedor são inseparáveis. Segundo Lüdke e André (1986, p.12), com base em Bogdan e Biklen, a abordagem qualitativa permite com que o pesquisador trabalhe em contato direto com o ambiente de campo e com os participantes, enfatizando “mais o processo do que o produto”, buscando descrever a situação na “perspectiva dos participantes”.

Para melhor compreensão, Engers (1994, p.66) elucida que:

A perspectiva desse paradigma é penetrar no mundo pessoal dos sujeitos, buscando a compreensão, o significado particular da ação das pessoas e utiliza como critério a evidência do acordo intersubjetivo no contexto educacional. Pretende, ainda, desenvolver conhecimento ideológico assumindo que a descrição pode mostrar uma realidade dinâmica, múltipla e holística.

Uma vez delimitado o paradigma, optou-se pelo estudo de caso etnográfico por esta pesquisa estar dirigida a um grupo específico de sujeitos – alunos e professores do último nível da Educação Infantil e do primeiro ano do Ensino Fundamental. Pretende-se, assim, centrar o estudo nas relações interpessoais. Para tanto, desenvolveu-se um longo período de observações15 para que se pudesse perceber não apenas os sujeitos como foco da investigação, mas todo o entorno sociocultural e as dimensões destas relações.

A escolha pelo olhar etnográfico justifica-se por esta abordagem de investigação, segundo Woods (1989, p.19),

[...] interessar-se pelo que o sujeito faz, como se comporta, como interage. Propõe descobrir suas crenças, valores, perspectivas, manifestações e o modo com que tudo isso se desenvolve ou muda com o tipo ou de uma situação a outro. Trata de fazer tudo isso a partir, de dentro do grupo e das perspectivas dos membros do grupo. O que conta são os seus significados e interpretações.

A etnografia foi escolhida devido ao contexto sociocultural local que se pretendeu analisar. O olhar etnográfico permite que o pesquisador adentre no espaço-tempo da escola a ser investigada, observando-a de seu interior histórico, geográfico e regional. Assim, pretende-se perceber e representar a realidade social estudada “com todas suas diversas camadas de significado social em sua plena riqueza” (WOODS, ibidem, p.19).

O desenvolvimento desta pesquisa ocorreu em três fases, o que Lüdke e André (1986), apoiados em Nisbert e Watt (1978), salientam como característica do estudo de caso. A primeira fase, exploratória, a qual já se cumpriu, teve por função mapear as regiões que se desejava estudar, destacando as possíveis escolas a participarem da pesquisa. As regiões foram escolhidas por serem identificadas, inicialmente, como antagônicas: uma situada em um bairro privilegiado da cidade e outra em de baixo poder aquisitivo e alto de risco social. Uma vez definidas as regiões estudadas, foram visitadas cinco escolas a fim de delimitar o campo de pesquisa.

O presente estudo teve por premissa o ambiente escolar construtivista e, por isso, foi preciso adentrar em algumas escolas da localidade delimitada com a finalidade de se perceber a clareza de sua tendência epistemológica. Foram visitadas cinco escolas, três de Educação Infantil e duas de Ensino Fundamental. Após a realização das visitas, foram desconsideradas algumas escolas por se perceber a falta de clareza na proposta construtivista, mantendo-se, assim, uma escola particular de Educação Infantil e outra, de maior porte, de Ensino Fundamental completo, pertencente à rede municipal de Porto Alegre. A turma participante da escola privada é de Jardim B (crianças com 5 anos de idade e que cursaram o Jardim A na mesma escola) e a da escola municipal é de primeiro ciclo, primeira etapa (crianças entre 6 e 7 anos de idade e que têm sua primeira experiência escolar). A participação das escolas e das turmas observadas ocorreu, também, por adesão à pesquisa.

A escolha de duas realidades antagônicas, particular e pública, privilegiada e carente, não tem por objetivo compará-las e sim perceber a construção do sujeito sócio-moral frente à influência de distintas realidades culturais e representações sociais diferenciadas.

Uma vez escolhidas as escolas, iniciou-se à segunda fase, denominada por Lüdke e André (1986) de coleta de dados. Esta fase consiste em entrevistar professores e observar suas práticas com o objetivo de identificar, descrever, analisar e compreender os significados e a possibilidade do acontecimento da ética da alteridade do educador em relação aos alunos na construção do conhecimento.

Para fins didáticos e melhor organização da coleta de dados a pesquisa foi subdividida em outras duas partes, conforme comentado anteriormente (Metodologia), que, a seguir, estão abordadas de modo descritivo e detalhado:

• 1ª etapa: consistiu em observar se as crianças “despertaram para o senso moral”. Nesta fase, foram consideradas as relações entre educadores e educandos em termos genéricos, isto é, observou-se também a relação dos alunos com professores especializados e destes em momentos de lazer (relações deles com alunos não pertencentes à turma). Para tanto, foram realizadas observações duas vezes por semana, em cada uma das escolas, num período de três meses e meio16. O objetivo desta etapa é perceber as construções de valores, as representações e os significados que os educandos e que seus educadores possuem e quais relações estabelecem (educador- educando, educando-educando).

Para esta etapa, além das observações, também foram realizados entrevistas semi-estruturadas com os educadores e educandos. Para desenvolver as entrevistas com as crianças, por se tratar de crianças pequenas, realizou-se anteriormente a Hora do Conto com a história Os Três Porquinhos17,

dramatizando “passagens clássicas”18 piagetianas sobre conduta moral. Em seguida, individualmente, foram entrevistados todos os alunos considerando a história como referência da entrevista semi-estruturada.

• 2ª etapa: consiste em ir além da moralidade, da representação causada pela própria moralidade e “apurar” o olhar à percepção de acontecimentos que

16 Período de abril, maio, junho e julho até as férias escolares de inverno.

17 SILVA, I. B., NAHUM, E. P. Os três porquinhos. São Paulo: Sipione, 1987. Versão transcrita no anexo 4. 18As referidas passagens foram extraídas da obra clássica de Piaget Le Jugement Moral chez l’Enfant

partam da ética da alteridade na relação entre educadores e educandos e educandos e educandos. Como esta fase prevê um olhar mais atento e aprofundamento nas análises, foi dedicado todo o segundo semestre letivo para o desenvolvimento das observações que ocorreram duas vezes por semana em cada escola.

Após a coleta de dados, realizou-se a análise e a interpretação sistemática dos resultados, terceira fase. Os resultados foram obtidos por meio da análise de conteúdo, com base em Engers (1987), em uma análise horizontal e vertical para obter a síntese e eleger as categorias a serem trabalhadas. Utilizou-se a técnica da triangulação entre os resultados obtidos nas entrevistas, observações, documentação e dados coletados junto às instituições. Esta análise possibilitou maior entendimento e contextualização dos resultados.