• No results found

E RFARINGERS EPISTEMOLOGISKE PLASS

C.A. tem 26 anos, natural de Montes Claros – MG e cursa o 8º período de Artes/Música na Universidade Estadual de Montes Claros – Unimontes. A relação com a música vem das vivências com os familiares, principalmente com o avô que era multi- instrumentista; tocava muito bem acordeom e, na verdade, tocava tudo “de ouvido”, pois nunca teve professor. C.A. disse que todas as festas de família eram feitas com shows ao vivo, com o avô e os tios, que também participavam do carnaval com a escola de samba, blocos e composições autorais. Nesse ambiente musical surgiu o interesse em aprender a tocar violão. Ela relembra que

Desde os 11 anos, eu já comecei a fazer o conservatório (pausa) a vivência musical é que meu avô tocava tudo quanto é tipo de instrumentos, tocava acordeom tocava teclado, piano, violão, eu vi ele tocando aí eu me interessei. (C.A., 2017).

A formação iniciou-se aos onze anos no CELF, onde concluiu o curso de violão popular, em quatro anos, e o curso técnico de violão clássico, em três anos. No meio do curso técnico, deu início ao curso superior de Biomedicina quando passou no vestibular aos dezessete anos. Na mesma ocasião havia ficado na lista de espera para o curso de Artes/Música na Unimontes, mas não foi chamada. Ela contou que para se manter no curso de Biomedicina e ter alguma fonte de renda, ministrava aulas de violão; e, aos poucos pois o número de alunos foi aumentando. Após a conclusão do curso de Biomedicina, ela atuou na área por pouco mais de

um ano, numa rotina que envolvia, entre outras coisas, acordar às seis da manhã e coletar sangue de aproximadamente 200 pessoas.

Apesar de ter gostado da experiência, ela afirmou que o campo de atuação na cidade não era favorável ao trabalho, e que poderia ser mais feliz e realizada atuando na área da música, por isso, passou intensificar as aulas de violão, oferecendo aulas particulares em domicílio. No ano de 2012, C.A. conseguiu, finalmente, ingressar no curso de música, revelando que a relação com a música é um desejo de se sentir feliz e realizada na prática profissional, todavia, a retribuição financeira não é mencionada como uma vantagem da atuação na área. Esse desejo é evidenciado nos dizeres que seguem:

eu já tinha muito aluno de violão, quando eu fazia Biomedicina, estava para formar em Biomedicina e já dava aula para um tanto de gente. Aí a música sempre me chamava de certa forma, em tudo. Eu fazia um outro curso e sempre o pessoal me chamando para tocar, ou aluno aparecendo, aí eu peguei e resolvi fazer música. Sendo que eu tinha tentado música antes, fiquei na lista de espera e não me chamaram. Muito estranho, passei em outras faculdades, que eu podia escolher e em música eu não passei naquele determinado momento. Aí eu terminei Biomedicina, trabalhei com Biomedicina. Depois voltei e fiz música e estou formando agora, né. (C.A., 2017)

Indagada sobre o acesso à cultura durante a infância, a adolescência e agora na fase adulta, C.A. afirmou que quase não teve oportunidade de acesso. Disse que assistiu a um concerto pela primeira vez em Juiz de Fora, no ano de 2014, quando já estava na universidade. No CELF, ficava sabendo das apresentações que ocorriam, mas nem sempre era possível assistir, e que conseguia ir, às vezes, às peças de teatro que aconteciam no centro cultural da cidade. Em relação a shows de música, ela disse que teve pouco acesso, pois estavam relacionados, na maioria das vezes, a estilos como axé e sertanejo universitário que ela não aprecia muito. Às vezes, ia a alguns shows de música sertaneja por insistência dos amigos, mas não havia acesso aos estilos artísticos que ela gostava. Afirmou que esse problema de acesso está relacionado à cidade de Montes Claros, que tem escassas oportunidades de apreciação artísticas, e também à questão econômica, pois muitas vezes faltavam recursos para frequentar as apresentações; comprovado por seus dizeres:

Porque eu moro em Montes Claros, a cidade por si só já tem pouco acesso cultural. Era uma cidade que até então não tinham nenhum museu, veio ter a pouco tempo, para você ter ideia. Uma cidade, (Interrupção). Então, quando eu era mais nova, eu não tinha dinheiro para ir nos lugares, não tinha acesso nenhum. O dinheiro que eu tinha (pausa) minha mãe que tinha que pagar para mim, aí às vezes ela não tinha, né. Aí às vezes deixava o dinheiro para outra coisa. Então é devido à falta de dinheiro e por eu morar em Montes Claros. (C.A., 2017)

Novamente se destaca a questão da falta de acesso à cultura por questões econômicas, o que chama a atenção para o fato de que a indústria da música ocupa os espaços culturais vazios, e isso pode ser um ponto de análise sobre a sua hegemonia.

A entrevistada disse ainda que, atualmente, as principais formas de ter acesso à cultura são por meio da universidade, e da internet: por meio de aplicativos de streaming de música, como Spotify e Deezer, e os canais fechados de TV. Aqui, a universidade e a internet – mais especificamente os aplicativos de música – encontram-se em patamares idênticos, o que mostra que a estudante atribui valores semelhantes a eles no que tange ao acesso à cultura. Para ela, uma ótima forma de ter acesso às apresentações musicais são as amizades do meio artístico que sempre avisam dos acontecimentos culturais da cidade. C.A destacou ainda que existem espaços de bares e restaurantes que oferecem espaço a artistas com determinados repertórios de MPB ou rock, gêneros que ela mais gosta, ou seja, o acesso à cultura também pode se dar pelo compartilhamento entre as pessoas que possuem gostos e afinidades culturais ligados por laços de amizade.

Ao ser perguntada sobre os gostos musicais, C.A. afirmou que, em geral, gosta de músicas com letras bonitas e melodias interessantes. Ela gosta de MPB, de cantoras como Amy Winehouse, bandas como U2 e gêneros como jazz e blues. Além disso, gosta de tocar músicas de artistas brasileiros como Marisa Monte, Geraldo Azevedo, Zé Ramalho, Luiz Gonzaga e Dominguinhos.

Sobre a experiência na universidade, revelou que se preocupava com o fato de o curso de Artes/Música ser uma licenciatura, formando professores e não instrumentistas, contudo, ingressou no curso preparada para essa realidade, uma vez que não há curso de bacharelado em música na cidade. Disse também que tinha dificuldade com as disciplinas relacionadas à licenciatura, porque ela tinha apenas experiência de aulas individuais de violão e ficava um pouco assustada com uma sala cheia de alunos, ambiente comum no ensino básico de escolas públicas. Assim, como a graduação em música da Unimontes é o único da região, os interessados na área, mesmo não tendo interesse pela licenciatura, precisam frequentar este curso. Ela esclareceu seu posicionamento nos dizeres abaixo:

O que mais me preocupava era a questão de estágio. Eu sempre tive um preconceito com as disciplinas de licenciatura. Eu não tinha saco. Eu já entrei na faculdade já sabendo disso, porque eu nunca gostei muito. Na verdade, eu queria fazer um bacharelado. Eu fiz licenciatura porque não tinha aqui. (C.A., 2017)

Em relação à universidade, ela contou ter gostado bastante das aulas de harmonia e estruturação musical, pois no CELF essas disciplinas não haviam sido aprofundadas e ela

sempre tinha que estudar sozinha. No que diz respeito às aulas de instrumento, revelou que foi uma ótima experiência, pois o professor permitia que as aulas se direcionassem para o repertório que a interessava. A acadêmica ainda relatou que dentro do processo de aprendizagem foram respeitadas as tendências artísticas e o repertório de interesse da acadêmica, indicando que não houve, pelo menos no caso dela, uma imposição de plano de estudo fixo. O trecho abaixo apresenta esse ponto de vista

Eu acho que o repertório puxou muita sardinha para o meu lado, umas músicas que eu gostava, que eu queria aprender. Ulisses Rocha mesmo que tem um repertório bacana. Foi um repertório que eu gostei. O meu professor Márcio Frank, eu escolhia as músicas junto com ele. Ou então eu falava com ele, meu sonho é tocar essa música, aí ele trazia para mim. Aí ele falava, na ementa deste semestre nós teríamos que pegar uma musica tal, aí dizia que a gente ia seguir um repertório da ementa, mas que ia pegar muita coisa que eu queria também. (C.A., 2017)

Em relação aos projetos para o futuro, ela disse que pensa em fazer pós-graduação na área, pois o campo de música é muito difícil, tendo em vista que até mesmo pessoas com doutorado estão desempregadas. Além disso, ela deseja ainda continuar com as aulas particulares, já que percebe que se trata de um campo de atuação muito bom porque são poucos os bons profissionais. Nessas aulas ela tem de ensinar repertório que não gosta, mas mesmo assim, faz uma seleção levando em consideração a letra da música. Nos dizeres abaixo, a acadêmica explica seu posicionamento:

Eu escolheria um repertório mais para a música popular, um repertório com letras bonitas. E separaria, por exemplo, artistas marcantes da música popular, entendeu? Eu acho que tem músicas que são atemporais que dá para ensinar para os meninos. Até hoje o pessoal ainda me pede Legião Urbana, e os meninos nasceram agora. Eu colocaria Legião Urbana, Milton Nascimento que eu gosto de ensinar para os meninos. Marisa Monte eu gosto. Um Nando Reis, que é uma coisa mais próximo deles. Um Jota Quest que eles gostam, Skank, eu ia deixar claro também músicas que eles não conhecem, mas que eu ia apresentar para eles. Também algumas músicas de Bossa Nova, de Samba, samba-canção, Fox Canção (pausa) (C.A., 2017)

C.A. entende a importância da profissão de professor de música, pois ela considera que estamos em um momento em que as pessoas não têm tempo para nada, não há tempo para a arte e nem para a cultura; uma vez que essas áreas deveriam ser mais valorizadas pelas pessoas porque a arte tem ainda a capacidade de ser uma terapia para as pessoas, ajudando no relaxamento, na sensação de felicidade e na motivação. Alguns dos alunos dela possuem indicação de psicólogo para fazer aulas de violão ou outro instrumento musical. No entanto, para ela, a profissão é muito desvalorizada porque não possui o status, como os cursos de Medicina ou Direito, por exemplo. Assim, ao ser perguntada sobre o valor que a sociedade dá a profissão de professor de música, ela esclarece seu ponto de vista, nos dizeres abaixo:

Para a sociedade quase nenhuma. As pessoas estão ligadas muito ao status. A profissão de medicina, as profissões voltadas para a área da saúde têm muito mais

status que um músico. A profissão de direito tem muito mais status. Se eu falar que

eu sou formada em Biomedicina, se eu falar que eu sou formada em Música, as pessoas não entendem nem "bio" eles entendem Medicina. Todo mundo fica alegre. Se falar que é da área da saúde, tem um status maior. A profissão de músico, eles não consideram como profissão. Eles acham que a música é como se fosse um hobby, ou tipo um (pausa) uma forma de recreação, né. Na escola mesmo, os professores são contratados e às vezes tem que organizar só as festinhas de quadrilha, homenagem para os dias das mães. Para isso o professor de música serve. A gente é desvalorizada mesmo, para a sociedade a gente não tem valor quase que nenhum. (C.A., 2017)

Assim, do ponto de vista da entrevista, a profissão de músico frequentemente é considerada uma subprofissão, apenas um hobby. Para ela até mesmo no sistema educacional, os professores são direcionados apenas para organizar festinhas, quadrilhas e datas comemorativas como o dia das mães e demais eventos.