2.1 Machine learning
2.1.4 Reward shaping
A hermenêutica, tradição filosófica à qual Ricoeur reivindica pertencimento, desde sua definição clássica como a arte de ler e interpretar textos, está intimamente ligada à linguagem. Mesmo quando ainda era compreendida como uma técnica auxiliar, a hermenêutica tinha como um de seus propósitos a compreensão do sentido de um texto por meio de uma mediação operada pela linguagem. Um dos pontos de partida para que haja um problema hermenêutico é a polissemia das palavras, quando estas são consideradas fora de seu uso em um determinado contexto (RICOEUR, 2008).
Schleiermacher fazia da polissemia o mote da interpretação. Segundo ele, para que haja hermenêutica, é necessário que haja uma ambiguidade no sentido das palavras. Essa multiplicidade de significados gera o ‘mal-entendido’, a ‘não compreensão’23 que a interpretação visa superar ao “compreender um autor tão bem, ou melhor, do que ele do compreendeu a si mesmo” (SCHLEIERMACHER apud RICOEUR, 2008, p. 27). Para esse autor, o ofício interpretativo se dava em duas vias:
1ª) Interpretação gramatical: nessa via, “o homem, com sua atividade, desaparece e surge apenas como órgão da língua” (SCHELEIERMACHER, 2001, p. 93). Ela busca compreender uma expressão ou uma obra como parte do contexto linguístico de uma época que é comum ao autor e ao leitor primitivo.
2ª) Interpretação técnica ou psicológica: nessa via, “a língua, com seu poder determinante, desaparece e surge apenas como órgão do homem” (SCHELEIERMACHER, 2001, p. 93). Ela busca compreender a individualidade da obra e a particularidade estilística do autor remontando ao espírito que anima e dá feição ao texto (DOMINGUES, 2004). Nessa etapa, visa-se à compreensão do espírito que é trazido à tona e expresso pela linguagem.
Essas duas vias do trabalho de interpretação apontadas por Schleiermacher mostram que a hermenêutica visa compreender o sentido de um discurso como a expressão de algo que foi pensado por meio da linguagem. A compreensão não tem outro objeto senão a linguagem e “tudo o que deve ser pressuposto na hermenêutica é apenas a linguagem” (SCHLEIERMACHER, apud GRONDIN, 1999, p. 125). Com
23 Segundo Grondin, antes de Schleiermacher a hermenêutica buscava interpretar principalmente as passagens obscuras dos textos. Este autor, porém, universaliza o mal-entendido, dizendo que ele está presente em cada ponto do texto. A consequência é que nenhuma interpretação é definitiva, nenhuma dissolve esse fundo de não compreensão (GRONDIN, 1999).
efeito, o esboço do método interpretativo desenhado anteriormente remete a uma dupla concepção de linguagem. Na interpretação gramatical, a linguagem é tomada em sua acepção supraindividual, ou seja, ela é vista como uma totalidade que envolve tanto o autor como ao seu público original. Nesse momento, o sentido da obra será compreendido como uma expressão desse contexto linguístico compartilhado, e não como uma manifestação da alma do autor. Todavia, para a hermenêutica de Schleiermacher, o sentido expresso na linguagem não apresenta somente essa dimensão supraindividual e anônima. A linguagem é também testemunho de uma alma individual. Na interpretação técnica ou psicológica, a visão sintática e formal da linguagem é ultrapassada em direção à compreensão do espírito individual do autor que se expressa por meio da linguagem (GRONDIN, 1999). Essa alma individual é que confere a especificidade do estilo que cada autor imprime em sua obra.
Um segundo ponto de inflexão na história da hermenêutica se deu no século XX com as obras de Martin Heidegger e Hans-Georg Gadamer. Na leitura de Ricoeur, esses alemães empreenderam uma segunda revolução copernicana no campo hermenêutico, ao deslocar o eixo da compreensão – que outrora estava no terreno da epistemologia24 e metodologia – para o solo ontológico (RICOEUR, 2008). Esse movimento teve importantes implicações no campo da linguagem.
Para Heidegger, sobretudo na segunda fase de sua filosofia, a linguagem deve ser situada onde o ser se desvela, isto é, no homem. Isso equivale a localizar a linguagem no fundamento da estrutura de compreensão do ser-aí (Dasein). Em suma, a linguagem não é um objeto que está diante de nós, mas todo nosso pensar já está articulado linguisticamente. Nessa perspectiva, a linguagem não é fechada em si mesma. Ela é uma abertura para a compreensão de nossa experiência com o mundo e com as coisas. Nosso ser-no-mundo é mediado linguisticamente: “O originário não é que falamos uma linguagem e dela nos utilizamos para poder manipular o real, mas, antes, que a linguagem nos marca, nos determina, e nela se dá a revelação dos entes a nós, o que só é possível porque (...) a linguagem é o evento de desvelamento do ser” (OLIVEIRA, 2006, p. 206).
A linguagem é uma das colunas que sustentam a filosofia ricoeuriana. Sobretudo após sua ‘guinada hermenêutica’, seus trabalhos dedicaram um espaço importante a essa dimensão da vida humana. Suas reflexões acerca do tema
24 Isso é bastante claro na distinção entre explicação e compreensão assumida por W. Dilthey em seu esforço de fundamentação das ciências do espírito.
encontram-se disseminadas nas coletâneas de ensaios sobre hermenêutica – O conflito das interpretações (1969); Do texto à ação (1986); em suas abordagens sobre a metáfora e a narrativa; em seu pensamento sobre identidade individual e ética. Contudo, é na reunião de ensaios Teoria da interpretação (1976) que Ricoeur visou dar uma unidade aos seus estudos e deslindar uma filosofia da linguagem. Tornando explícito seu pertencimento à tradição hermenêutica, o filósofo francês concebe a linguagem como uma abertura, uma mediação para a compreensão da experiência humana. Isso implica uma dimensão ontológica da linguagem: ela emerge e retorna a uma experiência. Ademais, é colocado um acento reflexivo e existencial na linguagem, pois ela é o meio privilegiado pelo qual o sujeito compreende a si mesmo (CI).
Tendo em vista o quadro que esboçamos sobre o giro linguístico, podemos sustentar que a teoria da linguagem presente na filosofia de Ricoeur foi construída em diálogo e tensão com as principais teses desse movimento. A princípio, vamos apontar em que medida ambos os pensamentos estão em harmonia, para posteriormente indicar suas dissonâncias. Talvez, uma frase dita pelo filósofo certa vez em uma entrevista pode sintetizar nosso argumento: “O giro linguístico (tournant linguistique) eu o fiz no interior da hermenêutica” (RICOEUR, 1988, p. 3).
Uma das consonâncias entre a virada linguística e a filosofia da linguagem ricoeuriana é a afirmação de que a linguagem não é um espelho que reflete de forma idêntica os objetos por ela representados. Além disso, ambas as perspectivas defendem que não é possível ter acesso ao mundo senão por meio da linguagem. Entretanto, apesar dessas semelhanças, existem importantes diferenças nas duas teorias. Para sistematizar suas incongruências com o linguistic turn o filósofo francês recorreu em várias oportunidades a uma distinção entre semiótica e semântica, assinalando que sua perspectiva está assentada nesta última. Na caracterização de Ricoeur, a semiótica está de acordo com as principais teses da linguística estrutural proposta por Saussure, ao passo que a semântica interage com os argumentos do linguista Émile Benveniste.
Da separação entre semiótica e semântica deduz-se uma outra – entre língua e discurso. No plano da língua – que equivale à langue saussuriana –, a unidade básica é o signo. A significação é um processo imanente ao sistema e consiste num jogo de diferenças entre significante e significado. A língua estrutura-se como um mundo próprio, um sistema fechado em si mesmo e demanda uma perspectiva sincrônica.
Ricoeur não desqualifica essa abordagem, pelo contrário, considera-a como um avanço no campo das ciências humanas na medida em que aplicou modelos de explicação sem recorrer a procedimentos das ciências da natureza. Contudo, seu projeto é que a linguagem não seja restringida apenas a essa dimensão que toma o signo como entidade básica. A teoria da linguagem ricoeuriana é definida por ele mesmo como bidimensional, isto é, concorda com os argumentos da linguística estrutural desde que eles sejam circunscritos ao campo dos signos. A uma análise unidimensional da linguagem, que apenas adote o primado dos signos, Ricoeur opõe um exame bidimensional fundado em duas entidades básicas – o signo e a frase (TI).
A noção de discurso está construída sobre quatro pontos que podem ser assim sintetizados: alguém diz alguma coisa sobre algo a alguém. Nos vértices desse quadrilátero discursivo estão, respectivamente, os conceitos de locutor, sentido, referência e interlocutor. Uma diferença básica – mas que nem sempre é lembrada – entre a instância da língua e a do discurso diz respeito à unidade linguística de referência que, no primeiro caso, é o signo, e no segundo, a frase (TI; MV). Quando Saussure construiu sua linguística, ele não pensava em uma aplicação do modelo em objetos mais extensos que o signo, tais como o conto, a poesia, a narrativa histórica e a ficcional. Essa extensão foi obra de autores que dialogaram com o estruturalismo, dentre os quais citamos Propp, Jakobson e Barthes.
O quadrilátero discursivo ricoeuriano reintroduz uma dupla referencialidade no campo da linguagem que não estava contemplada na linguística estrutural: a referência ao mundo e a referência ao sujeito (HENRIQUES, 2002). Se no sistema formal da língua tais referências puderam ser suprimidas, elas são imprescindíveis para o discurso. Assim, está pavimentado o caminho que conduz a linguagem para uma dimensão ontológica. Na filosofia de Ricoeur, a linguagem não é um mundo próprio, mas é uma abertura para o mundo, uma mediação que contribui para a compreensão de si do sujeito:
A linguagem não é um mundo próprio. Nem sequer é um mundo. Mas, porque estamos no mundo, porque somos afetados por situações e porque nos orientamos mediante a compreensão de tais situações, temos algo a dizer, temos a experiência para trazer à linguagem (TI: 32).
No campo do discurso, o signo deixa de ser constituído pela diferença entre significado e significante. A perspectiva semântica toma o signo como referência a algo em cujo lugar está. Para dar conta da relação entre a linguagem e a condição ontológica
do ser-no-mundo, Ricoeur lança mão da dialética entre sentido e referência estabelecida pelo alemão Friedrich Gottlob Frege, filósofo e matemático considerado fundador da lógica moderna. De acordo com o filósofo francês, apenas no nível da frase é possível marcar a diferença entre “o que se fala” (sentido) e “aquilo sobre o que se fala” (referência) (TI; MV).
O sentido de uma frase, o que é dito, é imanente ao discurso; já a referência indica o movimento no qual a linguagem transcende a si mesma. O sentido é o modo pelo qual designamos o objeto. Uma mesma realidade pode ser denotada por sentidos distintos, por exemplo: “O bruxo do Cosme Velho”, “O autor de Dom Casmurro” e “Machado de Assis” são significações diferentes que têm a mesma referência. Por outro lado, um mesmo sentido – “o rei da França é calvo” – pode ter mais de uma referência, dependendo do ocupante do trono. Para que uma realidade seja denotada pelo locutor, ele precisa recorrer ao sentido, ao significado linguístico. O sentido é traspassado pela intenção de referência do locutor (TI).
A outra face da referência aponta para o locutor, para o sujeito. Afinal, é ele que, ao falar, refere-se ao mundo. Sua experiência de ser-no-mundo fornece a condição ontológica que terá sua expressão na linguagem. Na hermenêutica ricoeuriana, a linguagem é abertura e mediação para a compreensão da experiência vivida. Em sua visão, “a própria linguagem, enquanto meio significante, exige ser referida à existência” (CI: 18). Se na linguística estrutural a significação resulta apenas da interação entre significante e significado, na teoria de Ricoeur, o sujeito é o portador da significação (HENRIQUES, 2002).
Um dos principais movimentos do giro linguístico consistiu em deslocar a linguagem do campo dos objetos para a esfera dos fundamentos. Com efeito, em alguns casos – notadamente na linguística estrutural –, esse deslocamento comprometeu a relação linguagem/mundo e linguagem/sujeito, erigindo-a em uma esfera ensimesmada. Na filosofia de Ricoeur, a linguagem não é tomada como objeto ou algo transparente que produz uma réplica do real, nem como um sistema de signos enclausurados: “A linguagem não é fundamento nem tampouco objeto. Ela é mediação. Ela é o médium, o meio no qual e pelo qual o sujeito se põe e o mundo se mostra” (CI: 215).
Nesse sentido, é através da linguagem que a experiência privada torna-se pública, as impressões são comunicadas em expressões e as significações que atribuímos às vivências são compartilhadas, “a solidão da vida é aí iluminada pela luz comum do discurso” (TI: 31). Esses traços da filosofia da linguagem de Ricoeur que
nosso exame percorreu serão de suma importância para a compreensão de conceitos que enfocaremos nos capítulos posteriores: mímesis, círculo hermenêutico, identidade narrativa, referência metafórica e representância. Em nosso ponto de vista, a reintrodução da dupla referencialidade na linguagem – ao mundo e ao sujeito – está no cerne do que chamamos realismo crítico. Para o filósofo francês, a linguagem não é um reflexo da realidade, mas também não é descolada desta. A linguagem possui uma ancoragem no real, ela é uma mediação para a compreensão da experiência vivida:
Não que tudo seja linguagem, como é dito às vezes, com excesso, nas concepções em que a linguagem perdeu sua referência ao mundo da vida, àquele da ação e comunicação entre as pessoas. Mas, se nem tudo é linguagem, tudo, na experiência, não adquire sentido senão sob a condição de ser levado à linguagem. (RICOEUR, 1992b,p.209).