2.1 Machine learning
2.1.1 Artificial Neural Networks
Depois desse olhar mais abrangente sobre um episódio da paisagem intelectual francesa, julgamos ser prudente começar a afunilar nosso caminho rumo às questões historiográficas. Durante a hegemonia estruturalista, a obra ricoeuriana não foi bem recebida na França, porém, a partir da década de 1980 e da publicação de Tempo e narrativa (3 tomos, 1983-1985), esse quadro mudou, possibilitando uma melhor acolhida e reconhecimento do filósofo. Nesse mesmo período, a situação da historiografia francesa contemporânea era diagnosticada por alguns com os termos “tempo de incertezas” e “crise epistemológica” (CHARTIER, 2002). Em 1988, foi
publicado um editorial na Revista dos Annales que começa a discutir o contexto de crise da disciplina. Num primeiro momento, sustentava-se que havia uma “crise geral nas ciências sociais” em virtude do enfraquecimento dos paradigmas então dominantes (estruturalismo e marxismo), mas que, apesar disso, a crise não atingia diretamente a historiografia. Esse editorial assim concluía: “Não nos parece chegado o momento de uma crise da história, cuja hipótese, com demasiada comodidade, alguns aceitam” (apud CHARTIER, 2002, p. 61). Dizia-se que a historiografia era um campo sadio e vigoroso, pois havia multiplicação dos objetos de pesquisa e uma produção abundante, embora a disciplina estivesse atravessando um período de incertezas.
Segundo Delacroix, essa recusa inicial da crise foi um mecanismo de defesa dos historiadores dos Annales, um dispositivo empregado para tentar assegurar a identidade do grupo e sua hegemonia na historiografia francesa. Na análise desse autor, o tournant critique [guinada crítica] teria consistido num remodelamento do programa epistemológico dos Annales, adaptando-o para responder às inquietações do fim de século. A guinada crítica vai reavaliar até mesmo um dos pontos fulcrais do projeto annaliste, a aliança e interdisciplinaridade com as ciências sociais (DELACROIX, 1995).
Em “O mundo como representação”, artigo publicado originalmente em 1989 na Revista dos Annales, Chartier14 irá sustentar que o “tempo de incertezas” e a “crise epistemológica” da historiografia se explicam menos em virtude da “crise geral das ciências sociais” do que por mudanças e deslocamentos operados no interior da disciplina. Para mapear essas transformações, vamos nos servir de um outro texto desse historiador que também trata sobre o tema, A história entre narrativa e conhecimento (1994). Fica patente que, a partir do início da década de 1990, a postura já não será mais a de negar a crise. No que tange aos deslocamentos teóricos, Chartier destaca os que vão “das estruturas às redes, dos sistemas de posições às situações vividas, das normas coletivas às normas singulares” (CHARTIER, 2002, p. 83).
Chartier prossegue seu diagnóstico apontando para dois desafios lançados à historiografia pelos flancos do Atlântico. De um lado, nos EUA consolidou-se o chamado linguistic turn ; de outro, na França, há uma renovação da história política. Em
14 Apesar de Delacroix não considerar Chartier como integrante do grupo motor do tournant critique, iremos basear nossa análise em seus textos. Embora ele possa não ser considerado como um historiador dos Annales, Chartier possui muitas afinidades com os historiadores desse grupo, tendo publicado diversos textos em sua revista. Talvez, o indicador mais claro da afinidade entre a posição teórica de Chartier e a dos Annales seja a defesa do historiador francês do vínculo entre história e ciências sociais. Esse é um ponto fundamental no “programa” annaliste desde a sua fundação, por M. Bloch e L. Febvre.
sua visão, o linguistic turn repousa numa compreensão da linguagem como um sistema fechado de signos. Nessa lógica, a construção do sentido se dá através de um jogo impessoal entre signo e significante, num processo que não tem qualquer relação com a intenção do sujeito. Assim, a língua tem um funcionamento automático e impessoal. Acrescente-se a isso a afirmação de que não há uma realidade objetiva que seja externa ao discurso, ou seja, a linguagem não teria referente extradiscursivo, o que culmina em uma relativização das fronteiras entre texto e contexto. Na contramão do giro linguístico, a renovação da história política na França vai valorizar a parte refletida e consciente da ação e a liberdade do sujeito. As duas primeiras gerações da Escola dos Annales se afastaram da análise política, pois diziam que a Escola Metódica escrevia uma história política que era psicologista, biográfica, elitista, factual e nacionalista (JULLIARD, 1988). No final do século XX, houve uma renovação da história política em virtude de uma nova compreensão do político que atinge até o cotidiano. Essa esfera não possui mais fronteiras fixas e de modo algum se restringe ao quadro estatal ou das “elites”, mas está relacionada às mais distintas áreas da vida coletiva. Para esse grupo de historiadores (R. Rémond, F. Sirinelli, J.P. Rioux), o político é visto como a esfera mais globalizante e reveladora da sociedade (CHARTIER, 2002).
O pedregoso percurso teórico-metodológico que a historiografia francesa percorreu ao longo do século XX teria a conduzido, segundo Chartier, à beira da falésia. O giro linguístico, juntamente com os chamados “retornos” do acontecimento e da narrativa à escrita da história são vistos por nós como o núcleo duro desse período de incertezas e inquietações da historiografia. Tais questões são importantes para o entendimento do debate sobre narrativa e representação que faremos ao longo da dissertação. Em virtude disso, faremos a seguir uma abordagem mais detida de seus principais aspectos. Mais do que realizar um “balanço” ou “estado da arte”, nosso alvo nesses tópicos é explicitar, ou ao menos indicar, qual é a posição de Ricoeur sobre cada um desses temas, a partir de um diálogo com os apontamentos dos outros autores.