Os fatos são sonoros mas entre os fatos há um sussurro. É o sussurro o que me impressiona.
Clarice Lispector
Sêneca, quando quer mostrar o que levava um indivíduo a uma posição social mais elevada do que outro, arrola uma série de variáveis. Esses diferentes atributos podem tanto promover alguém socialmente quanto desprestigiá-lo. Entre as variáveis positivas temos elementos tão distintos1
quanto a firmeza de espírito2
, o nascimento em uma família importante3
ou em uma localidade de maior destaque4
, a reputação5
, o patrimônio6
e o dinheiro7
, o apoio de pessoas importantes8
, a popularidade9 , a idade10 , a cidadania11 e o estatuto jurídico12 ; quantidade de escravos13 e clientes14 , ser conhecido
1 Todas as referências citadas a seguir não correspondem a um levantamento exaustivo das passagens em
que Sêneca menciona os signos de distinção social mencionados. Procuramos apenas exemplificar essas ocorrências, que perpassam toda a obra do filósofo, buscando sempre indicar o que lhe parecia uma ilusão que contaminava seus contemporâneos. Para ele, um indivíduo ter o que era considerada uma boa vida não significava nada mais do que um triste engano. Esses seriam falsos bens, que se perdiam facilmente conforme o gosto da Fortuna ou da morte. Os únicos bens reais e seguros para o homem seriam aqueles derivados do cultivo da razão. Uma demonstração cabal disso seria que todos os homens teriam ascendentes tanto da mais elevada quanto da mais baixa categoria social. Cf. Epistulae Morales, XLIV, 4 e XLVII, 8; CI, 4; Ad Marciam de Consolatione, IX, 2 entre outras passagens. Além disso, a posição social não importaria, pois seria exterior ao homem e indiferente por não compor sua natureza. Epistulae Morales, XLVII, 16 e LXVI, 34.
2 De Prouidentia, II, 8.
3 De Constantia Sapientis, XIX, 4. Epistulae Morale, XLI, 7. 4 De Beneficiis, IV, XXXV, 1.
5 De Constantia Sapientis, XIX, 4; Hercules Furens, vv. 162; Epistulae Morales, XXI, 10; XLI, 7. 6 De Constantia Sapientis, XIX, 4.
7 Epistulae Morales, XLV, 9 e LXXVI, 15. 8 Hercules Furens, vv. 161.
9 Idem, vv. 164-167.
10 Epistulae Morales, XXIV, 11. 11 Idem, XXI, 10.
12 Idem, XXXI, 11; XLIV, 4. 13 Idem, XXI, 10.
em muitas regiões15
, honras militares16
além, é claro, da erudição e do cultivo do espírito, que perpassa sua obra como sendo uma característica elevada por excelência.
Como síntese do que para Sêneca prestava-se como índices de divisão social, podemos tomar uma passagem das Epistulae Morales: “Guarda no teu espírito essa imagem: a fortuna brinca com os homens, espalha ao acaso entre eles as honras, as riquezas e os favores”17
. Fica bem claro, nessa passagem em que Sêneca procura sintetizar quais seriam os elementos que geram promoção social – e que são muito desejados pelo vulgo –, que esses índices podem ser divididos em três níveis: a honra, que seria fruto da distinção estamental; a riqueza, produto da melhor ou pior posição dos indivíduos no mercado; e os favores, que podiam ser obtidos por meio das relações com outras pessoas. Sêneca não dá a nenhum desses elementos o peso de determinante. São todos destacados e igualmente importantes. Tanto é assim que aparecem quase que aleatoriamente ao longo de sua obra.
Do mesmo modo, as condições sociais que podem ser pensadas por Sêneca aparecem sempre vinculadas a situações concretas e particulares ou em formulações abstratas e abertas demais. Nosso autor não se preocupou, em nenhum momento, em apresentar os grupos sociais que comporiam sua sociedade. Aqueles diferentes trunfos sociais, que poderiam promover ou rebaixar um indivíduo na escala social não são em nenhum momento organizados e racionalizados como fazendo parte de um sistema social mais objetivo. As diferenças, mais do que criar grupos sociais, aos olhos de Sêneca, faziam com que os homens fossem iguais, superiores ou inferiores uns aos outros na sociedade, como mostra bem essa passagem:
é necessário abster-se da ira, seja contra o igual, contra o inferior, contra o superior. O resultado da luta contra o igual é duvidoso; lutar contra o superior é insensato; com o inferior é degradante18
.
15 Idem, LXVI, 34. 16 Idem, LXVIII, 10.
17 Idem, LXXXIV, 7. Nem é preciso dizer que todas essas três espécies de coisas tão desejadas pelos homens
em geral são desprezíveis para o sábio. Pois, “de tudo isso, umas coisas são dilaceradas entre as mãos dos competidores, outras são mal divididas por sociedades desiguais, outras não se conseguem sem grave dano de quem as obtém”.
Essa opção de Sêneca por não lançar um olhar “sociológico” sobre seu tempo não deve nos surpreender, por seu óbvio anacronismo. Como se pode notar pelos índices de divisão social que ele percebia em seu tempo, três binômios são fundamentais para se obter uma maior promoção social. São eles: liberdade–escravidão; riqueza–pobreza; prestígio–iniquidade. Mas tais binômios não aparecem em Sêneca como simplesmente materializações de condições jurídico-estamentais, econômicas ou sociais. Assim, a análise que se segue, sobre como Sêneca via os setores sociais subalternos, parece-nos que deixará claro que não era a divisão jurídico-estamental, econômica ou social per si que nos instrumentalizará para ordenar de forma mais sistemática o mundo romano.
Os padrões de análise de Sêneca eram ético-morais e lhe serviam bem. Esses mesmos padrões também nos seriam satisfatórios, caso desejássemos fazer um estudo ético-moral do Mundo Antigo. Mas não é disso que se trata. Impõe-se que procuremos, a partir das informações que Sêneca nos oferece, construir um instrumental analítico- conceitual que nos capacite a uma compreensão histórico-sociológica do tempo passado e... do nosso. Como admitimos que seria anacrônico procurar em Sêneca uma sociologia, convençamo-nos de que é, não só anacrônico, mas também perigoso, limitarmo-nos a apreciações ético-morais do passado.
Passemos, então, ao estudo dos setores sociais subalternos. Dividimos essa apreciação em dois momentos, para que possamos construir uma exposição mais clara. Em primeiro lugar, apresentaremos como Sêneca via os pobres e, a seguir, os escravos. Antes disso, porém, é fundamental analisar a maneira como Sêneca pensava o lugar de cada um dos seres humanos em particular na ordem cósmica. Um conceito fundamental para perceber a situação do ser humano no mundo era o conceito que Sêneca tinha de natureza. Depois, disto e ainda preliminarmente à análise dos setores subalternos, cremos ser importante estudar alguns elementos no que concerne à visão que Sêneca tinha do trabalho e do mercado, uma vez que são variáveis obviamente relevantes para a constituição do universo social que analisaremos, especialmente no que concerne à pobreza. Passemos, então, incialmente ao estudo da natureza em Sêneca.