• No results found

A natureza é uma ideia fundamental à realização do pensamento antigo em geral. Toda a reflexão filosófica durante a Antiguidade Clássica teve um ponto fundamental na concepção do que seria o natural. Por quais razões a natureza assume essa importância? O motivo principal advém do consenso de que a ordenação natural seria perfeita e universal. O natural é perfeito porque estabelece uma razão ideal entre todas as coisas do universo, equilibrando-as. Na natureza, revela-se a obra dos deuses, o produto de sua razão. A natureza é o resultado da razão divina e, assim sendo, não se transforma a não ser pelo empenho dos próprios deuses ou dos homens.

Todas as escolas filosóficas da Antiguidade concordavam quanto à ideia de que a natureza era uma ordenação racional perfeita – criada pelos deuses – e que se aproximar dessa razão natural seria encontrar a verdade da razão. Isso era fundamental para se ter a verdade sobre o que o homem deveria fazer para viver conforme a natureza, a razão divina. Pois o homem, por ser dotado de razão, é o único elemento capaz de agir contra a natureza. Esse paradoxo sempre intrigou os pensadores que chegaram sempre a uma mesma conclusão: a natureza é o produto da razão divina, a razão do homem vulgar não segue a natureza e, assim, causa prejuízo à humanidade. Cabe ao filósofo descobrir a verdadeira natureza das coisas e o bem natural ao homem.

Sêneca era um pensador e, como tal, elegeu uma escola filosófica que servisse como ponto de partida para suas reflexões. Sendo estóico, impôs a essa escola uma perspectiva particular. Assim, importa tratar um pouco como se apresentava esse estoicismo senequiano.

O estoicismo, à época de Sêneca, contrapunha-se ao epicurismo. Sêneca sintetiza as diferenças do modo que segue:

Não estou te falando daquela filosofia que expulsa o cidadão de sua comunidade, coloca os deuses à margem e põe a virtude na dependência do prazer; falo-te, sim, daquela que aceita como único bem o bem moral, que

resiste soberanamente aos favores dos homens ou da fortuna, e cujo maior preço consiste em estar acima de qualquer preço19

.

Muito bom. Mas o que é um bem? Segundo Sêneca,

um bem é tudo aquilo que é conforme a natureza. Repara bem no que estou dizendo. Atenção: tudo quanto é bom é conforme a natureza; mas isto não implica que tudo o que é conforme a natureza é um bem. Há alguma coisa conforme a natureza, mas tão insignificante que nem chega a merecer o nome de bem20

.

Daqui, então, pergunta-se: que é a natureza? Voltemos às Cartas, onde Sêneca escreveu que “é mais fácil intuir do que explicar o que é a natureza”21

. Com isso perdemo- nos no subjetivismo, no opinativo? Não. Para Sêneca, “Há na natureza quatro tipos de seres: a árvore, o animal, o homem, o deus. Estes dois últimos, por serem racionais, possuem natureza idêntica, apenas diferindo entre si por ser um imortal e outro mortal”22

. A esse axioma, une outro, segundo o qual “a perfeição absoluta é aquela que é perfeita em relação à ordem universal da natureza, e esta é racional; os diversos seres só podem ser perfeitos em relação à sua espécie”23

. De ambos Sêneca conclui: “És um animal racional. Qual é então o teu bem próprio? A perfeita razão”24

. E qual o significado disso tudo frente à compreensão da sociedade romana?

A maioria da população à época de Sêneca vivia à custa de seu próprio trabalho e, assim, não contava com o tempo necessário ao cultivo da razão, estando em uma situação de necessária rebeldia. O controle dessa crise natural era necessário, pois suprimi-la seria impossível. Ele não desconhece que as distinções sociais eram insuperáveis, sabe que os

19 Epistulae Morales. XC, 35 20 Idem, CXVIII, 12

21 Idem, CXXI, 11 22 Idem, CXXIV, 14 23 Idem, ibidem.

24 Idem, CXXIV, 23. Destaque-se que é difícil atribuir a esta passagem um caráter adulatório. Trata-se de um

trecho das Epistulae Morales que foram escritas quando Sêneca já havia se afastado de Nero, em um contexto em que tal gesto não faria muito sentido, portanto.

seus contemporâneos não abririam mão de serem mais homens do que os outros. O próprio Sêneca não se sentia capaz de fazê-lo.

Para que essa desigualdade artificial se mantivesse era necessário que algo servisse para estabilizá-la. Daí que

Em minha opinião, laboram em erro aqueles que pensam serem os fiéis praticantes da filosofia homens insolentes e obstinados, que apenas sentem desprezo em relação aos magistrados, aos reis, a todos enfim a quem cabe o encargo da administração pública. É precisamente o contrário que se passa: nenhuma classe de pessoas lhes tem maior gratidão com toda a justiça, pois a ninguém seus préstimos são mais notórios que aos filósofos, aos quais proporcionam as benesses de uma vida de ócio e tranquilidade25

.

Sêneca não se iludia, assim, que a sociedade fosse natureza virgem, via a res publica como um artifício humano, onde muitos são desumanizados. Contudo, na visão de Sêneca, não era o controle centralizado e repressivo do Estado que, por si próprio, conteria toda a energia potencialmente insurgente gerada pelas desigualdades sociais.

Portanto, a estratégia era a fragmentação da realização das injustiças sociais, bem como de seu controle e de sua repressão. Para tanto, cada beneficiário da criação humana, que é a sociedade, deveria se devotar a criar mecanismos de interação social que particularizassem o universo social, isolando os desajustados com relação à natureza e evitando que esses se revoltassem. Para que tal sociedade funcionasse era preciso ter em cada familia uma res publica, livre da interferência do Estado tanto quanto possível, mas sob proteção deste. Em cada uma dessas familiae, um pequeno número de homens era servido por um grande número de aspirantes à humanidade. Eis o sonho de Sêneca. A fragmentação dos conflitos como solução. A lógica que rege todos os conflitos é a mesma: a natureza humana é violentada pela ambição. A desigualdade gera posições que não são naturais em dois sentidos. Por um lado, gera aqueles que não têm tempo para nada, pois têm de trabalhar. Por outro, faz com que existam também aqueles que nada perdem do seu tempo com o que não desejam fazer, vivendo em um luxo excessivo. Estariam ambo

afastados em relação ao que seria natural, portanto: uns por ambição desmedida, outros por carência do que seria o básico à sobrevivência e ao cultivo da razão. Sêneca afirmará que esses lugares não são fixos. Como os homens são naturalmente iguais, qualquer um pode ocupar essa ou aquela posição.

A supressão da desigualdade não se dará. Só resta lutar por ser “rei” em cada uma das familiae, esquecendo que essa ordenação que impõe a miséria a tantos e a abastância desmida a poucos é contra a natureza e, portanto, contra a razão divina. Ao que parece, o pensamento do filósofo capitula frente a uma realidade que não pode mudar e reflete sobre o que fazer para alcançar o bem em um ambiente que se mostra claramente hostil a tal empreitada.