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A unidade mínima de base textual nomeada por Adam (2011 [2008]) de “proposição-

enunciado” ou “proposição-enunciada” é uma unidade semântica que apresenta uma

estabilidade sintática ligada por um sujeito ou por um tema ao seu predicado. Ou seja, há um ser ou um objeto de discurso e aquilo que é dito sobre ele é representado por um enunciado verbal ou nominal.

A proposição é definida como unidade textual elementar em detrimento da frase. Adam reconhece que a frase não apresenta uma estrutura sintática estável o suficiente para se

tornar uma unidade de análise de texto, “reservando-a para a frase tipográfica da escrita”

(PASSEGGI et al., 2010, p. 270). Para esses autores, a proposição-enunciado “trata-se, ao mesmo tempo, de uma microunidade sintática e uma microunidade de sentido em um

co(n)texto” que é determinado pela situação discursiva.

Nesses termos, Adam (2011 [2008], p. 106) reconhece a proposição como “uma unidade textual de base, realizada e produzida, efetivamente, por um ato de enunciação, portanto, o considera um enunciado mínimo”. Inclui essa unidade no eixo da análise textual- discursiva, por entendê-la como um elemento que se encadeia a outros segmentos da língua para construir a maior unidade semântica que é o texto.

Com o objetivo de explicitar a maneira como os sujeitos organizam as sequências de seus enunciados para estruturar a figura do texto, Adam (2011 [2008]) faz uso de uma pertinente citação de Bakhtin para explicar que, ao escolhermos determinados enunciados simples, não fazemos essa escolha por acaso, mas que ela se dá mediante as representações que nós temos sobre o assunto a ser tratado, os nossos conhecimentos socioculturais que compartilhamos no contexto social e o gênero a ser produzido em sua totalidade.

Nesse sentido, é importante destacar que, ao escolhermos um enunciado ou um conjunto de enunciados, a escolha acontece tendo em vista um gênero de discurso em construção. Não se escolhe de forma aleatória, porque o gênero é que vai determinar a

macroestrutura do texto, envolvendo e considerando os aspectos semânticos, cognitivos, enunciativos e pragmáticos.

Então, a forma como representamos semanticamente esse enunciado envolve como o produzimos e o interpretamos, de acordo com os nossos pré-construídos, a forma como concebemos as coisas do mundo em nossa volta e o modo como as defendemos.

No processo de análise proposto pela Linguística do Texto, a proposição, enquanto enunciado, vai se ligando a outros enunciados que marcam a continuidade e a descontinuidade para formar o plano de texto, que vai se complexificando, conforme nos apresenta a Figura 5:

Figura 5 – Esquema 5: Operações de segmentação e de ligação

Fonte: Adam (2011 [2008], p. 64).

Adam considera o esquema 5 o centro da sua obra (2011 [2008], p. 64) porque nele está reunido “o conjunto das operações de textualização” que são as categorias da língua que servem para análise textual. Podemos observar que a figura apresenta as duas operações “que regem os encadeamentos de proposições no sistema que constitui a unidade TEXTO – objeto da linguística textual” (ADAM, 2011 [2008], p. 44, grifo do autor).

As operações de segmentação dividem o conjunto que forma o todo textual em partes descontínuas, as quais se organizam em uma ordem linear. As operações de continuidade vão se complexificando, à medida que o texto vai sendo construído, e transformando-se em unidades maiores para formar o seu plano global.

Para Adam (2011 [2008]), as proposições-enunciadas se reúnem às frases e constroem os períodos e as sequências, que, por sua vez, formam os parágrafos e as estrofes, construindo as partes de um plano global, indo até os limites iniciais e finais da textualidade, que é o peritexto, o qual está no entorno do texto e contribui para o seu significado.

O autor admite que “as proposições-enunciados estão sujeitas a dois grandes tipos de

tipificadas, os períodos, e unidades mais complexas, tipificadas, as sequências” (ADAM, 2011 [2008], p. 204, grifo do autor).

As redes de relações de continuidade e de descontinuidade formadas pelas operações de segmentação e as de ligação, segundo Adam (2011 [2008], p. 64), “consistem na construção de unidades semânticas e de processos de continuidade pelos quais se reconhece

um segmento textual”.

O texto é composto por um conjunto de proposições-enunciadas que se conectam entre

si “através de diversos processos, entre os quais: correferência e anáforas; isotopias;

colocações; elipses e implícitos; conectores, incluindo os organizadores textuais e os conectores argumentativos; cadeias de atos de discurso” (PASSEGGI et al., 2010, p. 271).

São esses processos que fazem a conexão das partes do texto, ligando-as umas as outras, marcando a progressão, a continuidade da construção e da organização textual. É a junção dessas partes, indissociáveis e complementares, que fazem com que o texto seja organizado em enunciados mínimos, depois em unidades maiores para formar os parágrafos, as sequências e as partes do plano global do texto para ganhar sentido.

Adam (2011 [2008], p. 109) ratifica esse pensamento:

Toda proposição-enunciado compreende três dimensões complementares às quais se acrescenta o fato de que não existe enunciado isolado: mesmo aparecendo isolado, um enunciado elementar liga-se a um ou vários outros e/ou convoca um ou vários outros em resposta ou como simples continuação.

Essa condição de ligação é, em grande parte, determinada pelo que

chamaremos de orientação argumentativa (ORarg) do enunciado. (ADAM, 2008, p. 109, grifo do autor).

A responsabilidade enunciativa, a representação discursiva e a orientação argumentativa são as três dimensões que todo enunciado mínimo possui. Discutir o enunciado-mínimo a partir dessas três dimensões significa compreendê-lo, conforme Adam (2008, p. 108), “como microunidade enunciativa e textual”.

A Figura 6 aparece em forma de um triângulo e traz as três dimensões de um ou de vários enunciado(s) mínimo(s), em uma mesma unidade, com os níveis enunciativo, semântico e pragmático. A figura foi adaptada por Passeggi et al. (2010, p. 299), conforme podemos ver:

Figura 6 – Esquema 11: As três dimensões da proposição-enunciado Fonte: Passeggi et al. (2010, p. 299).

Descrevendo de forma minuciosa a figura retratada, podemos apresentá-la partindo do seu núcleo, no qual se configura a proposição-enunciada, ligada por um cotexto anterior e posterior.

Nas pontas do triângulo, temos as maiúsculas [A], [B] e [C] representando as três unidades que compõem um enunciado mínimo. Na parte esquerda, representada por [A], localiza-se o nível semântico do texto, destacando o fenômeno da “Referência como a Representação discursiva (Rd) construída por um conteúdo referencial ou proposicional [p]” (ADAM, 2011 [2008], p. 111). Para o autor, “a atividade de referência constrói semanticamente uma representação, um objeto de discurso comunicável” (ADAM, 2011 [2008], p. 113).

Adam (2011 [2008], p. 110) admite que nesse nível da proposição está localizada “a questão do valor de verdade dos enunciados, segundo dois regimes pragmáticos: o da condição de verdade e o da ficcionalidade”. (Grifo do autor)

Na ponta do triângulo, está o domínio [B], que é a responsabilidade enunciativa ou Ponto de vista (PdV) de uma proposição-enunciado. Essa dimensão se destina a observar, no texto, as várias vozes que ele evoca.

Passeggi et al. (2010, p. 298) definem que “a responsabilidade enunciativa ou ponto de vista consiste na assunção por determinadas entidades ou instâncias do conteúdo do que é

enunciado, ou na atribuição de alguns enunciados ou PdV a certas instâncias”.

Na ponta do lado direito, aparece localizada a letra [C], denominada de valor ilocucionário, que resulta na orientação argumentativa dos enunciados. Para Adam (2011 [2008], p. 122), “todo enunciado possui um valor argumentativo, mesmo uma simples descrição desprovida de conectores argumentativos [...]”. Os valores argumentativos dos enunciados de que fala o estudioso dizem respeito à forma como são ditas as coisas, ou como representamos os objetos.

Ratificando a discussão proposta por Adam (2011 [2008]), Herrero Ceciíia (2006, p. 87) afirma:

Cada proposición responde a otras proposiciones o las implica. A través de ella se produce un acto de referencia (representación discursiva de un mundo), un acto de enunciación (actividad enunciativa) y un acto de discurso (dimensión ilocutiva y orientación argumentativa del tema tratado).

Vale ressaltar que não há uma hierarquização entre as três dimensões, pelo contrário, elas se relacionam e contribuem para construir o complexo concreto de relações que é o texto, sem que haja uma posição maior ou menor, superior ou inferior entre elas, mas sim a complementaridade para contribuir com a estruturação configuracional da textualidade.

Para o discurso de renúncia, foco de nossa pesquisa, a análise se centra na letra [A] da pirâmide da Figura 6, que é a representação discursiva, o nível semântico referencial.

2.1.2.2 A proposição-enunciado e as ligações semânticas para formar o plano composicional