Depois de ter decidido que a análise dos dados seria feita com base nos pressupostos teóricos da Teoria da Actividade, deparei-me com um problema ao aperceber- me que, conforme constata Nardi (1996), não há um método padrão para colocar as ideias
4. Metodologia
136 da Teoria da Actividade em prática. Também de acordo com Jonassen e Rohrer-Murphy (1999), a Teoria da Actividade não é uma metodologia mas um quadro teórico para analisar e compreender as actividades humanas, tendo em conta o contexto em que as actividades são realizadas.
Esta lacuna metodológica da Teoria da Actividade também é apontada por Hardman (2008), que defende que esta teoria não está operacionalizada para estudar um sistema de actividade num contexto de ensino, acrescentando que sentiu necessidade de desenvolver uma linguagem de descrição da Teoria da Actividade com a qual pudesse investigar as observações da sala de aula.
Para Kaptelinin (1996), a falta de um método padrão para aplicar a Teoria da Actividade poderá ser atribuída ao facto de que há vários princípios básicos da Teoria da Actividade nos quais uma análise da actividade se pode basear. Como resultado, os princípios da Teoria da Actividade têm sido interpretados e aplicados de diferentes formas em diversos contextos, servindo como fundamentação para a elaboração de outras teorias.
De facto, uma das maiores dificuldades para os investigadores que, como eu, começam a trabalhar com a Teoria da Actividade é encontrar um conjunto de procedimentos definidos para serem aplicados na sua investigação, uma vez que a Teoria da Actividade concebe uma estrutura conceptual, mas não fornece uma metodologia definida.
Embora esta teoria não apresente uma estrutura prévia de análise, têm sido desenvolvidos alguns princípios no sentido de fornecer um guia prático de procedimentos (“roteiro”) a seguir quando esta é utilizada.
São vários os autores que se têm dedicado à elaboração de tais “roteiros”, dos quais se destacam Kaptelinin (1996), Jonassen e Rohrer-Murphy (1999), Mwanza (2001) e Hardman (2008).
Depois de ter analisado algumas propostas, em especial as dos autores referidos, optei por seguir a metodologia proposta por Mwanza. Embora o modelo de Hardman estivesse mais direccionado para um contexto escolar, tendo o seu projecto sido aplicado num ambiente de sala de aula, não me pareceu ser o que melhor se adequava ao que pretendo com a presente investigação.
Mwanza (2001), investigadora na área da Human Computer Interaction (HCI) propôs uma metodologia em que o modelo triangular do sistema de actividade, proposto por Engeström, foi usado como um modelo que captura e unifica os conceitos da Teoria da
137 Actividade que são relevantes para análise das práticas de trabalho. Conforme ela própria refere, “o modelo triangular ofereceu um ponto de partida útil para interpretar e aplicar as ideias da Teoria da Actividade em relação à análise das práticas de trabalho numa organização” (2001, s/p).
Mwanza acreditou que usando este modelo para investigar a actividade humana iria colocar o seu estudo num contexto sociocultural da comunidade ao mesmo tempo em que daria atenção aos aspectos relacionados com a mediação das actividades por meio de ferramentas, regras e divisão do trabalho.
Método Orientado ao desenvolvimento da Actividade (Activity-Oriented Design
Method (AODM))
O Método Orientado ao desenvolvimento da Actividade (Activity-Oriented Design
Method (AODM)) foi descrito, pela primeira vez, em Mwanza (2001) e aperfeiçoado em Mwanza (2002). Tal metodologia pode ser desenvolvida através de seis fases e quatro ferramentas metodológicas, que têm como objectivo apoiar os processos de recolha de dados e a sua análise com base na Teoria da Actividade. Na tabela seguinte apresentam-se, de forma resumida, essas quatro ferramentas:
4. Metodologia
138
MÉTODO ORIENTADO AO DESENVOLVIMENTO DA ACTIVIDADE
ACTIVITY-ORIENTED DESIGN METHOD (AODM)
FERRAMENTAS DESCRIÇÃO
Modelo dos Oito Passos O Modelo dos Oito Passos operacionaliza o modelo
triangular da actividade de Engeström, traduzindo os vários componentes da actividade em estudo, através de oito questões.
Notação da Actividade A Notação da Actividade é reforçada por três orientações operacionais que facilitam:
As abstracções durante a análise, permitindo a decomposição do sistema de actividade principal em triângulos de subactividade.
A redução da complexidade cognitiva ao analisar um sistema de actividade decomposto em triângulos de subactividade. Estes triângulos menores partilham o objecto do sistema de actividade principal.
A análise das relações dentro e entre os vários componentes do sistema de actividade principal com o objectivo de identificar contradições.
A formulação de perguntas de investigação com base nos triângulos de subactividade.
Formular questões de investigação
A técnica de formular questões de investigação operacionaliza os triângulos de subactividade resultantes do processo de decomposição, com o objectivo de ajudar na recolha dos dados e na sua análise duma perspectiva da Teoria da Actividade.
Mapeamento de
processos operacionais
A técnica de mapeamento de processos operacionais ajuda a compreender a estrutura de execução do AODM, tornando os processos operacionais, os componentes e as suas relações explícitos, melhorando e facilitando, assim, o seu uso.
Tabela 1 – The Activity-Oriented Design Method (AODM)
Extraído de (Mwanza, 2002, p. 189)
Estas quatro ferramentas podem ser aplicadas iterativamente num processo composto por seis etapas, que a seguir se descreve:
139 Etapa 1: Interpretar a situação a ser estudada em termos da Teoria da Actividade O estudo começa pela interpretação dos vários componentes do modelo triangular da actividade que representa a situação que está a ser investigada. Nesta etapa, é usado o Modelo dos Oito Passos para dar suporte ao processo de traduzir o modelo triangular do sistema de actividade para uma situação em que possa ser inicialmente examinado. Este modelo incorpora questões abertas, baseadas nesses componentes, concebidas para facilitar a interpretação da situação a ser analisada. O Modelo dos Oito Passos está representado na tabela seguinte:
Tabela 2 – Modelo dos Oito Passos
Extraído de (Mwanza, 2002, p. 128)
Estas perguntas podem ser representadas, de forma esquemática, no modelo triangular da actividade, como se mostra na seguinte figura:
MODELO DOS OITO PASSOS
IDENTIFICAR: QUESTÕES:
Passo 1 Actividade de
interesse Em que tipo de actividade estou interessado? Passo 2 Objecto ou
Objectivo Por que razão se realiza esta actividade? Passo 3 Sujeitos Quem está envolvido na realização desta
actividade?
Passo 4 Instrumentos Por que meios os sujeitos realizam esta
actividade? Passo 5 Regras e Regulamentos
Existem normas culturais, regras ou regulamentos que regem o desenvolvimento desta actividade?
Passo 6 Divisão do Trabalho
Quem é responsável por quê, quando exercem esta actividade e como estão distribuídas as funções?
Passo 7
Comunidade Em que ambiente se realiza esta actividade? Passo 8 Resultados Qual é o resultado esperado com a realização
4. Metodologia
140
Em que tipo de actividade estou interessado?
Fig. 19 – Sistema de Actividade de Engeström/Modelo dos Oito Passos
Etapa 2: Modelar a situação em estudo
As respostas obtidas na 1ª etapa são agora usadas para modelar a situação em estudo, tendo como objectivo construir o modelo triangular do sistema de actividade. Este processo permitirá ao investigador adquirir um conhecimento básico sobre a situação, além de permitir interpretar e verificar a exactidão dos dados recolhidos.
Tal proposta é necessária para que seja feito um mapeamento da situação que está sob investigação e que um sistema de actividade seja produzido. “Tal conduta ajuda a identificar áreas a serem focadas durante a investigação e também decidir que recursos serão necessários durante a análise” (Mwanza, 2001, s/p).
Etapa 3: Decompor a situação
O sistema de actividade produzido na etapa anterior pode ser bastante complexo uma vez que incorpora as subactividades que, juntas, compõem o sistema de actividade principal em análise.
Assim, conforme aponta Mwanza (2002), esta ferramenta da AODM não consegue capturar informações detalhadas sobre as relações existentes entre os vários componentes
Regras
Existem normas culturais, regras ou regulamentos que
regem o desenvolvimento desta actividade?
Ferramentas
Por que meios os sujeitos realizam esta actividade?
Divisão de trabalho
Quem é responsável por quê, quando exercem esta actividade e como estão distribuídas as funções?
Objecto
Por que razão se realiza esta actividade?
Comunidade
Em que ambiente se realiza esta actividade?
Resultado Qual é o resultado esperado com a realização desta actividade? Sujeito
Quem está envolvido na realização desta actividade?
141 do triângulo de actividade, o que representa uma limitação deste modelo. E, para que seja possível tirar conclusões significativas da análise dos dados, é necessário compreender as relações existentes dentro e entre os diferentes componentes do sistema de actividade.
Daqui surge a necessidade de introduzir uma nova ferramenta que ajude na decomposição do sistema de actividade principal em subactividades menores. É então desenvolvida uma ferramenta metodológica adicional, a Notação de Actividade, representada na tabela 3:
ACTORES MEDIADOR OBJECTO
Sujeitos Ferramentas Objecto
Sujeitos Regras Objecto
Sujeitos Divisão do trabalho Objecto
Comunidade Ferramentas Objecto
Comunidade Regras Objecto
Comunidade Divisão do trabalho Objecto
Tabela 3 – Notação da Actividade
Extraído de (Mwanza, 2002, p. 152)
Nas palavras de Mwanza (2001), três “regras de ouro” orientam a Notação da
Actividade. Segundo essas regras, cada combinação dos elementos na Notação da
Actividade deve conter:
(1) um Actor, representado pelo Sujeito ou pela Comunidade;
(2) um Mediador, representado pelas Ferramentas, Regras ou Divisão do trabalho; (3) um Objecto, no qual a actividade é focada.
Cada representação dentro da Notação da Actividade representa um triângulo de subactividade completo. Por exemplo, a representação do subsistema
Sujeitos/Regras/Objecto pode ser analisada em termos de aplicação das Regras e quais as suas implicações nos Sujeitos, na realização dos Objectivos.
Mesmo que a introdução da técnica de decomposição do sistema de actividade, através da Notação da Actividade, ajude a reduzir a sua complexidade, esta decomposição não fornece orientação sobre como analisar as relações nas várias subactividades de um
4. Metodologia
142 sistema de actividade. Para colmatar esta lacuna, Mwanza desenvolveu uma terceira ferramenta, tendo como propósito a formulação de perguntas de investigação com base nas várias combinações da Notação da Actividade.
Etapa 4: Formular questões de investigação
Nesta etapa, são formuladas questões de investigação com base nos sistemas de subactividade, ou componentes, que resultaram da decomposição feita na etapa anterior. Estas questões, que podem ser gerais ou específicas a uma determinada situação, poderão ser usadas para apoiar na recolha dos dados e na respectiva análise. Na tabela seguinte, apresentam-se alguns exemplos de perguntas:
Tabela 4 – Exemplos de questões de investigação gerais
Extraído de (Mwanza, 2002, p. 155) Etapa 5: Conduzir uma investigação detalhada
Uma investigação rigorosa é conduzida a partir das questões geradas na etapa anterior. Tais perguntas servem para direccionar o que procurar e orientam o que buscar durante a observação e o que perguntar nos questionários e entrevistas.
Além de ajudar no processo de recolha de dados, as questões formuladas na etapa 4 também podem ser usadas para orientar o que procurar durante a análise dos dados, ajudando a dar sentido aos dados recolhidos. “Durante a análise dos dados, o AODM
SEIS QUESTÕES DE INVESTIGAÇÃO GERAIS
Que ferramentas os sujeitos usam para atingir o seu objectivo e como são usadas?
Que regras afectam o modo de os sujeitos atingirem os seus objectivos e como afectam?
Como é que a divisão de trabalho influencia o modo de os sujeitos atingirem os seus objectivos?
Como é que as ferramentas afectam o modo de a comunidade atingir o seu
objectivo?
Que regras afectam o modo de a comunidade satisfazer o seu objectivo e como o afectam?
Como é que a divisão de trabalho afecta o modo de a comunidade atingir o seu
143 centra-se na identificação de possíveis contradições14 nas relações dentro e entre as várias subactividades que existem no sistema de actividade principal” (Mwanza, 2002, p. 192).
Engeström (1987) enfatiza a importância das contradições para ajudar a entender como um sistema de actividade funciona e, nesta investigação, os dados serão analisados, também, em termos de contradições pois parece-me uma das melhores maneiras de perceber e dar sentido ao que acontece dentro e entre os sistemas de actividade.
Mwanza acrescenta, ainda, que esta metodologia não tem como objectivo encontrar ou prever possíveis soluções para as contradições identificadas, mas, em vez disso, pretende compreender, de uma perspectiva histórica cultural e social, por que meios essas contradições se desenvolveram.
Depois de reunidos e analisados os dados, a próxima e última etapa consiste em interpretar e dar a conhecer as conclusões.
Etapa 6: Interpretar e comunicar as conclusões
Embora as ferramentas do AODM apresentadas permitam ao investigador adquirir uma compreensão das situações investigadas, metodologicamente ainda não está claro de que modo as várias técnicas se interligam. Para resolver esse problema, Mwanza (2002) concebeu uma quarta ferramenta, o Diagrama para Mapeamento de Processos
Operacionais. Esta ferramenta apresenta os resultados da etapa 4 em forma de esquema, com indicações visuais claras das perguntas de investigação formuladas, bem como as áreas de contradição que se tornaram aparentes, facilitando a compreensão do processo, bem como dos resultados.
Os procedimentos descritos, no início deste capítulo, deram origem aos dados que serão analisados e discutidos no próximo capítulo, através dos métodos acima mencionados.
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