Segundo Lagioia et al. (2008), o aumento da pressão sobre os hospitais para melhoria dos custos e da eficiência, da competitividade e das exigências dos usuários em relação aos serviços e à segurança, intensificou o processo de adoção de SGQ hospitalar.
Porém, à medida que este processo se intensificou, intensificaram-se também os casos de insucesso na implantação deste SGQ. Em geral, tal insucesso não se deveu aos princípios da Gestão da Qualidade, mas à estratégias de implantação ineficientes que desprezaram fatores-chave determinantes ao sucesso do SGQ (WARDHANI et al., 2009).
Wardhani et al. (2009) identificaram esses fatores-chaves em uma revisão sistematizada de artigos da base de dados Medline. Foram encontrarados quinhentos e trinta e três publicações abordando temas como: GQ em serviços hospitalares, administração hospitalar e métodos e padrões para implantação da GQ hospitalar.
Como o foco de interesse da pesquisa desses autores era utilizar apenas artigos sobre os fatores condicionantes para implantação do SGQ hospitalares, dos quinhentos e trinta e três artigos encontrados, quatrocentos e vinte e sete foram descartados por tratarem de outros temas como: ações de melhoria da GQ e projetos para redução do tempo de espera e de internação dos usuários. Dessa forma, sobraram cento e seis artigos.
Das cento e seis publicações restantes, setenta e duas foram descartadas pelo fato de apenas descreverem o processo de implantação do SGQ hospitalar. Outras dezesseis publicações foram, ainda, excluídas por não se tratarem de pesquisas empíricas, por não retratarem casos práticos ou por não apresentaram revisão bibliográfica sobre os fatores condicionantes de implantação do SGQ nos serviços hospitalares.
Por fim, dos dezoito artigos restantes, foram excluídos outros quatro por terem sido publicados antes do ano de 1993. Dessa forma, Wardhani et al. (2009) analisou os fatores-chave de implementação do SGQ contidos em quatorze artigos. Cada um apresentou distintos métodos de pesquisa, objetivos, formas de medição, tamanho de amostragem, além de diferentes tipologias hospitalares e diferentes números de entrevistados.
Com base em tal análise, Wardhani et al. (2009) definiu como fatores-chave para implantação de um SGQ de sucesso em hospitais:
Cultura Organizacional: consiste em crenças, valores, normas e comportamentos compartilhados dentro do hospital. A associação da cultura organizacional com equipes de trabalho, disposição da instituição
em realizar mudanças e correr os riscos associados às mesmas, favorece a implantação com êxito do SGQ.
Projeto Organizacional: envolve fatores como o porte do hospital, sua resolubilidade, posse (público ou privado), autonomia aos funcionários e o grau de envolvimento do usuário na missão e estratégias do hospital. Tais fatores influenciam no processo de implantação do SGQ. Por exemplo, hospitais privados, de médio ou pequeno porte, na maioria dos casos não possuem um SGQ. Para aqueles que apresentam SGQ, o processo de implantação é tradicional, isto é, obedece rigorosamente aos trâmites burocráticos de adoção. Em hospitais de grande porte, o processo de implantação é mais ágil, inovador, isto é, obedece menos à burocracia. A influência da cultura e do projeto organizacional é ilustrada na figura 2.1.
FIGURA 2.1. Papel da cultura e do projeto organizacional na implantação do SGQ Fonte: Wardhani et al. ( 2009)
Liderança para a Qualidade: consiste na realização de esforços por parte da Alta Administração, visando integrar a Melhoria da Qualidade aos processos e à Organização como um todo, para incorporar as práticas de Melhoria da Qualidade às rotinas e procedimentos do hospital. Essa liderança pode ser desempenhada por vários profissionais como chefes de
enfermagem, médicos-chefe, membros da Alta Administração, ou por um profissional eleito via votação. É importante que as ações relativas à Qualidade tenham o apoio da Alta Administração.
Envolvimento dos Médicos: os médicos também devem se conscientizar de que a qualidade também os beneficia, dá mais efetividade a seu trabalho, melhora sua imagem e cria um ambiente mais adequado para o exercício de suas atividades. A Alta Administração deve impedir que as práticas de Melhoria da Qualidade sejam prejudicadas pelo não-comprometimento desses profissionais. Os médicos devem compreender que manter um bom relacionamento com usuários, com o pessoal técnico e administrativo é fator de bem-estar e de realização profissional. Aqueles que não compreendem isso colocam em risco o próprio hospital, pois, seus usuários estão cada vez mais exigentes e cientes de seus direitos. Para que os médicos se comprometam para com a Gestão da Qualidade devem ser sensibilizados a respeito, sobre seus objetivos, resultados e estratégia. A sensibilização inicial deve ser aprofundada em reuniões com a Alta Administração, nas quais deverão ser expostas a nova filosofia, a metodologia de implantação, as vantagens, o valor e a responsabilidade de cada funcionário dentro do processo. É importante que eles percebam que tal processo não se trata apenas de um programa, mas sim de uma transformação da cultura organizacional. Algumas formas de facilitar o envolvimento dos médicos com a Gestão da Qualidade são: divulgar artigos e exemplos práticos de aplicação da Gestão da Qualidade na área da saúde; destinar, durante as reuniões clínicas, de dez a quinze minutos para realização de palestras sobre temas da qualidade em saúde realizada pelo coordenador, membros da Alta Administração, ou convidados externos; incluir médicos em grupos de melhorias que possam beneficiá-los diretamente; atuar na melhoria de processos dos quais os médicos são clientes; divulgar resultados e atividades advindos da Gestão da Qualidade. Estrutura para a Qualidade: o hospital deve apoiar a implantação do SGQ
oferecendo uma estrutura composta por um departamento de Garantia da Qualidade auxiliado por uma equipe da Qualidade e por um orçamento financeiro voltado às práticas de Gestão da Qualidade. Esta estrutura deve conter grupos de melhoria constituídos por médicos e enfermeiros.
Suportes Técnicos: capacidade que o hospital em utilizar as ferramentas da Qualidade (Gráficos de Controle, Métodos de Resolução de Problemas, Diagrama de Pareto, Diagrama de Causa-e-Efeito, etc.). O suporte técnico envolve, ainda, educação e treinamento dos profissionais para resolução de problemas, análise de dados, relatórios e ferramentas da Qualidade.
A figura 2.2 ilustra o modelo conceitual de fatores-chave que influenciam a implementação de um SGQ hospitalar.
FIGURA 2.2. Modelo Conceitual dos fatores influenciadores da implantação de um SGQ hospitalar Fonte: Wardhani et al. (2009)
Nas últimas décadas, a GQ obteve notoriedade no setor de Saúde com o surgimento de iniciativas para sistematização de práticas de gestão das instituições do setor, especialmente dos hospitais. Essas iniciativas ficaram conhecidas como Acreditação e auxiliaram os hospitais a implantarem uma GQ eficiente e cuja eficácia produz melhorias no atendimento e na padronização das práticas de gestão (COUTO; PEDROSA, 2007).