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3. TILTALTES DELTAKELSE I HOVEDFORHANDLINGEN

3.1. N ORSK RETT

3.1.1. Rettslig utgangspunkt strpl. § 280 21

A Lingüística Textual, fundamentada em teorias de base estruturalista, defendeu por certo tempo que os textos traziam consigo um conjunto de características que lhes permitissem ser interpretados pelos leitores. Alguns fatores foram apontados como definidores das qualidades que um texto teria ou deveria ter. Em 1991, Costa Val defendia que o texto deveria ter coerência e ter coesão, para que fosse lido sem problemas. Em publicações posteriores (2000, 2004), a autora reconsidera essa posição e defende que a textualidade não é uma característica exclusiva do texto, mas sim “um princípio geral que faz parte do conhecimento textual dos falantes e que os leva a aplicar a todas as produções lingüísticas que falam, escrevem, ouvem ou lêem um conjunto de fatores capazes de textualizar essas produções” (COSTA VAL, 2004, p. 114).

A pesquisadora repensa suas definições de coerência e coesão, buscando uma adequação desses conceitos aos processos de produção e de interpretação textual, e não mais à idéia de texto como produto. Nesse sentido, ela defende, apoiando-se nas tendências de base interacionista, que tanto a coerência quanto a coesão, além de outros princípios como a intertextualidade, a situacionalidade, a informatividade e a aceitabilidade, são textualizados pelos leitores. Os textos são “mentalmente co- construídos pelos interlocutores, que levam em conta seus objetivos, suas expectativas, os conhecimentos, crenças e valores que partilham, as circunstâncias físicas em que as produções ocorrem” (COSTA VAL, 2004, p. 115).

Leitura e escrita são, nessa perspectiva, processos indissociáveis. Assim como os leitores precisam ativar expectativas, conhecimentos, crenças e valores para processar a leitura de um texto, os autores devem criar estratégias de produção textual que facilitem a vida dos leitores e tornem a interação menos tortuosa e truncada.

O texto, nesse processo, não está isento de sua responsabilidade e importância na construção de sentidos. Existem certas instruções que, se organizadas pelos autores, podem favorecer a leitura. Liberato e Fulgêncio (2001; 2004; 2007) investigam, a partir dos textos em livros didáticos, fatores que contribuem para a legibilidade de um texto. Segundo as autoras, existem fatores sintáticos, lexicais e cognitivos que interagem no processamento da leitura e favorecem a construção dos sentidos. A legibilidade, para elas, é resultado da interação desses fatores, que podem ser mais ou menos relevantes, de acordo com cada situação de leitura, com as características dos leitores e dos textos.

Aos leitores, caberia o papel de lançar mão de diversas estratégias: ortográficas, morfossintáticas, semântico-pragmáticas e discursivas; além do conhecimento a respeito do gênero textual e das previsões a respeito da organização do texto como um todo. Em favor da legibilidade, um texto deveria atender a certos parâmetros (LIBERATO;

FULGÊNCIO, 2007) que facilitariam a vida dos leitores porque deixariam o caminho mais

livre para a localização das marcas, das instruções, dos padrões estabelecidos pelos autores.

Em relação à construção de interfaces gráficas dos computadores, existe uma preocupação dos autores com as marcas e orientações que devem deixar para os usuários. As interfaces de hoje são elaboradas a partir de critérios de padronização, coerência e estabilidade. Existem inúmeros trabalhos e guias que orientam os profissionais envolvidos na construção de interfaces gráficas, e algumas dessas orientações se manifestam como regras ou heurísticas, como manuais para se “escrever” uma interface “legível”9.

Apesar de terem objetivos coincidentes – construir textos legíveis – parece que os estudos da linguagem e o design dialogam pouco. Ribeiro (2008, p. 80) afirma que o conceito de legibilidade dos lingüistas é diferente daquele adotado pelos designers, mas defende que esses conceitos deveriam ser inseparáveis na produção dos suportes a partir dos quais se materializam os textos. De acordo com Ribeiro, acreditamos que as questões estéticas, como tamanho e tipo de letra, escolha de cores e contrastes adequados aos objetivos da construção dos textos e dos objetos de ler deveriam estar diretamente ligados a questões lingüísticas como a escolha do vocabulário e das imagens, a construção de unidades textuais de sentido completo e bem-articuladas entre si.

Os estudos sobre produção textual e leitura lidam pouco com questões relativas aos objetos de ler, deslocando o texto do suporte a partir do qual ele se materializa. Esses trabalhos tendem a ignorar o fato de que muitas vezes o texto não está, ele é o próprio objeto de ler, assim como a interface. Coscarelli defende que “não se pode falar de significado sem forma, nem negar a influência dessa na construção daquele” (1999, p. 47) . Assim como a autora, acreditamos que “essas noções não podem ser separadas, ao contrário, uma sempre sofre influência e influencia a outra, enriquecendo a representação de ambas” (1999, p. 47).

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Nesse sentido, concordamos com Ribeiro quando ela defende que “as ‘instruções’ que o autor insere no texto não podem ser consideradas apenas do ponto de vista do ‘material lingüístico’”, já que

não é, em grande parte das vezes, o autor quem dá as pistas ao leitor, mas uma verdadeira equipe de produtores de objetos de ler. Na Internet isso fica ainda mais evidente. A mediação da interação por textos é um processo complexo, mas rastreável. E o que se pesquisa, na maioria das vezes, nesse ambiente, é a navegação com o que ela tem de novo, e não propriamente o processamento leitor (2008, p. 80).

Neste trabalho, não lidamos diretamente com a Internet, mas buscamos rastrear os caminhos de leitura de um objeto de ler, tomado aqui como texto. Nosso objetivo é conhecer estratégias de leitura nas interfaces gráficas, e para isso esperamos levar em conta a cadeia de sentidos que esse texto oferece ao leitor, tanto quanto as possibilidades de que o leitor dispõe e utiliza para reconstruir esses sentidos.

Na produção dos suportes textuais existe grande variedade de profissionais envolvidos no desenvolvimento de interfaces gráficas para usuários de computadores, todos empenhados na construção das “instruções” deixadas para os leitores e buscando sua legibilidade. Apesar de existirem certas variações entre esses estudos, assim como nas interfaces desenvolvidas por diferentes empresas e grupos, os princípios que regem o desenvolvimento desses sistemas são muito semelhantes. Pacotes de programas desenvolvidos por uma mesma empresa utilizam os mesmos elementos e processos, como é o caso do pacote Office, da Microsoft. Nesse caso, por exemplo, todos os programas possuem as mesmas instruções e processos para gravar um documento no computador, imprimir, abrir e fechar documentos, etc. Mesmo entre programas de empresas concorrentes, alguns padrões se mantêm, por já estarem canonizados e consolidados pelos usuários, como a exibição dos programas a partir de quadros chamados janelas ou as “barras de rolagem”, localizadas na parte lateral das janelas, que fazem com que as páginas do documento se comportem como os antigos rolos. Há ainda os artifícios gráficos para simular ações e instruções dadas ao computador, como a ação de selecionar uma parte do texto ou a ação de pressionar um botão na tela, e mesmo o recurso que indica qual janela está ativa, qual não está. São princípios que se estabilizaram já com as primeiras interfaces gráficas para computadores pessoais e que, ao longo do tempo, vêm se aprimorando e se refinando, tanto esteticamente quanto em relação à usabilidade. Esses padrões e regras de coerência auxiliam e direcionam a

leitura na medida em que favorecem analogias, aproximações e inferências dos usuários.

Todos esses recursos, organizados de tal maneira a partir de convenções

relativamente estáveis (BAKHTIN, 2003) e típicas do ambiente digital, é que compõem a

textualidade (COSTA VAL, 2000, 2004) da interface. É possível afirmar que esses e

outros recursos constituem os princípios gerais que compõem a interface e que devem fazer parte do conhecimento dos usuários, para que eles consigam textualizar a interface. Os usuários (leitores) deveriam utilizar as marcas deixadas pelo design (autor) na interface (texto), e seu conhecimento a respeito dessas marcas, para construir sentido nas atividades que pretendem realizar no computador.

As possibilidades comunicativas das interfaces gráficas são muitas e a novidade da modalidade de interação materializada pelo meio digital atrai pesquisadores que se dividem entre entusiastas e pessimistas em matéria das implicações das tecnologias digitais para a linguagem e para a comunicação.

Pierre Lévy, acreditamos, é um entusiasta das novas tecnologias. Na obra A

ideografia dinâmica, o autor defende a criação de uma interface materializada a partir

de recursos digitais que possa atuar como uma língua natural, a partir da representação de modelos mentais em ideogramas manipuláveis digitalmente. Em defesa dessa espécie de “esperanto visual”, prevê que

comunicar por meio de uma ideografia dinâmica permitiria, no caso de a imagem animada ser mais eficaz que a língua fonética, reduzir a margem de indeterminação que por vezes dificulta a comunicação funcional. É essencialmente a escrita clássica que nos parece poder ser substituída de maneira parcial, em certas circunstâncias, por uma linguagem à base de imagens interativas. A ideografia dinâmica permitirá exprimir um pensamento complexo o mais próximo possível de um esquematismo espácio-temporal fundamental, sem passar pela mediação da linguagem fonética, sobretudo quando há risco de indução em erro ou falta de precisão. (1998, p. 135)

O entusiasmo de Lévy talvez se justifique a partir da idéia de que as imagens são mais imunes a ruídos de interpretação e possibilitam uma representação mais “transparente” do pensamento. Para o pesquisador francês, “um enunciado na ideografia dinâmica não transcreve uma frase de uma língua fonética, mas traduz um modelo mental com a mediação da imagem e do movimento” (1998, p.84). Essa dicotomia texto x imagem poderia ser melhor resolvida se aceitássemos, assim como sugere Coscarelli, que a noção de texto deve ser expandida e que “é preciso entrar na semiótica e aceitar a

música, o movimento e a imagem como parte dele” (2002, p. 66). Nesse sentido, Coscarelli defende que

com o advento da informática, o conceito de texto parece continuar o mesmo, uma vez que pode tomar infinitas formas para continuar sempre sendo um mecanismo de interação. O que muda são as formas de manifestação, ou seja, novos gêneros textuais são criados em função de uma nova interface, novas formas de expressão são utilizadas, antigas são retomadas, mas o texto continua sendo instância enunciativa, contato entre o autor e o leitor (2002, p. 68)

Acreditamos que a idéia de que uma interface pode traduzir um modelo mental deve ser analisada mais profundamente em estudos futuros. Limitamo-nos, por hora, a seguir na defesa de que os textos, independentemente da modalidade ou da multimodalidade (KRESS, van LEEUWEEN, 1996; KRESS, 2004) a partir das quais foram

materializados, não trazem em si todos os detalhes de sua interpretação (CAFIERO, 2002;

COSTA VAL, 2000, 2004; COSCARELLI, 1999, 2002, 2003b), não são “transparentes”

(COSCARELLI, 1999; POSSENTI, 1999) e por isso não podem traduzir um modelo mental,

já que esse modelo mental é uma imagem construída individual e socialmente, marcado pelas condições nas quais foi produzido (PALMER,1996;COULSON,2001;FAUCONNIER,

TURNER,2002).

Interessa-nos, nas formulações de Lévy, a forma como ele descreve os padrões da interface, suas características relativamente estáveis. De acordo com o filósofo francês, a tela do computador constrói significação “não só pela forma, mas por movimentos e metamorfoses” (LÉVY, 1998, p.17). A interface como gênero instaura, portanto, certas convenções que funcionam como marcas ao leitor. Essas convenções são identificadas pelo pesquisador francês quando ele afirma que

em princípio, todos os elementos do ideograma [interface] são significantes. Mesmo eventuais correspondentes não-icônicos e puramente convencionais, por exemplo, a forma redonda ou quadrada em que se inscrevem as figuras ideográficas, remetem a uma significação a pertinência do objeto designado a esta ou àquela categoria. (LÉVY, 1998, p.57)

Esses e outros elementos significantes é que acreditamos contribuir para a

textualidade nas interfaces gráficas de usuário. As imagens e textos clicáveis, os menus

e os caminhos de leitura construídos por eles, os diferentes ponteiros do mouse, a indicação de que um objeto na tela está ou não disponível naquele contexto de uso são elementos que devem ser textualizados pelo leitor da interface para que ele possa desenvolver suas atividades no computador. É a partir desses elementos e da dinâmica que torna o uso da interface coerente, estável, previsível que se torna possível ao leitor criar estratégias de leitura cada vez mais eficientes.

Essa dinâmica de funcionamento da interface, ou esse “conjunto organizado de informações conceituais e procedimentais (instruções de como ligar essas informações)” (CAFIERO, 2002, p. 31), deve ser reconhecida pelo usuário quando ele utiliza a interface

para interagir com o computador, na realização de determinada atividade de linguagem. Da mesma forma, ela deve ser levada em consideração pelos designers e projetistas de interfaces. Se a interface é um texto, ela está obrigatoriamente inscrita em um gênero textual. Coscarelli nos lembra que “ninguém escreve um ‘texto’ (a não ser na escola). Escrevemos cartas, e-mails, bilhetes, convites, cartazes, artigos, entre vários outros gêneros textuais” (2001, p. 1). Nesse sentido, “escrever” uma interface é produzir um texto que obedece a certas “características sociocomunicativas definidas por conteúdos, propriedades funcionais, estilo e composição característica”. (MARCUSCHI, 2002:23)

Acreditamos, portanto, que a construção de sentido na interface não está relacionada apenas à decodificação de seus elementos estruturantes, mas sim ao reconhecimento de uma complexa rede de relações entre esses elementos, a sua função em determinado contexto, a sua disponibilidade dentro daquela situação, etc. O leitor da interface deve reconhecê-la como “um todo articulado e com sentido, pertinente e adequado à situação de interação em que ocorre” (COSTA VAL, 2000, p. 114). Conhecer as artimanhas da interface é conhecer mais um gênero textual, com padrões de funcionamento exclusivos, que possuem certo valor normativo e são relativamente

estáveis.

Concordamos com Ribeiro, quando defende que a formação de leitores deve levar em conta os processos de produção dos objetos de ler e as marcas e instruções utilizadas nesse processo. Segundo a autora, “conhecer os gêneros, além de todos os outros itens necessários para se ler, também depende de conhecer suportes e formas. Isso tudo, por sua vez, depende do grau de letramento do leitor” (2008, p. 80).