• No results found

As atividades administrativas e a ilha de edição do projeto ficam neste local, uma casa com enormes ramagens e vista para o mar de Olinda através da sacada dos fundos. O portão que dá acesso à rua fica fechado com cadeado e a porta, com grades e dois cadeados, mostra através de sua presença, o que os guardas e a segurança não querem esconder: a síndrome de cidade perigosa, onde “mulheres sozinhas como eu deveriam se preocupar com os lugares por

60

Financiado pela Norad – Agência de desenvolvimento e Cooperação Internacional da Noruega por meio do Programa Norueguês para Povos Indígenas, apoiando o projeto desde 1995.

31 onde andam depois das seis da tarde” 61. A campainha é um sino pendurado no portão que, ao tocá-lo, chama uma funcionária que destrancará os cadeados. No piso térreo fica a secretária, uma cozinha com banheiro e a sala fechada a cadeado onde fica o arquivo refrigerado com todo acervo do projeto, ludicamente apelidado de Pólo Sul pela equipe na sede, devido à climatização necessária para que as fitas não se decomponham.

O “Pólo Sul” conta com um enorme ar condicionado ligado 24 horas em temperatura muito baixa, numa sala retangular de 3 por 5metros (mais ou menos), com prateleiras até o teto e mais cinco estantes de aço, cheias de fitas de vídeo. Nas prateleiras e nas paredes, fitas de diversos tamanhos e origens. Fitas de todas as oficinas realizadas nas aldeias, que depois foram editadas (ou não), hdv, mini-dv, Beta, Umatic, muitas em VHS e um pequeno acervo de filmes em VHS sobre a temática indígena, além de alguns equipamentos de reprodução e de gravação de CDs, DVDs e, por fim, uma mini TV colorida (onde pude assistir alguns dos filmes que ainda não conhecia do VNA). Tinha também um aparelho de gravação de DVD que gravava cinco DVDs de uma só vez e um aparelho DVD recording da Panasonic, que transforma VHS (de um tocador Samsung) em DVD, sem o processo de passar pelo computador primeiro, o que facilita em muito a digitalização do VHS.

Esse lugar guarda todo material bruto já produzido pelo projeto. Assim que as oficinas de realização acontecem nas aldeias ou que os cineastas produzem seus materiais, as fitas são levadas (ou enviadas) para Olinda e lá ficam guardadas, utilizando-se delas nas edições, quando então são digitalizadas e capturadas em formatos diversos (voltaremos a esses termos no capítulo 3). Se as fitas ficassem nas aldeias pereceriam rapidamente devido ao clima quente e frio, das muitas regiões onde elas se localizam. Como não há possibilidade de se manter um lugar fechado e com ar condicionado na aldeia, elas ficam na sede do projeto e provavelmente muito se gasta com sua manutenção. O lugar é tão frio que o choque térmico fatalmente sensibilizou minha garganta e me impossibilitou de freqüentar essa sala por vários dias. Quando pude voltar, levava comigo um cachecol e procurava colocar roupas quentes, atitude aparentemente estranha em se tratando de Olinda. A política de uso do acervo pareceu-me restringir às pesquisas, com acesso negociado, como no meu caso, e aos realizadores e produtores, que poderiam consultá-lo sem restrições. Estes, além de fazer backup dos arquivos (principalmente os realizadores), tinham quando desejassem, acesso às suas imagens. A mim foi autorizado assistir aos filmes do acervo em DVD ou VHS

61

32 disponível, mas o acesso à comunidade pareceu-me inviabilizado (a não ser quando negociado) pela falta de espaço adequado ao usuário, assim como uma forma de proteção dos vídeos e equipamentos.

No andar superior, após uns 10 lances de escada e um pôster gigante da Mostra vídeo

nas aldeias: um olhar indígena 62 chega-se às três salas de edição e à suíte, onde geralmente são acomodados os cineastas que vão para Olinda fazer a edição, com duas camas de solteiro. O prédio possui mais dois banheiros para o uso dos funcionários. Em cada sala de edição encontra-se um computador e equipamentos para capturar e ver as imagens produzidas. O ventilador é indispensável e as portas que dão acesso à varanda aos fundos ficavam abertas para entrar um pouco de vento (no final de março, pois abril começa o “inverno” e as chuvas). Uma das salas de edição tem uma visão privilegiada, de lá se vê o mar azul, através de uma janela antiga de ferro já meio enferrujada.

Fui informada durante a pesquisa que enquanto as oficinas de edição estiverem acontecendo em Olinda e não na aldeia (como é o movimento esperado pelo VNA), será prática comum entre os realizadores se hospedarem na sede do projeto. Utilizam a cozinha para refeições matinais, mas geralmente saem para almoçar e jantar fora. Na estadia de Zezinho em Olinda, sempre que eu podia acompanhava o cineasta e sua esposa (e às vezes com a equipe toda do VNA ou parte dela) ao restaurante que ficava na quadra de baixo da sede, na Rua do Sol onde se encontra também o Hostel em que fiquei hospedada nos primeiros dias. O casal indígena apenas marcava o valor de suas refeições, que seriam acertadas posteriormente com verba do projeto que os tinha levado para edição. Os passeios, caso eles quisessem e tivessem tempo para fazer, teriam de ser feitos por conta própria, financeiramente falando, e isso ocorreu poucas vezes e em companhia da equipe, que os levava para cinemas e eventualmente, a algum restaurante em Recife.

Durante os vinte e quatro anos de produção indígena, muitas técnicas mudaram e as novas tecnologias influenciaram novos modus operandi, ou seja, conforme foram aparecendo novos softwares para edição de imagens, por exemplo, novas formas de editar propostas. Na mecânica de montagem do filme houve mudanças em termos tecnológicos e técnicos que chegaram a causar divergências entre os editores; não se trata da lógica linear temporal do

62

33 enredo, onde um ritual pode ser gravado linearmente ou em elipses, mas sim do conjunto mais ou menos complexo de técnicas:

“Vincent e Mari são da época da edição linear, que era a edição em que montou uma seqüência você não tem como ficar voltando. A partir do momento que você montou você acrescenta outra... para colocar alguma coisa no meio você teria que recopiar esse negócio, jogar num outro canto, colocar esse daqui, ai pegar o que você copiou...” (Oficineiro Tiago). A edição, em constante transformação, é um processo demorado e árduo e a equipe que acompanhei tinha horário flexível, mas trabalhava até 12 horas por dia, e, nos finais de semana, trabalhavam em casa e geralmente para terminar alguma parte que fosse passível de se fazer sem a presença do realizador. Tiago 63, oficineiro, para justificar o empenho se diz motivado pela idéia de “fazer uma coisa cinematográfica, que toque a alma das pessoas”:

“O que me instiga mais é o fato de ser uma organização social, uma organização política cultural etc, simplesmente porque está trabalhando com índio, porque índio é discriminado, índio é massacrado. Porém, não está limitado a ser isso, a gente é livre mesmo para sonhar independente de problemas, independente de tudo, a partir dos problemas, viajar e tal, então o que a gente instiga, é instigado, o que move. A coisa toda se une toda porque é isso, você está de certa forma tentado valorizar uma cultura discriminada só que sem partir do princípio de que do olhar de discriminado, do olhar do... até do criminalizante, de quem está por cima, “estamos de igual para igual, como qualquer pessoa do mundo para contar nossas histórias” acho que é isso que a gente tenta transmitir, não tem perrengue, não tem sofrimento. Tem, é claro que tem, mas eu acho que a gente não parte disso, a gente parte de outra coisa, um sonho de fazer uma coisa bonita, de fazer uma coisa cinematográfica e que toque a alma das pessoas pela beleza, por tudo não é, sei lá, não sei muito bem, acho que não tem nada no mundo inteiro, que eu já tenha ouvido falar, que me interessa igual isso aqui!” (Oficineiro Tiago).

E sobre a questão do imaginário nacional a respeito do indígena (como podemos observar em CUNHA, 2001) e em dissonância com muitos outros filmes, nacionais e internacionais sobre a temática, o VNA estimula a desconstrução da pureza:

63

Foram realizadas entrevistas na aldeia com dois oficineiros do VNA (Tiago Torres e Camila Machado) e com três realizadores (Eerishi, Tsirotsi e Moisés). Em Olinda, durante a edição, com o realizador Zé Yube.

34 “É desconstruir os grandes clichês, porque o índio é um ser exótico, está enquadrado em clichês. Uma das coisas a desconstruir é a projeção da pureza: “Índio tem que ser puro. Esse está de celular.” Já cria um constrangimento. As pessoas se incomodam porque não é assim que elas imaginam ele”(Carelli apud CORRÊA, 2005).

Como foi dito na apresentação, o VNA possui três linhas de atuação “Formação, Produção e Divulgação”. A produção inclui a distribuição e a formação se dá através de oficinas de capacitação, de aproximadamente um mês de duração, possuindo quatro etapas: roteiro (que pode ser em alguns casos apenas a busca por um personagem), captação de imagens e análise crítica do material captado (como descrito no capítulo 2) e edição de imagens (como descrito no capítulo 3). A distribuição, sobre a qual nós não trataremos nesta dissertação, possibilita:

“O intercâmbio entre os povos indígenas [se dá] através da distribuição do acervo de vídeos para as comunidades e associações indígenas no Brasil e no exterior. Mas também contribui para que o público não-indígena entre em contato com a realidade indígena contemporânea, distribuindo os filmes na mídia em geral (TVs públicas brasileiras, Centros Culturais, Museus, Universidades e Festivais nacionais e internacionais), nas instâncias de poder (local, estadual e nacional), e no sistema educacional (VNA)” 64. É importante finalizar aqui, salientando que, em relação aos direitos autorais e de imagem, o VNA estabelece contratos com os realizadores e suas comunidades. Na redistribuição do valor dos vídeos, 35% da verba são enviadas para os realizadores, 35% para a comunidade indígena e 30% são investidos no projeto Vídeo nas Aldeias (na compra de equipamentos, na realização de oficinas etc.).

Um detalhe curioso, para fechar o capítulo, é sobre a vinheta que abre os DVDs Cineastas Indígenas. Quem assistir com atenção poderá observar que para cada etnia, apesar da mesma abertura (com as sementinhas se reunindo e formando o logo do VNA), o som corresponderá ao grupo específico (Ashaninka, com músicas e vozes Ashaninka, Huni Kuin com Vozes e músicas Huni Kuin e assim por diante), selando assim sua marca digital, cada etnia representada com suas vozes e cantos de saudações.

64

35

Capítulo 2 – Ao sabor das águas

Moisés Pyanko65

Vídeo nas Aldeias numa aldeia chamada APIWTXA do Rio Amônia

A aldeia Apiwtxa, nome dado também à associação criada na década de 1990, é habitada por falantes da língua Arawak, numa região em que predominam grupos de filiação lingüística Pano. Assim como em muitas outras aldeias, após a demarcação do território Ashaninka (este iniciado em 1985 e demarcado em 1992), e a mudança definitiva destes para a aldeia, iniciou-se um período positivo para o grupo, facilitando o trabalho na associação, além do acesso das crianças à escola e o maior controle dos limites territoriais. A partir desse momento, começam também os trabalhos de preservação ambiental e de gestão dos recursos naturais, através da prática do manejo de espécies frutíferas, dos peixes e tracajás (APIWTXA, 2007), trazendo para esta comunidade uma consciência de grupo de valor inestimável. Os trabalhos mais recentes sobre os Ashaninka do Rio Amônia estão em Mendes (1991) e Pimenta (2006), enquanto os Ashaninka do Rio Envira foram estudados recentemente por Beysen (2008).

65

36 A história acreana é marcada por inúmeros acontecimentos, mas foi na década de 1970 que o chamado tempo dos direitos trouxe a instalação dos postos da FUNAI no Acre e sul da Amazônia, dando início as demarcações de terras, em 1976 66. Neste tempo foi criada também a ALIANÇA DOS POVOS DA FLORESTA, formada por índios, seringueiros e ribeirinhos (em prol de conter o avanço da exploração predatória na região) e teve seu maior representante assassinado, Chico Mendes, tornando-se símbolo da luta acreana 67. Data desta época a presença de Mauro Almeida e Manuela Carneiro da Cunha em terras acreanas e do início do desenvolvimento de pesquisas na reserva extrativista do Alto Juruá.

Ter acompanhado duas oficinas do VNA, sendo uma entre os Ashaninka e outra entre os Huni Kuin, foi algo que, no geral, não foi um problema, devido ao fato dos dois grupos viverem em contato há muitos anos e se desenvolverem através da troca de experiências, troca esta que marca também a recente experiência do VNA, já citada no primeiro capítulo (TROCA DE OLHARES) onde exatamente um representante de cada etnia (Wewito, Ashaninka e Zé Yube, Huni Kuin) desenvolveu juntos trabalhos de intercâmbio com moradores da favela no Rio de Janeiro.

A viagem “ao sabor das águas”, que deu origem ao primeiro trabalho de campo, foi confirmada no domingo, por email, para partida em três dias. Levei os outros dois dias para comprar as passagens e resolver em alguns telefonemas o empréstimo de rede e mosquiteiro, comprar de guloseimas e repelentes. Um saco de dormir (emprestado da minha irmã) e um travesseiro (que fez sucesso pelo conforto proporcionado) e, claro não podia faltar, uma máquina fotográfica emprestada do meu irmão (uma máquina Sony caseira). Preparar as malas com atenção para que não ficassem pesadas em possíveis caminhadas. Levar roupa de frio, pois apesar de saber de clima quente, as inversões térmicas são bastante comuns na região. Enfim, a viagem aconteceria, repentinamente, é fato, mas não inesperadamente.

Campinas/Brasília/Rio Branco/Cruzeiro do Sul/Marechal Thaumaturgo: saí na quarta- feira à noite de Campinas, encontrando a equipe de três pessoas na conexão de Brasília, depois de um vôo de duas horas. Da equipe do VNA estavam: a técnica de som (Camila Machado) que ainda não havia trabalhado com a equipe, um oficineiro, editor e formador de realizadores (Tiago Torres) que esteve na aldeia Apiwtxa em 2005 durante a terceira oficina

66

http://www.bibliotecadafloresta.ac.gov.br/biblioteca/docs_expo/Povos_Indigenas.pdf 67

O filme produzido por Siã Kaxinawa, Fruto da aliança dos povos da floresta, traz parte das manifestações que ocorreram após a morte de Chico Mendes.

37 do VNA para produzirem o filme “A GENTE LUTA MAIS COME FRUTA”, e o idealizador do projeto VNA, Vincent Carelli, munidos até o pescoço com equipamentos (gerador de energia, máquinas filmadoras, DVDs, projetores) que seriam utilizados na oficina. Partimos de Brasília às 23hs e chegamos três horas depois. Assim que pisei em Rio Branco, o cheiro de fumaça, o ar denso e quente, me deu a sensação do clima quente e úmido característico. Dormimos por algumas horas, mas logo cedo saímos para uma visita à Biblioteca da Floresta. Tínhamos 12 horas desde que havíamos chegado a Rio Branco, devido ao tempo da conexão para Cruzeiro do Sul (então voaríamos entre 13 e 14hs). Fomos muito bem recepcionados na biblioteca pelo sertanista Meireles, que acabara de montar a exposição sobre os Mashcos, índios isolados do Acre e por lá ficamos até a hora do vôo68.

O vôo de Rio Branco à Cruzeiro do Sul levou cinqüenta minutos. Chegando à cidade fizemos uma compra em conjunto, no supermercado de Cruzeiro do Sul, onde compramos pão, queijo, manteiga (coisas que duraram pouco tempo) e também azeite, sucos e bolachas, para incrementar as refeições. O arroz, açúcar, óleo, macarrão ficariam para comprar em Marechal Thaumaturgo, por conta do limite de peso no avião. Os legumes seriam comprados antes de voar. Depois nos separamos (a equipe foi para um hotel) e nos encontramos na manhã seguinte. Eu tinha a casa da amiga antropóloga, Andréa Martini, casada com o indígena e cineasta, o cacique José Osair Sales conhecido por Siã Kaxinawa, onde pernoitei, tanto na ida quanto na volta, e de onde peguei o que faltava para a estadia na aldeia, rede e mosquiteiro, além das últimas dicas de como era a aldeia, como eu deveria me portar e onde comprar tabaco de presente para o pajé 69.

Ainda em Cruzeiro do Sul encontra-se a loja de artesanatos da Apiwtxa. Quem cuida e organiza é Alexandrina, uma das filhas do kuraka Antonio Pyanko70, casada e mãe de uma menina. A Alexandrina, seus irmãos Isaac e Wewito (dois realizadores formados durante na

68

Acessado em Julho/2011, pelo site da Biblioteca da Floresta de Rio Branco:

http://www.bibliotecadafloresta.ac.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=357&Itemid=186 69

Interessante eu ter ficado na casa de Siã por ele ter sido um aluno do Vincent em 1988. Siã passou a trabalhar sozinho, fazendo por outras vias seus próprios filmes: POVOS DO TINTON RENÉ (1991), A ESTRADA DA AUTONOMIA (1992) E KAXINAWA: THE REAL PEOPLE (1993), LAGO LINDO (2008). Conforme já foi citado, os dois primeiros filmes FRUTOS DA ALIANÇA DOS POVOS DA FLORESTA (1989) E POVOS DO TINTON RENÉ (1991) foram analisados por Joseane Zanchi Daher na sua dissertação de mestrado, 2007. 70

O chefe é chamado entre os Ashaninka de kuraka “Na sociedade Ashaninka, a chefia é ocasional ou circunstancial. Os antropólogos usam a palavra nativa “pinkatsari” ou o termo “kuraka” (“curaca” no Peru), de origem quéchua, para qualificar o “chefe” (PIMENTA, 2006: 6).

38 primeira oficina de formação entre os Ashaninka), sua cunhada Fátima (professora na aldeia e casada com Isaac) e mais o primo Kumanhari (também professor na aldeia), participam do curso de terceiro grau indígena da UFAC - Universidade Federal do Acre - Campus da Floresta, em Cruzeiro do Sul que, coincidentemente, é também ministrado por Andrea Martini71.

Segundo me disseram os oficineiros, a loja da Apiwtxa em Cruzeiro do Sul ficou responsável por adquirir alguns equipamentos importantes para a oficina de realização, como o telão e o retroprojetor. Informações desencontradas diziam que o retroprojetor já estava na aldeia (o que não se confirmou) e o telão, que chegou quando estávamos no aeroporto, de partida para Marechal Thaumaturgo, era muito grande - aproximadamente dois metros - e não coube no avião, sendo necessário deixá-lo. Nos dois casos foi possível improvisar: o telão na aldeia foi substituído por um lençol branco e para a projeção usou-se a própria filmadora.

A viagem de Cruzeiro do Sul para Marechal Thaumaturgo, marcada com antecedência, só acontece às terças e sextas feiras. O avião que voamos era um monomotor e tinha de seis lugares, além do compartimento razoavelmente pequeno para as bagagens. A equipe estava com uma quantidade grande de bagagens e Vincent passara a manhã toda resolvendo alguns problemas com a empresa aérea, para enfim nos liberarem para o vôo. Os dois monitores, que haviam saído para comprar os legumes, foram deixados por questões de minutos, para que a empresa aérea, por meio de seus motoristas, os levasse ao aeroporto quando retornassem. Fui acompanhando o Vincent até o aeroporto, que é relativamente longe, num carro também da empresa aérea, uma caminhonete com a carroceria cheia de malas. Então, quando o primeiro vôo chamou, do grupo de quatro pessoas só eu pude decolar. Fui com outros passageiros e Vincent ficou com a bagagens, esperando pelo monitores que chegariam na sequência. Um desencontro nunca é uma situação agradável, mas poderia ser pior (do meu ponto de vista) se a causa do atraso fosse alguém com quem se tem uma relação de solidariedade e não financeira. Era bom que eu não “errasse” nem me perdesse do grupo.

Voar sobre aquele mar verde foi algo que compensou o medo da pane do avião. Procurei me distrair com as curvas de rio, entre a imensidão de árvores. E por entre as nuvens brancas, pequenos pontos brilhantes indicavam casas cobertas de zinco

71

Na volta da aldeia para casa fui conhecer em sua companhia o Campus da Floresta, pois que a Andrea, enquanto docente no curso para professores indígenas, tentava resolver um imbróglio não-indígena: uma situação de muito desconforto por parte dos alunos indígenas. Estes exigiam condições dignas de alojamento, pois que teriam que permanecer mais dois meses na cidade, período em que estavam matriculados no curso.

39 (possivelmente em terras Katukina). Com meia hora de vôo pousamos numa pista metade terra vermelha, metade asfalto, era Marechal Thaumaturgo, cidade de aproximadamente 13.000 habitantes.

A pequena cidade é rodeada pelos rios Amônia e Juruá e é neste último que se encontra o complexo Ashaninka “Centro de Saberes da Floresta Yorenka Atame”, uma sede com quartos, banheiros, computadores e internet, com caseiros que cuidam e organizam o espaço para reuniões entre os Ashaninka e outros grupos indígenas, assim como a população não indígena do entorno. Como a equipe do VNA estava sendo esperada para a oficina de formação de realizadores, assim que ouviram o barulho do avião, alguns homens e meninos