Conforme introduzido anteriormente, esta pesquisa partiu de uma base de dados preexistente. Como um dos participantes do grupo de pesquisa, o autor desta pesquisa teve acesso a essa base de dados. Essa base de dados possuía dados empíricos de algumas empresas produtoras de bioetanol. Essas empresas tinham sido acessadas, executivos e técnicos haviam sido entrevistados e haviam análises preliminares desses dados. A existência dessa base prévia de dados e empresas acessadas auxiliou na escolha das empresas para a pesquisa e também facilitou o processo de aceite das organizações.
A escolha pela indústria de bioetanol está relacionada com: (i) pesquisas anteriores e a literatura técnica sugere que a indústria de bioetanol oferece um cenário empírico rico para examinar as questões de pesquisa sugeridas (DANTAS; FIGUEIREDO, 2009; DUNHAM, 2009; ANDERSEN, 2011, 2015; FURTADO; SCANDIFFIO; CORTEZ, 2011; MATIAS, 2011; DANTAS et al., 2013); (ii) a indústria de bioetanol desempenha um papel importante na economia brasileira. Particularmente, a cana-de-açúcar, pela produção de bioetanol e bioeletricidade, responde por 18% da energia consumida no Brasil. Essa indústria gera mais de 1,2 milhão de empregos diretos, participou com 5,7% das exportações brasileiras em 2013 (US$ 15 bilhões) (AGROSTAT BRASIL, 2014; BRASIL, 2014a, 2014b) e representou 2% do PIB nacional (US$ 48 bilhões) (NEVES; TROMBIN, 2014).
O critério de seleção da amostra de empresas utilizadas nesta pesquisa foi baseado na ideia de amostra teórica de casos e amostra intencional ou deliberada (PATTON, 1990) e casos polares (EISENHARDT, 1989). Yin (2005) argumenta que trabalhos baseados em estudo de caso para a análise de fenômenos complexos dependem de escolhas adequadas de empresas. Dessa forma, a pesquisa buscou selecionar casos com alto grau de informação (EISENHARDT, 1989; PATTON, 1990) que refletiam a variabilidade necessária para o entendimento do fenômeno estudado na pesquisa. Ou seja, a escolha inicial dos casos partiu de um direcionamento deliberado.
Inicialmente, foram selecionadas 12 empresas produtoras. A combinação de critérios iniciais para a seleção da amostra foram: (i) representatividade da empresa no setor (tamanho, faturamento, volume de vendas, volume de produção); e (ii) representatividade de riqueza e variedade da informação (casos de organizações que realizaram atividades inovadoras que poderiam ajudar na
aproximação das questões de pesquisa). O processo de aceitação da participação na pesquisa foi um desafio. Algumas empresas produtoras estavam passando por uma situação financeira delicada e optaram por declinar sua participação na pesquisa. Outras empresas aceitaram participar, entretanto, a crise que afetou o setor as obrigou a se reorganizarem e alguns dos contatos acessados deixaram de trabalhar na empresa ou acabaram desistindo de participar.
Ao final, foram acessadas sete empresas produtoras. Para tornar a pesquisa mais robusta, foram selecionados três institutos de pesquisa, três organizações ligadas a universidades e oito organizações relacionadas à indústria (ex.: fornecedores, empresas de biotecnologia, associações etc.). Essas organizações foram selecionadas pela sua importância histórica para o desenvolvimento tecnológico da indústria de bioetanol. Ressalta-se que a definição das organizações que foram selecionadas para fazerem parte da pesquisa foi deliberada durante e após o processo da pesquisa empírica. A lista das organizações consideradas para a realização da pesquisa é apresentada nos Quadros 5.3 e 5.4.
Quadro 5.3. Lista de empresas produtoras consideradas na pesquisa Grupo fundação Data de
Capacidade de produção de bioetanol (milhões de litros/ano) Capacidade de produção de açúcar (milhões de tonelada/ano) Capacidade de produção energética (GWh/ano) Número aproximado de funcionários Nacionalidade Alfa 1949 150 23 n.p. 3.100 Brasileira Beta 1976 3.000 700 2.700 15.000 Brasileira Gama 1946 423 600 545 3.500 Brasileira Delta 1931 1.500 n.d. 832 4.800 Brasileira Lambda 1937 639 986 244 7.000 Brasileira Sigma 2011 82 n.p. n.p. 350 Brasileira
Psi 1936 2.100 4.100 2.000 30.000 Brasileira/Anglo-Holandesa
Nota: (n.d.) não disponível; (n.p.) não produz.
As empresas produtoras selecionadas nesta pesquisa representam, aproximadamente, 27,3% de toda a produção de bioetanol do Brasil, 16,8% da produção brasileira de açúcar e 29,4% de toda a energia produzida a partir da queima do bagaço da cana em 2014. Ressalta-se que a indústria de bioetanol é caracterizada por um grande número de empresas e com baixo índice de concentração; ou seja, uma indústria atomizada (INFOSUCRO, 2010). Por exemplo, os 15 maiores grupos produtores do Brasil representam, aproximadamente, 30% da cana moída e 40% da produção total de bioetanol do Brasil. Das empresas selecionadas, cinco estão entre as 10
maiores produtoras e as outras duas empresas foram escolhidas pelos seus esforços na produção de bioetanol de 2ª geração e desenvolvimento tecnológico.
Quadro 5.4. Lista de outras organizações da indústria de bioetanol consideradas na pesquisa
Organização fundação Data de Principais atividades Nacionalidade
Institutos de pesquisa Centro de Tecnologia Canavieira
(CTC) 1969 P&D em melhoramento genético, processos agrícolas e industriais Brasileira
Laboratório Nacional de Ciência e
Tecnologia do Bioetanol (CTBE) 2010 P&D em melhoramento genético, processos agrícolas e industriais Brasileira
Embrapa Agroenergia 2006 P&D em melhoramento genético Brasileira
Universidades
IAC/Unicamp – Centro de Cana 1992 P&D em melhoramento genético Brasileira
Ridesa/PMGCA/UFSCar 1971 P&D em melhoramento genético Brasileira
Instituto de Bioquímica (UFRJ) 1966 P&D em processos industriais de E2G Brasileira
Organizações relacionadas à indústria Associação dos Plantadores de
Cana do Oeste do Estado de São
Paulo (Canaoeste) 1945
Associação de produtores de cana-de-
açúcar Brasileira
Dedini 1920 Produção e comercialização de equipamentos industriais Brasileira
União dos Produtores de
Bioenergia (UDOP) 1985 Organização representativa do setor Brasileira
União da Indústria de Cana-de-
Açúcar (Unica) 1997 Organização representativa do setor Brasileira
Amyris 2003 Empresa de biotecnologia para produção de produtos à base de cana-de-açúcar Norte-americana Novozymes 2000 Empresa de biotecnologia para produção de insumos de processos industriais de
E2G Dinamarquesa
John Deere 1837 Produção e comercialização de equipamentos agrícolas Norte-americana
O processo de negociação da autorização de acesso às organizações aconteceu da seguinte forma: primeiro, foi enviada uma carta de apresentação da pesquisa para executivos do alto escalão (presidentes, superintendentes e diretores). Segundo, uma cópia dessa carta de apresentação foi enviada por correio eletrônico para o executivo. Terceiro, foi realizado o contato telefônico diretamente com o executivo ou com profissionais assistentes (secretárias, assistentes etc.) para conciliação de agendas. Quarto, quando esse procedimento não havia resultado numa reunião pessoal, foi realizado um trabalho extensivo de follow-up e clarificações por telefone e/ou correio eletrônico. Quinto, se o convite da reunião era aceito, era realizada uma reunião nas dependências da empresa/organização e era apresentado o projeto de pesquisa, seus objetivos, necessidades e possíveis resultados. Sexto, com o aceite do escalão superior, foi requisitado o auxílio para organização de possíveis contatos e agendas com profissionais que
pudessem ser as fontes de evidências. O processo de como foram coletadas as evidências é apresentado na próxima seção.