A transformação da visão em ação é realizada por meio de processos criativos que auxiliam na materialização do negócio proposto. O desenvolvimento de competências associadas às inovações e aos diferenciais em relação aos outros produtos ou serviços existentes no mercado representa um importante passo para a consolidação da visão empreendedora. No processo visionário o idealizador estabelece estratégias que demandam de habilidades específicas na estruturação das ações de viabilização do empreendimento.
Colocar em prática um novo negócio ainda não explorado no mercado pode-se constituir em uma ação empreendedora de sucesso. A atividade fisioterápica antes de obter o seu reconhecimento era exercida por profissionais da medicina física. O depoimento do Estabelecido 04 aponta para a oportunidade percebida e concretizada que o levou a ser um dos pioneiros nos serviços fisioterápicos:
“[...] a fisioterapia em 1985, 1986 estava na mão de fisiatras, tinha muitos poucos fisioterapeutas com clínica constituída, com nome. A maioria das clínicas eram só de médicos. Não se dava uma atenção aos fisioterapeutas, ou seja, a atividade fim era medicina, não era a reabilitação. A gente criou a clínica com a atividade fim de reabilitação, então dai a o diferencial nosso em relação as outras clínicas do mercado.” (Estabelecido 04)
Não necessariamente o empreendedor é o inventor (KURATKO e HODGETTS, 1995). A pessoa que aprimora ou busca um nicho ainda desconhecido no negócio aumenta as chances de acertar com a implantação da idéia. Os fragmentos abaixo retratam a experiência de alguns precursores de segmentos de especialização da fisioterapia:
“Logo após me formar, como não tinha aqui no Brasil o setor especializado em reabilitação de mão, eu fui pro exterior, eu fui pro Estados Unidos, fiquei lá dois, três meses e eu acompanhei quatro serviços de reabilitação de mão. Aí aconteceu de eu estar investindo bastante na área de reabilitação de mão, sendo que meio a pioneira aqui, porque não tinha quase nada aqui no Brasil. A gente não tem livros, a gente não tem referência. A gente montou um setor, a gente ia lá no mercado central e pegava bolinha de gude, então
essa parte da terapia, sempre trabalhei com uma TO do meu lado. A gente montou um setor bem criativo com material mais primitivo.” (Estabelecido 02)
“Quando eu resolvi trabalhar com geriatria numa época que quase ninguém trabalhava com geriatria, eu acho que isso foi um diferencial, o fato foi uma coisa que eu sempre prezei tentar. Estar ligada às pessoas que eram importantes naquelas áreas onde eu atuava, inclusive às vezes sem ter nenhum retorno financeiro.” (Outros 04)
A produção de idéias desenvolvida no processo criativo pode gerar outros tipos de serviços dentro do empreendimento. À medida que se percebe o surgimento de demandas associadas ao serviço central oferecido pelo negócio é assegurada a expansão para outros atendimentos. O desenvolvimento dessa habilidade é reforçado pelos fisioterapeutas entrevistados abaixo, diferenciais que reforçam a imagem do serviço com o consumidor, no caso do depoente recém instalado no mercado, e com outras áreas afins da fisioterapia como ocorreu com os entrevistados estabelecidos (03) e (05):
“[...] Um paciente basicamente na área de estética, o quê que a gente faz? A gente não oferece para ele só a fisioterapia dermato funcional, a gente oferece a nutrição, que é uma avaliação de nutrição com a nutricionista. A gente oferece grupo de atividade física, a gente oferece três vezes por semana para aquele paciente. Faz uma ficha sobre os objetivos do paciente, se é emagrecimento, se é fortalecimento. A gente faz uma ficha associada à reeducação alimentar. E tem outras coisas também, bronzeamento artificial, a gente tenta agregar tudo aquilo para aquele paciente, e que é possível ele poder encontra dentro da clínica. Se é um paciente que tem o abdômen protuso, que necessita da estética e a gente vê a postura, a gente trata da postura. Chega [cliente] de ortopedia ele está vendo que está atacando a coluna, está vendo que tem um problema no pé, a gente indica uma palmilha, então a gente oferece tudo para o paciente aqui.” (Inicial Novo 03)
“[...] além dos atendimentos específicos, como hidroterapia para gestante, hoje nós estamos ministrando cursos para profissionais como se fosse até uma consultoria nas áreas afins. Hoje existe curso e até consultoria na área de fisioterapia aplicada a ginecologia, obstetrícia, na odonto pediatria, na odontologia e na enfermagem.” (Estabelecido 05)
Na montagem do negócio, a criatividade se traduz em diferencial ao ser utilizado como atividade original não explorada pelos concorrentes. O relato abaixo descreve uma estratégia utilizada por uma depoente para oferecer um diferencial no serviço prestado:
“Eu imaginava ter uma clínica, trabalhar num lugar legal, assim de preferência parecendo uma sala de artes, eu sempre gostei de mudar as coisas. De repente, o lugar que eu estava atendendo virava brinquedoteca, cheio de coisa. [...] eu sempre levava alguma coisa da Terapia Ocupacional para o setor de Fisioterapia para ver se a coisa ficava um pouco mais interativa.” (Estabelecido 02)
A estrutura física do empreendimento que receberá a idéia proposta para o empreendimento, quando trabalhada de forma diferenciada, torna-se uma atratividade para a clientela. Saber manter o ambiente de trabalho em condições propícias ao exercício da atividade fisioterápica ajuda na empreitada de possibilitar a harmonia necessária para garantir boas condições de trabalho e satisfação do cliente. Alguns depoentes relatam a importância de observar a qualidade e a manutenção constante do local de atendimento na área de saúde:
“Conhecendo as outras instituições, o que existe no mercado, nós procuramos inovar de alguma forma. Primeiro a questão do ambiente: é uma casa, é uma clínica, um local de residência, então esse ambiente tem que se aproximar do máximo. Ele tem que ser um lugar onde as pessoas chegam e elas se sintam bem, a gente procura manter um ambiente que ele é diferenciado do que existe no mercado.” (Inicial Novo 01)
[...] a gente tinha um espaço físico único, uma piscina muito grande para ser utilizada, uma pista de cooper, uma instalação que era até bonita, muito bonita, toda adaptada para receber pacientes com deficiências físicas e no mais era isso, era a qualidade do estabelecimento, da estrutura, a informatização dos sistemas de prontuário e qualidade no atendimento do fisioterapeuta.” (Outros 08)
“[...] é uma clínica que está extremamente moderna, como se diz, ela está toda bem equipada. Todo ano eu reformo ela, todo ano os equipamentos são melhorados, ou são limpos, ou são reformados, ou são trocados. Cada ano tem um objetivo: tem ano que é melhorar o aspecto da piscina, então melhora tudo, troca os azulejos, troca tudo.” (Estabelecido 03)
Manutenção e aprimoramento do ambiente organizacional constituem-se em competências de execução estratégica importantes para a viabilização da visão empreendedora. Em relação à estrutura que ampara a consolidação do negócio, a tecnologia consistiu em outro núcleo de sentido evidenciado nos depoimentos:
“O [Fisioterapeuta] tem lá a câmera digital dele, que faz as filmagens. Nenhuma clínica aqui fazia isso, nenhuma. Tira fotos, todas as fotos, frente e verso. Tem a esteira, filmamos todas as marchas das pessoas, de lado, de costas, de frente, com câmera lenta. Eu sou referência nisso em Belo Horizonte. Eu tenho em Belo Horizonte hoje a melhor avaliação de análise de marcha.” (Inicial Novo 02)
Assim como os recursos tecnológicos, as pessoas que atuam no negócio compõem os elementos críticos do empreendimento. No segmento fisioterápico as competências associadas à capacitação de pessoal são fundamentais para o bom funcionamento dos
serviços. O diferencial da prestação do serviço de fisioterapia muitas vezes pode envolver o uso de profissionais de outros especialistas em segmentos que diferenciam a atividade oferecida aos pacientes. A habilidade demandada corresponde em saber aproveitar as fronteiras existentes com outras áreas da saúde e conhecer as especialidades dos funcionários de modo a alocá-los na função correta. As narrativas a seguir revelam algumas competências empregadas para capacitar recursos humanos e habilitá-los a atenderem pacientes:
“[...] fazemos uma reunião semanal com as cuidadoras. Elas discutem os pontos que elas têm dúvidas, as dificuldades, tanto do cuidado, como da relação com esses idosos. Isso eu sei que não tem em outras clínicas. É um ponto que eu mantenho: essa capacitação dos funcionários. Nós temos a profissional da terapia ocupacional e a estagiária. A estagiária só está presente quando a profissional está também, então ela faz grupo de culinária, grupo de memória ai depois de três meses muda esse grupo, ai faz outro tipo de oficina. Uma coisa que eu acho que é importante é o atendimento externo, o acompanhamento externo. A gente tem pelo menos uma vez por mês um teatro, um jantar fora, um baile.” (Inicial Novo 01)
“O maior diferencial foi investir na qualidade do atendimento, a gente prestava um atendimento com toda uma base muito cientifica, coisas que às vezes na nossa área não tinha muito. As pessoas às vezes faziam uma coisa assim sem saber justificar as coisas, então pelo fato da titulação das pessoas que trabalhavam na clínica, pela vivência cientifica e pela vivência acadêmica, a gente investiu no atendimento com comprovação cientifica e no atendimento ao cliente, na qualidade ao atendimento ao cliente. A gente tentava atender no máximo um ou dois pacientes, um fisioterapeuta para cada dois pacientes. A gente selecionou os estagiários, então teria um atendimento praticamente individual com a ajuda dos estagiários. O maior diferencial era a qualidade de atendimento que a gente tinha.” (Outros 08)
Os diferenciais apresentados pelos entrevistados dizem respeito aos investimentos em especialização e modelos de acolhimento. Na prestação de serviços, as técnicas envolvem atividades criativas destinadas a atrair e acolher públicos específicos (pessoas da terceira idade) ou mesmo de procedimentos que diferenciem a forma de atendimento como o uso da medicina com base em evidências enfatizadas pelo segundo depoente.
O papel do estagiário na atividade fisioterápica é ressaltado nos depoimentos. Em uma das entrevistas um fisioterapeuta faz menção a não utilização de estagiários como diferencial na prestação de serviços da clínica. Neste caso as justificativas remetem ao foco no
atendimento prestado por profissionais experientes, ou mesmo, às tentativas de exploração de uma mão-de-obra barata. Por outro lado, os relatos acima do Inicial Novo 01 e Outros 08 demonstram haver uma preocupação desses fisioterapeutas em preservar a função de aprendizagem que o estágio representa.
Entre os entrevistados, o grupo de pessoas que atuam como autônomos (denominados de Outros) também utilizam estratégias para exercer de maneira empreendedora suas atividades profissionais. A qualificação e a permanente atualização de conhecimentos são frisadas como competências conceituais a serem desenvolvidas pelos profissionais que atuam em instituições de ensino superior:
“[...] Fiz curso de RPG, participava como ouvinte de eventos, principalmente ligado à geriatria. Sempre que tinha algum Congresso a gente fazia um trabalho, mandava isso para apresentação em pôster. Hoje em dia o que eu faço é continuar estudando, correndo atrás da minha qualificação. Fiz o mestrado, já estou pensando em fazer disciplina isolada para fazer doutorado. Eu sempre participo de Congresso nas áreas, como ouvinte e mandando trabalho também. Como eu dou aula fica muito mais fácil de mandar um volume maior de trabalhos, porque eu tenho os trabalhos de conclusão de curso. Isso é uma coisa que gera uma certa produção. Nas extensões também eu tenho uma produção dos Congressos, porque tenho pessoas, eu tenho uma equipe que trabalha comigo, então a gente tem um volume razoável de trabalhos em eventos.” (Outros 01)
“[...] eu ando fazendo alguns cursos, não só curso de atuação na área da fisioterapia. Eu ando estudando um pouco sobre metodologia do ensino superior, eu ando estudando um pouco do porque da mudança do perfil do aluno principalmente das escolas particulares. Ando estudando o que eu posso fazer com a minha didática para que eu possa melhorar a forma de passar a informação, para facilitar o aprendizado desse aluno. A gente vê que hoje os alunos estão chegando ao curso superior com uma base de formação muito fraca. Na verdade é esse o público que nós temos para atender.” (Outros 08)
“[...] eu me mantenho atualizado nos artigos, nos Congressos, fóruns de discussão com os colegas, troca de artigos, de experiências, cursos na parte técnica, na parte de conteúdo teórico. Eu preciso estar atualizado, eu preciso estar por dentro disso ai para poder passar para os alunos. Tento passar para o aluno uma responsabilidade social dentro da comunidade e dentro da profissão também, do papel dele dentro da profissão, dentro da sociedade, no Brasil como um todo, como um cidadão, então eu tento ser diferente, eu tento criar esse diferencial nesse aspecto.” (Outros 03)
As competências associadas à execução estratégica no segmento fisioterápico funcionam como meios para que o empreendedor consolide a visão idealizada para o negócio, seja diferenciando-se em relação ao serviço prestado ou inovando em termos dos processos de
aprendizagem repassados a futuros fisioterapeutas. As inovações envolvem o pioneirismo no exercício da profissão e na exploração de nichos não existentes na prestação do serviço. Os diferenciais incorporam novas modalidades de atendimento e o uso da criatividade para constituir a estrutura do negócio em termos das instalações, tecnologia e formas de acolhimento do paciente. Na seção seguinte são abordadas as influências das relações sociais na concepção e implantação de empreendimentos de serviços de fisioterapia.