1. INTRODUCTION
4.3 O BSERVATIONS
4.3.5 Retrieve and replace
Assim como no exemplo da teoria do Big Bang, a referência que encontramos acerca da teoria criacionista nos livros didáticos de Biologia é relativamente breve. É claro que, ao explorar a primeira, existe uma maior aproximação com a ciência Biologia propriamente dita, tendo em vista que fornece uma base, tanto química quanto física, para que o aluno consiga compreender como a vida teria se organizado a partir disso, desse ambiente que se originou com a ―grande explosão‖ e como houve – ao longo do tempo – a interferência desse meio sobre as formas de vida. Já com relação ao criacionismo, as informações referentes são meramente históricas. Não há – e nem poderia – haver algum tipo de discussão neste caso, já que não se aplica a essa teoria nenhum tipo de empiria, para que algo pudesse ser questionado.
Com base nessa primeira percepção, podemos perceber que o conhecimento desse fato histórico é meramente informativo, mas em uma dimensão científica não caberia nenhuma discussão procedimental, observando que tal teoria é uma crença que emana da fé. Logo, o criacionismo não tem espaço na Biologia – como veremos adiante – assim como também qualquer teoria essencialmente biológica não teria aceitação de parte dos criacionistas. Aqui permanece a incompatibilidade tão discutida – principalmente a partir do final do século XVIII, e muito fortemente ao longo do século XIX, em face do movimento iluminista– entre ciência e fé, entre a razão e Deus.
Deve-se considerar que nesse período houve uma inversão do olhar humano no que tange à maneira de observação dos fenômenos. A preconização do uso da razão, de um racionalismo, desloca a figura divina para um plano secundário. Com isso a ciência ganha força e se organiza em termos metodológicos havendo um rigor exigível para seguir as etapas de um ―método científico‖. Em um período em que a empiria passa a ganhar mais espaço, tudo deveria ser comprovado cientificamente, sendo a época mais marcante em termos das constituições de verdades científicas. Essa necessidade da relação entre ciência, empiria e a produção de verdades científicas, nada mais é do que um legado da ciência desse período, do rigor e do método, que até hoje se encontra arraigada no pensamento científico contemporâneo.
Percebe-se que se estivéssemos tratando de outra teoria para a origem da vida, a Biologia provavelmente teria dado uma resposta empírica, mas foge do alcance da ciência quando se trata de colocar em xeque o elemento divino como a figura de um Deus, de uma força criadora, hipótese muito aceita – principalmente do papel da Igreja enquanto instituição e sua íntima relação com o poder - desde a época medieval, onde os próprios monarcas eram tidos como representantes de Deus na Terra. Mas, mesmo assim, o que a Biologia pode questionar são os elementos que constituem essa corrente, esse modo criacionista de pensar a origem da vida em nosso planeta.
O criacionismo é essencialmente fixista, ou seja, que tenha sido Deus o criador tanto da vida quanto do universo, a Biologia nunca poderia comprovar, mas o fixismo enfraquece a teoria criacionista. A teoria fixista associada à criação diz que todos os seres vivos existentes, os quais na Terra foram colocados por Deus, permanecem imutáveis desde o momento da do ato criador divino. Isso significa que se há uma crença na imutabilidade das espécies, há uma negação dos elementos – fáticos, porque facilmente podem ser observados – que constituem a teoria da evolução, como a descoberta de fósseis morfologicamente distintos e que remontam linhagens evolutivas de diferentes espécies, da própria biodiversidade que com o advento da genética se pode concluir que tem por base as mutações em nível de molécula de DNA e com isso há uma negação da seleção natural, o que retiraria a interferência do fator ambiental sobre as formas de vida.
O questionamento ao caráter fixista do criacionismo foi um duro e derradeiro golpe na consistência de uma teoria que atualmente tem força em um campo cuja ciência não consegue penetrar: o da fé. É por isso que há a existência do conflito entre uma teoria que emana da fé com outras essencialmente científicas. Estas outras teorias, como veremos, surgiram antes da teoria da evolução química (ou da evolução molecular) – atualmente, segundo a própria Biologia, a mais plausível – as quais também em sua medida se contrapuseram à ideia da criação, como a geração espontânea, também chamada de abiogênese e a biogênese.
Dentre os livros analisados foi possível observar uma referência a essa teoria em apenas três deles: no livro de Sônia Lopes (2008), Uzunian e Birner (2008) e César e Sezar (2003). Essas obras foram as únicas que abordaram o criacionismo como uma das teorias que postula a origem da vida na Terra. Cabe reiterar que os
textos redigidos por esses autores são breves. Além disso, não há nenhum tipo de aprofundamento em termos de contexto, pano de fundo histórico, sendo apresentada apenas a essência dessa teoria, ou seja, um Deus criador colocando espécies na Terra já em sua forma acabada, uma criação pontual que retira o papel da evolução e das lentas e graduais modificações – tanto ambientais quanto estruturais – pelas quais passaram o ambiente e os vivos que dele começaram a fazer parte.
Segundo o livro de Sônia Lopes, a importância que se deve dar à análise do criacionismo, tendo em vista o Darwinismo – a partir do século XIX – e o advento da Genética – na primeira metade do século XX – é a do mero conhecimento que em algum momento na história da humanidade houve uma corrente de pensamento não-científico, influenciada por questões de dominação e poder, que atribuiu a origem da vida a uma ordem divina, que colocou sobre a face da Terra uma biodiversidade muito bem acabada em termos estruturais (LOPES, p.100, 2008).
Uzunian e Birner não abordam o teor, o caráter fixista do criacionismo. Os autores apenas apresentam essa teoria como sendo ―fruto de ação consciente de um criador‖. Ainda, há uma tentativa de explicar o equívoco daqueles que creem nessa hipótese divina de origem da vida como sendo fruto de uma ―interpretação poética e simbólica dos textos bíblicos‖ e que sua interpretação errônea, tomada como realidade, estaria em oposição à evolução (UZUNIAN & BIRNER p.1008, 2008).
César e Sezar também não aprofundam a discussão em torno do criacionismo, apenas citam o que se entende por essa teoria – a criação Divina – e enfatizam que pelo fato da ciência não poder coloca-la à prova, estaria muito mais relacionada com a fé do que com a própria ciência, tendo em vista sua não possibilidade de comprovação (CÉSAR & SEZAR, p.517, 2006).
É claro que o conhecimento, ou não, da teoria criacionista em nada interfere na compreensão de uma teoria essencialmente biológica que tente explicar a origem da vida. O fato é que a possibilidade de conhecê-la, de fazer com que o aluno se aproprie dela, enquanto fruto de um momento da história da humanidade, suscita uma percepção por parte do estudante de como o pensamento científico evoluiu, e mais: os tipos de debates que foram travados ao longo da história da ciência – por distintas correntes do pensamento científico - na defesa de determinadas verdades
científicas e de como a própria ciência, por um discurso exterior a ela, foi colocada à prova ao longo de sua existência.
Esse tipo de discussão, mesmo que breve, serve para que o estudante seja conduzido a perceber as condições, os elementos que conduziram a própria ciência a aprimorar seus métodos de investigação, a exigir um rigor necessário na testagem de hipóteses e lançar mão da empiria como critério derradeiro de comprovação de uma verdade – mesmo que efêmera - científica. Além disso, como se trata de uma discussão onde são colocadas frente à frente distintas concepções acerca da origem da vida, a exploração desse tema nas escolas surgiria como mote para um trabalho interdisciplinar, onde a própria Biologia seria associada à História na exploração de elementos que auxiliem a compreensão dos eventos históricos de um determinado recorte temporal situado entre o final do século XVIII, estendendo-se principalmente ao longo de todo o século XIX e culminando na primeira metade do século XX com o desenvolvimento da Genética e do Neodarwinismo, também chamado de Teoria Sintética da Evolução24.
O que se pode perceber com essa discussão é que o criacionismo não é uma teoria de origem da vida, no sentido de tentar explicar – em primeiro lugar – a constituição de uma forma de vida e sua derivação para outras formas. Pelo contrário. Essa teoria é uma teoria de origem das formas de vida, criadas separadamente, arquitetadas por Deus para ocuparem posições diferentes na complexidade da vida. O conceito de vida aqui não é único e abstrato, mas diferente e específico.
O criacionismo não leva em consideração aquilo que há de comum nas distintas formas de vida que teriam sido criadas por Deus – e nem poderia, tendo em vista as condições precárias do conhecimento biológico na época em que essa teoria se desenvolve – mas trata a vida como um fenômeno distinto, tendo por base a organização complexa e hierárquica dessas formas de vida em um nível que é o da observação dos diferentes nichos de cada uma delas. Como poderia o humano, racional, criado à semelhança de Deus, compartilhar algo em comum com outro ser menos derivado, inferiormente localizado na escala evolutiva?
24 Neodarwinismo ou Teoria Sintética da Evolução congrega os ideais e princípios evolutivos, as
premissas para a evolução dentre as quais destacam-se a variabilidade, na forma da biodiversidade, e a seleção natural – atuante sobre essas formas distintas de vida – explicadas à luz da Genética, ou seja: trata-se da Genética corroborando a Evolução, reforçando assim os pressupostos darwinistas.
O próprio fato colocado por Darwin foi erroneamente interpretado pelos criacionistas que não entenderam – ou não quiseram entender – que o ―homem‖ e o macaco têm um ancestral em comum, e não que o ―homem‖ veio do macaco. O viés evolutivo é descartado, Deus teria criado a humanidade pronta, não tendo havido possibilidade para a evolução, por meio da seleção natural, lapidar ao longo do tempo o perfil das espécies. A impossibilidade de encarar a vida como fenômeno, elemento comum a uma coletividade de organismos denominados vivos, faz do criacionismo uma teoria que tenta explicar uma origem previamente arquitetada – independente de qualquer relação externa - dos vivos.