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oriundo do espectro da imagem, cujos detalhes apenas estão ao alcance do olhar clínico – inferindo, diremos que a validação da paisagem urbana está refém da disponibilidade do olhar “(...) do leitor capaz de superar o hábito e perceber as diferenças: um olhar que se debruça sobre a cidade para perceber suas dimensões e sentidos, que estabelecem o lugar como fronteira entre a cidade e o sujeito atento.” (Ferrara, 2002, p. 129).

43 Carácter alegórico e representativo da realidade a partir de representações, narrativas, imagens ou outras formas de comunicação e interpretação - que Peirce (1839-1914) adoptou no campo da semiótica.

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Daí inferimos que das camadas da paisagem manifesta subestimadas pelo olhar genérico, ficam as invisibilidades que se tecem no meandrar oculto da cidade hedonista44 de que já dissemos, e que assume importância fundamental na identidade dos contextos cuja imagem estática não retrata – pela ausência explícita de rituais urbanos.

Olhar a cidade é um exercício silencioso, talvez de matizes e texturas que nos falam do belo e do outro. Esse juízo de apreciação sempre controverso do espaço e do tempo, enquanto entidades que apelam à racionalidade do sensível – constitui condição estrita para perce- bermos o lastro oculto da cidade.

Mas, o que é a paisagem?

Recorremos a três autores para desvelarmos o seu significado, sendo que a sua definição imediata nos pareceu improvável. Anne Cauquelin (2008) afirma que “A paisagem não é uma metáfora da natureza, uma forma de a evocar, mas é efectivamente a natureza.” (p. 30), que não sendo uma construção mental, acrescenta, “A paisagem é uma substância.” (p. 30). São contributos que, não configurando a cidade como elemento da paisagem, nos ques- tionaram sobre o termo composto paisagem urbana. A reincidência da pesquisa na obra, A invenção da paisagem, da mesma autora, permitiu responder à nossa dúvida. Cauquelin (2008) refere que “(...) a paisagem urbana é mais claramente paisagem do que a paisagem agreste e natural (...)” (p. 110).

Mas, ainda nos ficava uma dúvida fundamental. A paisagem urbana contém gente? A autora considera que a paisagem, não preexistindo à imagem, “(...) não é dirigida para manifestações territoriais singulares, mas para o acontecimento que lhe solicita a presença. E, tal como o local (topos), de acordo com a definição aristotélica, é o invólucro dos corpos que ele limita, também a pretensa «paisagem» (localzinho: to-

pion) nada seria sem os corpos em acção que a ocupam.” (Cauquelin, 2008, p. 37). Esta convicção está também presente em Lynch (2000), quando refere que “Os ele- mentos móveis de uma cidade, especialmente as pessoas e as suas actividades, são tão importantes como as suas partes físicas e imóveis. Não somos apenas observadores deste espectáculo, mas sim uma parte activa dele, participando com os outros num mesmo palco.” (pp. 11-12). Ou seja, de acordo com Galofaro (2004), a paisagem constitui um campo de acção em que as pessoas deixam de ser simples destinatários, para se tornarem indispensáveis à sua definição.

Perspectivas que sustentam a ideia de que a paisagem urbana supera as meras circunstân- cias físicas da cidade – convicção que acentua a urbe enquanto ecologia conciliadora das paisagens natural e humanizada e dos domínios do social e do simbólico – uma simbiose cuja complexidade se inscreve na cultura do urbano, próxima das relações de cortesia entre cidadãos, e destes no respeito pelo património e cultura da sua própria cidade.

44 Palavra que deriva do termo grego edonê, que significa prazer, e que aqui remetemos para a cidade “feliz” - ecologia indutora de uma ética da fruição orientada para a busca do prazer em espaços destinados à vida social.

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Num planeta (in)consciente dos problemas que emergem da celeridade da mudança, a necessidade de acordo entre sistemas, que deixaram há muito de se conjugar, surge como compromisso urgente a bem de uma harmonização que (re)concilie a natureza, enquanto referencial primário, com as artificialidades (re)produzidas pelo homem.

Essa necessidade constitui um desígnio resultante da imperiosa carência de (re)humanização dos contextos, promovendo-se a racionalidade fundada em pressupostos que deverão obrigar à regulação da intervenção nos territórios naturais e naturalizados, incluindo ainda todos aqueles que, qualificados e integrados em espaços urbanizados, merecem um continuado sentido de preservação e conservação.

Desta problemática, que reside fundamentalmente no estado de crise territorial e social a que chegaram algumas cidades e metrópoles, existe a convicção da necessidade do reforço da presença da natureza na cidade, como reserva para a renovação da qualidade ambiental e paisagística. Esta estratégia e desafio que se coloca às cidades e aos cidadãos, como con- dição e contributo para a qualificação da vida, pretende contrariar o caos ambiental que transformou muitas cidades em lugares de partida e consequente crise.

Perante as evidências latentes, a ideia de humanização das cidades vem introduzir novas formas de as habitar ou de as ocupar, sendo essencial que o recurso a soluções de design inovadoras e simultaneamente sustentáveis sejam uma realidade, já que “O meio e a paisa- gem são condição e espaços que nascem incompletos, que estão presentes numa realidade não virtual, tão mutante e tão idêntica a si mesma que não deixa lugar ao cenário que em mudança permite pensar o mundo, o futuro”. (Gehl & Gemzoe, 2000, p. 15).

A paisagem urbana contemporânea protagonizada pelo envolvimento disciplinar encontra no design um contributo essencial à consecução da realidade vivenciável – a paisagem não como pura visualidade, mas como realidade visível assumida e reconhecida conscientemente pelo homem nas qualidades de observador e actor dessa mesma paisagem. Clarificando, a visualidade corresponderá “(…) à constatação visual de uma referência e, mais passiva, limita- -se ao registro decorrente de estímulos sensíveis. A visibilidade, ao contrário, é propriamente semiótica, pois é compatível com a cognição perceptiva como alteridade que caracteriza e desafia a densidade sígnica.” (Ferrara, 2002, p. 101).

Neste âmbito, e remetidos para as contextualizações urbanas, “O espaço ultrapassa o passivo signo visual para aderir à complexidade do design, que exige uma perspicácia que ultrapassa todos os programas e transforma a visualidade em visibilidade, uma cognição disponível ao sentido.” (Ferrara, 2002, p. 114).

Trata-se de uma ideia que nos permitirá falar de co-autoria ética e cívica na realização da paisagem qualificada e qualificante – afastando-se assim a ideia (r)estrita e elementar de que a paisagem é exclusivo objecto do olhar, mas antes, uma ecologia que reivindica outros sentidos – uma cosmologia da percepção onde actuam “(…) a visão (cores e formas, dis- tâncias e perspectiva), o tacto (liso, rugoso, frio, húmido, quente, seco), a audição (o som cristalino da água, rangente do metal) e o odor (as estações dos elementos têm todas o seu cheiro)” (Cauquelin, 2008, p. 110).

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Tal complexidade, comprometendo o design, deve levar à consciencialização cívica da paisa- gem, dado que, não sendo produto do acaso, ela resultará da contenção ou acção do homem orientada para a sua preservação, invenção, qualificação ou dos seus opostos.

Neste âmbito, merece referência Franch et al (1999), quando referem que a distinção

“(...) entre planificación del paisaje y diseño del paisaje, en tanto que actividades inde- pendientes, no deberia implicar la conclusión de que el diseño es un mero ingrediente añadido que se preocupa unicamente de la estética, de hacer los espacios amenos y de los detalles, en lugar de ocuparse de todo el conjunto.” (p. 25).

A conciliação entre natureza, paisagem e artificialidade promovida e desenvolvida pelo ho- mem passará também por novas formas de mobilidade, de recursos energéticos, de recolha e tratamento de resíduos, de sustentabilidade - estratégia que deverá convocar diferentes áreas científicas e tecnológicas, nas quais se deverá integrar o design, aliando atributos que contrariem a exacerbação exclusiva da técnica ou da estética, num exercício de equilíbrios que valorize a responsabilidade social.

Esses factores, em nosso entender, potenciam a qualificação da paisagem entendida como abordagem mais abrangente, porque plástica, funcional e simbólica na constituição de um património aberto à leitura e usufruição cívicas. Um património que considere a paisagem como reduto dos cidadãos, autores e críticos dessa mesma paisagem, ou seja, “Da cultura material construída na cidade passamos à informalidade da apropriação social da cidade como espaço de troca de valores e crenças. Vamos da visualidade da cultura à visibilidade da cidade como lugar de cultura.” (Ferrara, 2002, p. 141).

É com base nestes pressupostos que se considera a importância da participação de várias áreas disciplinares na regeneração e revitalização da cidade, a que não poderá estar alheia a convocação do design, pela ampla cobertura de contributos que aquele pode garantir e dos quais a paisagem urbana contemporânea não pode prescindir nos seus múltiplos espaços e tempos, já que “(…) uma paisagem é o fruto de uma longa, paciente e complexa aprendi- zagem, e (…) depende de múltiplos sectores de actividade.” (Cauquelin, 2008, p. 8). Com tal, a disponibilidade do design para participar nos processos de requalificação ou reinvenção da paisagem urbana remete para áreas tão diversas e essenciais como a comuni- cação, o equipamento, os ambientes, entre outras variantes, convertendo-o num contributo coerente e integrador de espaços naturais e artificiais da cidade.

Dessa participação na paisagem urbana contemporânea vimos retendo intervenções de escalas macro, meso e micro45, em que a participação do design surge nos planos funcional, estético e simbólico no âmbito das vivências e necessidades da própria urbe. Realidades explícitas na obra de Cullen (1996), quando numa lógica cartográfica46, sinaliza a cidade enquanto objecto

45 Escalas macro, meso e micro correspondentes a níveis que pretendem traduzir a noção de grande, médio e pequeno, respectivamente - e nas quais o design participa com objectos isolados ou de forma agrupada, determi- nando a amplitude da sua presença à escala da rua, do bairro ou da cidade – a que associamos ainda os factores de mobilidade que por sua vez influenciam a escala do tempo.

46 Mapeamento narrativo dos elementos da morfologia urbana a partir de uma lógica que cruza a sua leitura e interpretação, posteriormente remetidas para a escrita nas suas diferentes formas, não excluindo a sua repre- sentação imagética.

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do desenho que faculta leituras e atmosferas diferenciadas, conciliando objecto, contexto e sujeito, tangibilidades e intangibilidades, afinidades e rupturas, nostalgia e ilusão – para se deter na escala que atenta aos detalhes de um design próximo: a caligrafia metálica de protecções e bancos, a publicidade riscando paredes, degraus que esculpem o chão, cores que pintam a preto e branco, texturas que atiçam os dedos e outros que, de acordo com o mesmo autor, remetem a escala não para a dimensão concreta dos objectos, mas sim para a justaposição e a relação dimensional que esses elementos estabelecem em contexto. Constatação que atesta do crescente papel cultural que o design vem aduzindo para a transformação da paisagem urbana nas suas dimensões física e humana. Do objecto isolado de pequena escala e uso imediato, como o banco de jardim, à operação de grande escala, integradora de vários objectos que redesenham a vida dos urbanos - o design está para a configuração da paisagem urbana de forma tão intensa, quanto outras áreas disciplinares que actuam no teatro citadino.

Dessa participação alargada e em coerência com o estudo que suporta esta tese, são de referir, de acordo com a classificação de espaços público de Brandão (2002), os parques urbanos, os jardins públicos, as zonas verdes de enquadramento, as estruturas viárias, pedonais, cicláveis e rodoviárias – sendo de destacar as avenidas e ruas urbanas, também as praças, largos e ou- tros recintos multifuncionais, as frentes ribeirinhas e de mar, os parques de estacionamento, entre outros espaços públicos47.

Unidades tendencialmente integradas pelo mesmo autor em estruturas e elementos do espaço público - designadamente: elementos e estruturas naturais, elementos de expressão artística, elementos e sistemas de comunicação urbana, equipamentos e mobiliário urbano, estruturas e elementos de iluminação, infra-estruturas subterrâneas e infra-estruturas viárias/transpor- tes48 - unidades em que a presença do design foi e é fundamental na realização da paisagem urbana em diferentes escalas.

Efectivamente, o reconhecimento historicamente recente da condição e estatuto do design tem impedido que as suas múltiplas participações em espaço urbano mereçam a notoriedade e papel que lhes são devidos – já que o âmbito e atribuições desta área disciplinar, considerada no quadro interdisciplinar das urbes, comprova que tem tido uma participação importantíssi- ma na realização das cidades, com particular relevância no quadro da sua vocação socializante. Esta vocação social tem suscitado a intensificação da sua participação face às novas exigências impostas pelo apelo ecológico e pela sustentabilidade dos sistemas e equipamentos urbanos integrantes da paisagem urbana, apresentando novas soluções que conciliam a imagem, a estética, a inovação, a renovação, a diversidade, a funcionalidade, o conforto, a ergonomia e a integração ambiental. Participação e soluções que têm vindo a contar com os contributos do eco-design na realização de soluções mais sustentáveis e mais próximas do paradigma ecológico, de preservação da natureza e de promoção da qualidade da vida na cidade.

47 Classificação tipológica explicitada em Brandão et al (2002) O chão da cidade – guia de avaliação do design de

espaço público. Lisboa: CPD, pp. 24-29

48 Informação detalhada em Brandão et al (2002) O chão da cidade - guia de avaliação do design em espaço público. Lisboa: CPD, pp. 46-94.

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O design, participante na e da paisagem urbana, pelo legado de espaços e objectos e pela relação que estabelece entre eles, deve assim, mobilizar as energias dos seus autores e actores, designers da paisagem, cuja natureza não deve residir apenas na técnica e na estética, mas acentuar sobretudo o carácter social da cidade.