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A reflexão sobre a comunicação na e da cidade, e a invocação da paisagem como reduto plausíveldas sociedades urbanas, impele-nos a considerar as territorialidades difusas em que se cruzam a arte e o design na urbe contemporânea. Abordagem que encontra fundamento nas cumplicidades disciplinares que as duas áreas protagonizam e na sua implicação histórica, estética e cultural na identificação de espaços das cidades.

Previamente à análise crítica do papel e da relação simbiótica entre a arte e o design em con- texto urbano, reconhece-se a necessidade preliminar de explorar alguns aspectos conceptuais clarificadores da relação entre as duas áreas. Recorremos a Bruno Munari, mais precisamente à sua obra Artista e Designer, para desvelarmos diferenças e afinidades capazes de ampliar a nossa compreensão sobre a sua participação e presença no espaço público.

De acordo com o autor, e na linha de D´Orey (2007), definir arte constitui uma tarefa quase paradoxal “(...) em grande parte devido às surpreendentes e filosoficamente perturbantes mutações (...)” (p. 9) que vêm acontecendo na prática artística nas últimas décadas. Asser- ção que leva Munari (2004) a referir-se à evolução de práticas difíceis de definir, talvez por culpa da Bauhaus, em que da relação entre arquitectos, pintores e escultores surgiu aquilo a que alguns artistas designaram como design artístico e que mais não seria que antidesign - “(...) ou seja, projectos de objectos de uso corrente cheios de fantasia mas destituídos de técnica.” (p. 10).

O autor contrapõe, ainda, o artista puro ao designer, referindo o primeiro como dotado de

“(…) ideias subjectivas, absolutas, indiscutíveis (…)”, e o segundo de carácter “(…) objec- tivo, racional, exacerbadamente lógico (…)” (p. 12). Contudo, admite que o design revela a

“(…) incorporação de elementos de actividades artísticas (…)” (p. 25), o que nos permitirá inferir da permeabilidade entre as duas áreas, nas quais e segundo Munari existe a imagina- ção, propriedade e ferramenta do artista, e a criatividade, qualidade e recurso do designer. Do sonho do artista em aceder ao museu e do designer em ver materializado o seu projecto em objecto físico, cujo acesso ou aquisição foi durante tempos reservado às elites, assistimos hoje e em síntese à transferência das produções artísticas e de design para o domínio pú- blico – sendo que no limite “Um objecto pode simbolizar coisas diferentes em momentos diferentes, e nada noutros momentos. Um objecto inerte ou puramente utilitário pode vir a funcionar como arte, e uma obra de arte pode vir a funcionar como objecto inerte ou puramente utilitário.” (Goodmann, 2007, p.133).

A amplitude desta afirmação permitir-nos-á, desde já, adiantar uma definição de arte pública que a reitera nos seus aspectos essenciais, e coloca a arte e o design num plano que clarifica o âmbito da nossa reflexão.

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Assim, Remesar (2003) define arte pública como “(...) a prática social cujo objecto é o sentido da paisagem urbana mediante a actividade de objectos/acções de uma marcada componente estética, sendo assim que uma parte dos elementos de mobiliário urbano encaixariam nesta definição. Se o objecto de Arte Pública é produzir sentido para áreas territoriais, o seu objectivo é co-produzir o sentido de lugar em consonância com as práticas de design urbano que formam a morfologia do espaço público” (p. 39). São referências e fundamentos que nos permitem desvelar algumas confluências possíveis entre a arte e o design no contexto das cidades historicamente disponíveis para abordagens resultantes das variabilidades de cariz social, político e cultural.

Assim, a cidade antiga foi capaz de conferir carácter simbólico aos seus espaços integrando objectos que da mitologia à genealogia ilustre dos seus heróis, transitando pela religião ou pelas grandes efemérides, foram capazes de instituir lugares a partir da dignidade e nobreza que as suas obras de arte representavam.

A densidade desses lugares urbanos, validada pela erudição das suas obras e complementada pelo desenho e escala dos espaços que as integravam, a que não foi diversa a relação íntima entre a escultura e a arquitectura, indutoras de respeito e propiciadoras de fenómenos de reconhecimento e apropriação pública. A arte, recurso tendencialmente realista e facilmen- te entendível, remeteu-se posteriormente a uma perspectiva mais abstraccionista, aberta a múltiplas relações e interpretações.

Pois, “Em todos os períodos históricos, a cidade, o território e as suas relações reflectem a sua condição hierárquica e simbólica, pelo que o poder em determinados períodos históricos se tenta identificar com os mitos e enquadrar o imaginário colectivo, pois encontra aí a validação da sua dimensão transcendental.” (Duarte, 2008, p. 129). A cidade contemporânea, subordinada a lógicas diferenciadas, revela-se como território disponível para múltiplas metamorfoses49 geradas nos campos de uma materialidade (in) certa, com consequências sensíveis no comportamento urbano, e por consequência, no entendimento que sobre a cidade espectáculo50 parece (re)desenhar-se.

Os hibridismos contemporâneos promovido pelas artes, pela arquitectura e pelo design têm tornado assim, possível, a concretização de soluções até há pouco inviáveis ou supostamente inimagináveis – projectos e objectos que desvendam novas experiências e diferentes níveis de fruição resultantes das mudanças operadas no campo científico, tecnológico e social – e que têm convertido a cidade em ecologia experimental.

É a cidade, cuja imagem passou a conviver com uma semântica efémera, agitando as novas linguagens do tecno-digital, autónomas ou sobrepostas sobre cenários patrimoniais que al- teram as relações de aproximação entre espaço e tempo, pela (re)criação de novas imagens e de novos rituais urbanos. Realidade que Warnier (2002) parece contrariar quando assevera

49 Associadas ao processo de transformação ou modificação que ocorre no espaço urbano e que em síntese traduzem a história da própria cidade.

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que “A produção de conteúdos efémeros constantemente renovados é uma actividade de risco.” (p. 55).

Efemeridade e utopia que vêm alimentando novos referentes como condição para a afirmação da cidade sempre criativa, antecâmara para uma inovação que exige novos futuros – pela vocação transitória pelo carácter alternativo que a própria cidade anseia, potenciada pelas tangências antes inusitadas entre a arte e o design, cujas fronteiras surgem agora mais ténues, pela implicação resultante do diálogo interdisciplinar que o fazer cidade exige.

Das resultantes desta relação cultural fica a possibilidade dúplice da sua percepção, ou a dúvida que autoriza a interpretação múltipla que resulta dos recursos formativos, interpre- tativos e culturais actuais, convicção que a arte e o design contemporâneos vêm acentuando no âmbito da educação formal51 ou informal52 dos seus agentes. Artistas e designers, cujos processos de criação e inovação não prescindem da imersão em territórios comuns, como condição para um entendimento mais aprofundado dos seus universos de acção.

A relação de aproximação formal e conceptual, representativa de dinâmicas que acontecem nos meandros das correntes e tendências vigentes, têm por fundo o problema da imagética – pois tratam-se de objectos e contextualizações que radicam cada vez mais no campo aberto das artes visuais, agora sujeito às virtualidades do digital.

As metodologias e tecnologias subjacentes à consecução das várias soluções decorrem so- bretudo de estratégias híbridas, oriundas das práticas artísticas e de design, o que torna a legitimação pública dos objectos e espaços apenas possível por adição física e psicológica dos próprios utilizadores e fruidores – o que nos permite inferir da tendencial propensão destas áreas para a promoção de experiências sensoriais que confisquem a atenção do público. Convicção que nos leva a considerar actualmente o design no âmbito das subjectividades crescentes da interacção utilizador-objecto, situado ou não em contexto espacial, e que convoca os aspectos sociais e simbólicos para a sua análise (Norman, 2004). De acordo com o autor, a cognição e a emoção são inseparáveis no processo de design, condição que converte os objectos e espaços em realidades sujeitas à apreciação e/ou aceitação dos seus destinatários – afinal, uma condição próxima da obra de arte.

Aquela asserção leva-nos a invocar também o carácter lúdico e pedagógico de espaços e objectos geradores de situações em que a propensão criativa dos sujeitos utilizadores acon- tece de forma livre e adquire maior expressão quanto maior for o potencial subjectivo da realidade – podendo estabelecer-se neste quadro a relação entre as questões da forma e da função e do imaginário reivindicado pelas artes.

É o caso dos sistemas activos e interactivos que incorporam jogos de água, som e imagem, as esculturas virtuais dinâmicas, o vídeo-arte, os jogos de espelhos, os objectos que, tendo por referência a arte cinética, revelam imagens cuja plástica apelam à terceira dimensão, entre

51 Modelo que remete para um sistema de educação institucionalizado que, garantindo o desenvolvimento dos aprendentes, obedece a uma estrutura temporal hierarquizada em diferentes ciclos e níveis de formação, por sua vez centrados em orientações curriculares adequadas.

52 Processo circunstancial e espontâneo que decorre de experiências de vida a partir do estabelecimento de relações sociais, ambientais e culturais.

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múltiplas outras possibilidades no contexto relacional em que o design se associa, viabilizando espaços, equipamentos e soluções que tornam possível a realidade ou a sua representação – pela exploração (in)corpórea do ponto, da linha, da forma, da textura e da cor.

No âmbito da presença da arte em contexto urbano, merece ainda referência, para além das manifestações da live art na relação com o património e equipamento urbanos, a actuação dos graffers, deixando marcas e códigos simbólicos de apropriação territorial, como reacção ou atitude política face ao contexto e à necessidade de se afirmarem em espaço público. Comportamentos de reacção à cidade e à sociedade, cada vez mais mimética nas atitudes, o que obriga à (re)interpretação destes fenómenos à luz daquilo que são os princípios e justificações dos seus autores.

Aos casos anteriores deveremos aditar a iluminação cénica e a land-art como expressões que fundem arte e paisagem, “(…) como método de implicación para inducir a la reflexión y para generar un contacto con un lugar, un contacto físico o mental pêro, en cualquier caso, un modo de entrar a formar parte de un ecosistema en constante transformación.” (Galofaro, 2004, p. 101), reforçando-se assim o carácter público da função artística.

Outras realidades urbanas apresentam gestos que denunciam um carácter ambíguo, em que o design se disponibiliza ao uso, e a arte (de)termina a anatomia global do objecto, capaz da récita poética em espaço público.

Destes novos compromissos manifestados pela arte e pelo design em espaço público, im- porta recuperar a ideia das coreografias urbanas, para referir que constituem manifestações incontornáveis que pontuam e valorizam o imaginário das cidades, reforçam a identidade dos contextos nos quais resta sempre a expectativa de os podermos encontrar e com eles interagir na multideterminação dos seus efeitos.

É na aceitação e entendimento dos diferentes discursos e no carácter público das manifes- tações que integram a arte e o design, que poderão residir novas formas de realizar cidade e valorizar os espaços de sociabilidade, como espaços multifuncionais de cultura e de reflexão colectiva, tendo por referentes objectos que traduzem ideias e ideais – que afinal, são o reflexo de cada cidade e da sua sociedade.

2.2 DESIGN E IDENTIDADE – uso e apropriação da cidade