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Toda pessoa se constitui a partir de seu meio social, de suas relações pessoais, de seus antepassados, de seu tempo histórico e outras variáveis. Como a pesquisa empreendida se pauta pela memória dos pioneiros de Ceilândia, acredito ser pertinente relatar um pouco de minha trajetória de vida, de minhas raízes, a partir de minhas memórias, uma vez que também está inter-relacionada, pois, à história da cidade e do país, interligada ao todo.

Meus pais, que não mais pertencem a esse plano terreno, foram retirantes nordestinos como tantos outros que saíram da região para os grandes centros. Vieram para o planalto central em busca de dias melhores. Saíram precisamente do estado do Piauí, e chegaram ao Distrito Federal em 1968. Meu pai, João Luiz do Nascimento, nasceu em 1922 em Altos, no Piauí, e minha mãe, Inês Ribeiro Soares do Nascimento, nasceu em 1928 em Beneditinos, também no estado. Ambos vieram a se tornar agricultores, como os meus avós, em um país que era predominantemente agrícola na primeira metade do século XX. Apesar do imenso quantitativo de trabalhadoras e trabalhadores rurais, naquele contexto, mais da metade de terras cultivadas no Brasil estavam concentradas nas mãos de pouquíssimas famílias, conforme descrevem Alencar, Carpi e Ribeiro:

Em 1940, as propriedades latifundiárias de mais de 500 hectares correspondiam a 3,11% do número total de estabelecimentos rurais do país, mas ocupavam 59,23% da área agrária total. Ou seja: bem mais da metade das terras pertence a 3% das famílias proprietárias moradoras do campo. (ALENCAR, CARPI, RIBEIRO, 1996, p. 330)

Isso significa que, apesar de agricultores, meus pais não possuíam nem a segurança de uma terra própria que pudessem cultivar, garantindo autonomia financeira e o futuro da família; nem partilhavam da riqueza gerada pelos esforços que despediam diariamente, sendo explorados em propriedades rurais sem quaisquer possibilidades de ascensão. Ao se casarem, foram morar em

Pedreiras, no Maranhão. Meu pai tinha grande habilidade para o comércio e, para sobreviver, abriram uma mercearia; no entanto, a economia mudou e eles foram afetados. Em conseqüência disso, viram-se obrigados a emigrar para o Distrito Federal. Enfrentaram várias mudanças, além da geográfica; tiveram que suportar a mudança climática, por exemplo, saindo de uma região quente como o Nordeste, que chegava a acusar mais que 30º, para um local no qual, em época de inverno, as temperaturas alcançavam menos de 10 graus centígrados.

Vieram com poucos recursos e mais quatro filhos, pois a filha mais velha, Maria José da Conceição, então com dez anos de idade, já estava na casa de uma irmã de minha mãe, tia Joaquina Ribeiro, na cidade de Taguatinga, DF. Os demais filhos, meus irmãos, contavam a idade de oito anos (José Wilson do Nascimento), seis anos (Filomena Ribeiro do Nascimento), três anos (Francisco Luiz do Nascimento), e o filho caçula com um ano (João Luiz do Nascimento Filho).

Após a chegada, logo meu pai comprou um barraco na Vila Tenório. Um ano após a mudança, me tornei o novo caçula. Assim, nasci em Brasília, no Hospital de Base, sendo o único “candango” da família, como tratavam o então recém-nascido. Antes de meu nascimento, minha mãe havia perdido um filho em trabalho de parto.

Além de vagas de emprego e melhores condições de vinda, outro dos motivos principais que meus pais reafirmavam terem tido para vir morar em Brasília, e que retornava de forma recorrente em suas falas, era a chance de melhor formação para os descendentes: “Viemos para Brasília para buscar estudo para os nossos filhos”. Meus pais sabiam ler, mas não fluentemente; como eles mesmos afirmavam: “Tinham pouco estudo”. Relatavam que, na juventude, tiveram aulas informais; minha mãe contou que aprendeu a ler na casa de um “conhecido”, ou seja, nenhum dos dois freqüentara o ensino formal na infância. Esta situação comprova a relevância da atuação de uma colega, professora Vânia Maria do Rêgo Silva Costa, da Secretaria de Estado da Educação do DF (SEEDF), que, em suas palestras aos professores da EJA, tem o hábito de indagar à plateia: “Quem aqui tem os pais formados com o ensino médio completo?” Normalmente, pouquíssimas pessoas levantavam os braços, após o que ela realizava uma nova pergunta: “Quem aqui tem os pais com ensino

superior?” Diante dessa segunda pergunta, conforme os relatos da professora, não raro havia locais onde ninguém levantava o braço. Então, concluindo essa etapa, ela fazia uma última questão: “Por que será que nossos pais não tiveram escolaridade na idade adequada?” A partir dessa “provocação” e lamentável constatação, iniciava um debate e uma análise histórica acerca da educação em nosso País.

O grande contingente de pessoas contemporâneas de meus pais, nascidas em famílias que viviam da agricultura e eram crianças nos anos 30, gerações que moravam no interior do País na primeira metade do século XX, quando o Brasil era um País predominantemente rural, impossibilitadas de usufruírem de direitos básicos como a Educação, sendo frutos de uma total ausência do Estado, delineia um contexto social amplo, no qual apenas os filhos das elites tinham o privilégio de estudar. Antonio Gramsci aborda esta diferença histórica já no contexto europeu:

A educação superior ou universitária, inclusive porque muito cara, era reservada a poucos, aos filhos de famílias grandes pela nobreza ou pelos rendimentos, sem por isso ser vetada aos mais pobres, desde que obtivessem, graças ao talento, uma bolsa de estudos. Os outros, a grande maioria, deviam se contentar com uma instrução, boa sem dúvida, mas fundamentalmente técnica e profissional, que os preparava para os ofícios não diretivos, que mais tarde seriam chamados a desempenhar nas indústrias, no comércio, nas administrações públicas. (GRAMSCI, 1982, p.89)

Nesse sentido, meus pais e tantos outros ilustram a situação da educação brasileira ao terem negados os meios para que pudessem estudar e, diante do fato, viessem mais tarde a se tornar público da EJA que, naquela época, ainda não existia com a nomenclatura e forma atuais. A situação da educação espelha um País com inúmeros problemas, no qual a condição educacional do povo não é enfrentada com a devida relevância. Nesse sentido, o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932) pontua a questão:

Na hierarquia dos problemas nacionais, nenhum sobreleva em importância e gravidade o da educação. Nem mesmo os de caráter econômico lhe podem disputar a primazia nos planos de reconstrução nacional. Pois, se a evolução orgânica do sistema cultural de um país depende de suas condições econômicas, é

impossível desenvolver as forças econômicas ou de produção, sem o preparo intensivo das forças culturais e o desenvolvimento das aptidões à invenção e à iniciativa, que são os fatores fundamentais do acréscimo de riqueza de uma sociedade. (AZEVEDO, 2010, p.33)

A ditadura militar criou programas para atender os adultos sem escolaridade adequada, mas sem pleno investimento na educação como forma de crescimento. Muitos cidadãos, como meu pai, que contavam com “pouco estudo”, e com quase cinqüenta anos de idade, se viram diante da necessidade de voltar a estudar para buscar capacidades para o mercado de trabalho que, de alguma forma, estava exigindo melhor “qualificação formal”. Meu pai matriculou-se no Movimento Brasileiro de Alfabetização - MOBRAL, pois era necessário comprovar que estudava:

Figura 4: Carta de recomendação, 1970

Fonte: Acervo do pesquisador

Para além dos estudos, apelou à influência e aos contatos da Igreja Católica para conseguir um emprego de vigilante, solicitando ao pároco da Paróquia São João Bosco, padre Roque, que redigisse uma carta de referência. Naquela época, o referido padre era uma das lideranças na chamada Cidade

Livre, hoje o Núcleo Bandeirante. Chamo a atenção para a data da carta do padre, setembro de 1970, quando o Brasil estava sob um regime militar ditatorial que durou de 1964 a 1985, no qual se vivia o chamado “Milagre Econômico1”, época também em que a seleção brasileira de futebol se tornava tricampeã mundial, vencendo a Copa do Mundo, que foi sediada no México, o que imprimia um contexto eufórico no País apesar da gravidade da condição governamental.

A então “Cidade Livre” obteve esse nome porque, na época da construção de Brasília, era o único local no DF no qual era permitido entrar livremente e construir uma moradia, por exemplo; diante disso, diversas ocupações se formaram em suas proximidades, segundo relato de Ribeiro:

Chamava-se Cidade Livre justamente por ser, inicialmente, a única área onde se podia entrar livremente para estabelecer residência ou desempenhar uma atividade e por ser uma área para atividades privadas, na qual se incentivava o estabelecimento de comerciantes mediante a isenção de impostos. A intenção era formar um núcleo de comércio para atendimento da população imigrante. (RIBEIRO, 2008, p. 71)

No entanto, a Cidade Livre já havia passado do limite espacial e demográfico originalmente previsto. Para absorver o grande número de trabalhares que diariamente chegavam, os operários construíam em seus arredores suas moradias, de forma a fazerem surgir novas invasões.

Diferentemente de outros autores, a pesquisadora Ammann (1991) refuta a denominação “invasão” e aborda como “ocupação”, um termo mais justo para reportar aos trabalhadores que, diante da forma que foram tratados (principalmente no que se refere ao problema habitacional), se viram na necessidade de “ocupar” e não “invadir” um espaço para residir com a família:

Dessa forma a ocupação ia se expandindo e, em março de 1970, já existiam 14.607 barracos que abrigavam 70.128 pessoas nas Vilas Tenório, IAPI, Esperança, Bernardo Sayão e Morro do Querosene, conforme dados de pesquisa realizada pelo governo do Distrito Federal. A partir de então, o problema passa a

1Fonte: https://www.cartacapital.com.br/economia/a-economia-na-ditadura – Artigo Economia na

preocupar seriamente os órgãos públicos, que instituíram o Grupo Executivo de Remoção (GER) e a Campanha de Erradicação de Invasões (CEI), esta dirigida pela esposa do governador do Distrito Federal. Da CEI nasceu o nome da cidade: CEIlândia. (AMMANN, 1991, p. 71)

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