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Pode-se afirmar que a proto-história do teatro em Cabo Verde começa pouco depois do início do povoamento, na ilha de Santiago. O historiador Correia e Silva, por exemplo, defende que entre os séculos XVI e XVIII a sociedade estava imbuída de uma imensa dose de teatralidade:

A antiga sociedade cabo-verdiana (que definiríamos simultaneamente de escravocrata, mercantil, crioula e católica) é, sob muitos aspectos, teatralizadora dos momentos centrais da vida. Nela, o teatro e a vida social se confundem e se interpenetram. Há um gosto – exagerado aos olhos de hoje – de encenação pública e ritual. A Ribeira Grande, e atual Cidade Velha, foi um grande palco. Imperava na urbe um catolicismo, mas também uma vida civil e militar, barrocos. A tomada de posse dos governadores e ouvidores vindos do Reyno, aguardada sempre com ansiedade, requeria um protocolo que envolvia a encenação de pessoas, de indumentária, dos gestos e dos lugares. (2005:6)

Sendo certo que em todos os povos se encontram resquícios de atividade dramática, quando esta se torna mais complexa é de esperar que essa mudança se tenha dado como consequência de modificações sociais e politicas. Assim, em todo o processo de formação do povo cabo-verdiano o teatro foi estando presente e terá tido alguma influência na sua progressiva caracterização identitária, com a consolidação de manifestações culturais parateatrais – quer dizer, fenómenos que, não sendo teatro, evocam e contém neles uma elevada teatralidade. Estão nesta categoria as tradições populares, as festas e os mitos, já referenciados no capítulo anterior.

No período entre o século XV e XVIII, na cidade da Ribeira Grande de Santiago, não havia dimensão da vida que fosse objeto de maior teatralização do que a morte. “A morte na velha Ribeira Grande era uma ópera encenada” (Correia e Silva, 2005:6). No planeamento do funeral tudo era tratado ao pormenor pelos morgados ou grandes comerciantes: atores principais ou secundários, figurantes, canções, choros, preces e novenas. Os percursos eram previamente delineados e o guarda-roupa definido. Tudo era espetacular e ostentatório; “O teatro da morte era a arma contra a ideia absurda da morte. (…) A teatralização da morte visa perpetuar a memória da vida dos grandes «enquanto o mundo durar». Isso era o que se pode chamar de teatro «par le haut.»” (idem)

Se havia esse tal teatro par le haut, ou seja, o teatro do poder feito pelas classes situadas na parte superior da pirâmide social da época, encenado pelos poderosos para deleite dos seus

64 semelhantes, com o objetivo de serem admirados e, sobretudo, lembrados pela ralé plebeia, também havia o outro teatro, o par le bas, o teatro social dos pobres e dos espoliados de ocasião. Estão dentro desta categoria, os Reynados, com as suas hierarquias, personagens, indumentárias e desfiles e as Zambunas.

O historiador Daniel Pereira enumera quatro acontecimentos que podem ser vistos como práticas performativas: a Esteira, ligada ao culto dos mortos, transversal a todo o tecido social; o

Reynado, que o autor considera ser um provável antecedente da Tabanca; o Foro ou Mel,

conhecida como festa das Cinzas e que hoje tem forte presença na ilha de Santiago; e as

Zambunas, conhecidas pelos antigos como “brincadeiras” (2005:335). Estas manifestações,

antepassadas de tradições populares com expressão contemporânea, são analisadas à luz de documentos datados entre 1762 e 1772 e vem comprovar a existência desde os tempos mais remotos de um sincretismo religioso e cultural, de carácter espetacular.

A Esteira, prática comum que se mantém, é uma manifestação ligada ao culto funerário e terá chegado às ilhas de Cabo Verde com os escravos negros do continente africano. Pereira (2005) sublinha que o Tchôru da Guiné-Bissau, região natural da maioria dos escravos comercializados na época, é semelhante ao que as carpideiras cabo-verdianas produzem. É, pois, um hábito que vem de longe, esse de chorar os mortos conversando com eles. Fazem-se perguntas, rogam-se pragas pelo abandono repentino, contam-se com detalhes minuciosos episódios de vida em comum, recordando as virtudes do defunto, enviando, por seu intermédio, mensagens a outros finados. Ou seja, chora-se, falando. Um falar chorado, dramático, teatral, sentido e autêntico que tem as suas raízes na Esteira renascentista. O nome vem do utensílio. A esteira é um tapete artesanal feito com palha e muito utilizado no meio rural, de norte a sul do arquipélago. Na ilha de Santiago ainda existe a tradição de estender a esteira durante oito dias após a confirmação oficial do óbito de um familiar, sendo por isso um objecto intimamente ligado ao culto dos mortos.

O Reynado, antiga festa de Ribeira Grande de Santiago é considerado pelos historiadores Correia e Silva e Daniel Pereira como um antepassado da Tabanca (Silva, 2005; Pereira, 2005). Ocorria por ocasião do dia de S. João, e podia prolongar-se pelo período das festas Juninas. Uma festividade anual, com reis, Irmandades e os Santos padroeiros, em que os primeiros eram coroados pelos párocos das freguesias, fazendo-se presente, de novo, o sincretismo religioso já habitual neste povo:

65 (…) O Reynado, que he annuo, em todas as freguesias desta ilha segundo a sua extenção se

illeigem tantos homens, a tantas mulheres para naquele anno servirem de Reis e Rainhas, os quaes todos os Domingos, e dias Santos do anno saem pela Freguezia com hum tamboril, e gaita a pedir para o Reynado, e a estas se agregão muitos homens, e mulheres, que os. Acompanhão, sem curaram do preceito de ouvir missa, e à noite, com o que tirarão e com o que de suas cazas tem dam hum banquete, em que se consuma inteiramente o pecado da gula tanto em comer, como em beber, e deste passão ao da lixuria (Andrade, cit. Pereira,

2005:338).

O foro ou mel é uma prática que corresponde às atuais Cinzas, socialmente relevante na ilha de Santiago. Ao contrário do que indicam os cânones da Igreja católica, que apregoa um rigoroso jejum a começar na quarta-feira de cinzas e durante todo o período da Quaresma, em Santiago dá-se uma inversão dos preceitos: é este o dia em que mais se come, ou como se diz no crioulo santiaguense, kumi pá ratxa kósta 30. Atualmente, as Cinzas são celebradas logo após o Carnaval: no dia concebido para o jejum e a abstinência, está reservado um almoço farto com comida regional, pratos típicos, como peixe seco ou cuscuz com mel, onde famílias se juntam, o que não deixa de ser curioso num país onde a maioria da população é católica.

As Zanbunas, ou brincadeiras, são folguedos populares contidos no batuque, confundindo-se com este, sendo um termo que hoje caiu em desuso. A literatura etnográfica define o conceito folguedo popular como “todo o fato folclórico, dramático, colectivo e com estruturação. Dramático não só no sentido de ser uma representação teatral, mas também por apresentar um elemento especificamente espetacular” (Lima, 1962:11), definição que se enquadra no batuque cabo-verdiano. Câmara Cascudo (2000), folclorista brasileiro, define folguedo popular como uma manifestação folclórica que reúne as seguintes características: letra, música, coreografia e uma temática. As Zambunas podem, portanto, ser consideradas antecessoras do batuque cabo-verdiano, manifestação cultural que tem forte expressão no teatro cabo-verdiano.

Como bem lembra Maria João Soares (2005), a manifestação da resistência e da alteridade social dos habitantes oriundos do continente africano, fazia-se sobretudo pela via lúdica-cultural e das práticas religiosas, impossíveis de proibir por decreto. Bailes noturnos e ruidosos como as

zambunas, práticas funerárias como a esteira, cerimónias de batismo e casamento ou rituais

crioulos sobrepostos às festividades solenes do calendário litúrgico como os carnavais, os

Reynados ou as cortes, eram as manifestações mais ostensivas contra o modo colonial:

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Os pouco e empobrecidos escravocratas remanescentes nada faziam para proibir estas afirmações de diferença, até porque muitos deles, também já distanciados do antigo ethos cultural escravocrata, começam a participar em algumas delas, mesmo que o fizessem dos seus sobrados. (p.9)

Estas práticas lúdicas e religiosas de diferenciação cultural, cujo controlo pelas autoridades vigentes se mostrava inviável, “construíram, imperceptivelmente uma memória e historicidade que se revelaria fundamental para a construção identitária de Cabo Verde moderno e pós- colonial” (Ribeiro, 2011). Essa é razão para que as consideremos precursoras cénicas, ou dito de uma outra forma, as primeiras manifestações parateatrais cabo-verdianas.