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Results from the study on level of living conditions

Em Alice no País das Maravilhas entramos em contato com diferentes formas de transgressão contextual: as linguísticas, as dos valores e convenções sociais e as de caráter histórico.

As transgressões linguísticas estão presentes nos jogos de palavras em que vocábulos assumem significados diferentes daqueles que são esperados pelos interlocutores, na aparente incoerência dos diálogos e nas narrativas feitas pelas personagens. Os significados primeiros das palavras são trocados por outros significados; juntos, vocábulos adquirem sentido na enunciação, como o caso de amor, cego, morcego que sobrepostos se amalgamam e formam outros vocábulos.

As transgressões de natureza linguística ocorrem também nos contos orais realizados por algumas personagens, como no caso já transcrito neste trabalho em que o Camundongo intenta contar uma história seca (direta, sem meneios) para que os ouvintes se sequem. Paradoxalmente ao sentido do vocábulo seco (objetivo), a história está repleta de palavras longas e sem sentido aparente. Temos ainda a história contada pela Lebre de Março e pelo Chapeleiro sobre três meninas que vivem no fundo de um poço e puxam melado do fundo dele, quebrando com a coerência de que para puxar era preciso estar fora do poço. Além da aparente falta de coerência, as narrativas dentro do conto perdem o caráter fundamental de qualquer sequência narrativa: o conflito.

Segundo Adam (2008), o conflito constitui o núcleo do processo narrativo, elemento perturbador da situação inicial e que desencadeia uma série de ações

que promovem uma mudança, uma transformação, chamada pelo teórico de situação final. Adam (2008) divide ainda o núcleo do processo da sequência narrativa em três categorias: o nó, a re-ação ou avaliação e o desenlace ou resolução. Em Alice, as histórias recontadas pelas personagens cessam na ambientação ou na situação inicial, não percebemos nunca uma elaboração de um conflito adequado para elas. Vejamos:

- Você já esteve com a Falsa Tartaruga? - Não, nem sei o que é isso.

- É coisa que serve para fazer Sopa Falsa de Tartaruga. - Nunca vi nem ouvi falar – disse Alice.

- Então venha já, que ela lhe conta a sua história – disse a Rainha. (...)

Não tinham ido muito longe, quando viram a Falsa Tartaruga à distância, triste e sozinha em cima de uma pedra. Ao se aproximarem, Alice ouviu que a Tartaruga dava uns suspiros de cortar o coração. Ficou morrendo de pena:

- Por que ela está tão triste? – perguntou ao Grifo.

- É tudo mania dela, sabe? Não tem tristeza nenhuma. Venha! (...)

- Essa mocinha aqui...- apresentou o Grifo – ela quer saber da sua história, é isso...

- Eu vou contar – disse a Falsa Tartaruga, num tom cavernoso. – Sentem-se aí, os dois, e não digam nada até eu terminar.

Eles se sentaram e ninguém disse nada durante alguns minutos, Alice pensou: “Não consigo imaginar com essa história vai acabar, se não consegue nem começar”.

- Há muito tempo – disse a Falsa Tartaruga, finalmente – eu era uma Tartaruga de verdade.

Essas palavras foram seguidas de um silêncio comprido, apenas quebrado por algum guinho ocasional do Grifo e pelos soluços altíssimos da Falsa Tartaruga.

Alice já estava quase levantando e dizendo:

- Muito obrigada pela sua história. Interessantíssima...

Mas não consegui deixar de achar que devia haver mais alguma coisa. Por isso, ficou sentada e não disse nada.

- Quando nós éramos crianças – continuou, finalmente a Falsa Tartaruga (...) fomos à escola do mar. A professora era uma velha Tartaruga – que nós chamávamos Dona Jabotá...

- Se ela era uma Tartaruga e não um Jaboti, por que é que vocês chamavam de Dona Jobotá?

- Porque mal a gente chegava na escola, ela já botava ideia e lições nas nossas cabeças, claro! – respondeu a Falsa Tartaruga, zangada. – Francamente você é uma chata...

(...)

Finalmente, o Grifo disse para a Falsa Tartaruga:

- Vamos em frente, companheira... não fique o dia todo parada... (...)

E a Falsa Tartaruga continuou, com essas palavras:

- É isso, nós fomos à escola do mar, mesmo que você não acredite... - Eu não disse que não acreditava – interrompeu Alice.

- Disse, sim – insistiu a Falsa Tartaruga. (...)

- Lá nós tivemos a melhor educação possível. Para falar a verdade, nós íamos à escola todo dia.

- Eu também ia à escola todo dia – disse Alice. – Não tem nada de mais nisso, não precisa ficar tão prosa.

- E a sua escola tinha aulas extras? – perguntou a Falsa Tartaruga, meio aflita.

- Tinha sim. Aulas de francês e música.

- E de roupa lavada, tinha? – insistiu a Falsa Tartaruga. - Claro que não! – respondeu Alice ofendida.

- Ah, então não era uma escola tão boa... -disse a Falsa Tartaruga aliviada. – Na nossa, tinha. Vinha bem no fim da conta. Extras: francês, música e roupa lavada.

- Vivendo no fundo do mar, não podia fazer muita diferença (...)

- Bom a gente tinha aula de Mistéria... - respondeu a Falsa Tartaruga, contando nas barbatanas – Mistéria Antiga e Mistéria Moderna... E Jografia. Também tinha aula de Parte. A professora de Parte era uma Enguia Velha, que vinha uma vez por semana. Mas as aulas de Desdenho quem dava mesmo era a ajudante dela, uma Traça, que nos ensinava a traçar todas as linhas. E a Enguia ensinava o resto: era ela quem punha a gente no colo e fazia cócegas, para as aulas de Colo-rir, e era ela quem se enroscava feito um cinto em volta da gente, ficava só com o olho de fora e ensinava Cintura a Olho...

(...)

- O julgamento está começando. (MACHADO, 2003, p. 91-108)

Torna-se evidente que a história da Falsa Tartaruga, assim como outras histórias dentro do conto Alice no País das Maravilhas, não possuem um conflito, nem mesmo percebemos de que modo a situação final é diferente da inicial. Alice está engajada na história, respeitando o princípio da aceitabilidade, entretanto a história não flui e a protagonista pensa em sair de lá. As narrativas recontadas pelas personagens perdem seu fio condutor e são interrompidas por outras situações narrativas; no caso da transcrição, um julgamento para saber quem roubou as tortas da Rainha de Copas. Esperávamos que a Falsa Tartaruga nos contasse como ela havia deixado de ser uma Tartaruga verdadeira e que isso teria alguma relação com a vida escolar dela, contudo terminamos sem saber o que aconteceu à personagem para que ela se transformasse numa Falsa Tartaruga.

Vemo-nos obrigados a reconstruir ou abandonar a história da Falsa Tartaruga, ou ainda, compreender, num princípio de respeitabilidade à coerência discursiva, em que se torna legível a referência a diálogos entre crianças sobre escolas em que estudam - uma acha sua escola melhor que a do outro. Nesse ponto é que reside a verossimilhança da situação enunciativa em que estão envolvidas as personagens, afinal o diálogo se assemelha à realidade sem ser a

verdade. Concordamos com Kristeva (1969), que a literatura assume um papel transcendente, acima do discurso real em que ocorrem afrontamentos em relação às situações reais e às instituições discursivas. A literatura não é somente o espelho do real, mas transcende essa realidade:

La litterature elle-même, arrivée à la maturité qui lui permet de s´écrire aussi comme une machine e non plus uniquement de parler comme un miroir, s´affronte à son propre fonctionement à travers la parole; le mécanisme de ce fonctionement touché, l´oblige à traiter de ce qui n´est pas un problème inhérent à son trajet, mais qui la constitue inévitablement pour le recepteur (le lecteur=l´auditeur), de ce masque indispensable qu´elle prend pour se construire à travers ce masque: du

vraisemblable. (KRISTEVA, 1969, p. 149) 3

Atentemo-nos às disciplinas que são ensinadas na escola do mar. Todas elas possuem relação com as disciplinas tradicionais das escolas reais, contudo ocorre o jogo de palavras: Artes torna-se Parte, Geografia torna-se Jografia etc. Percebamos o fato de as aulas de desenho serem ensinadas por uma Traça, já que a Traça (larva de mariposa) tem em seu próprio nome embutida a habilidade de traçar (construir traços). Ocorre, nesse caso, aproximação semântica de palavras homógrafas. Processo semelhante, só que numa aproximação paronímica, ocorre com “cintura a olho” que apresenta aproximação fonética com “pintura a óleo”, além de possuir relação íntima com a situação enunciativa: a enguia se enrolava na cintura e ficava com um olho de fora. Estamos no plano daquilo que Julia Kristeva (1969), ao analisar a obra de Roussel, define por verossimilhança semântica:

La parole agglutine tout ce qui s´écarte de la structure, assimile toute difference aux normes du principe naturel. Les combinaisons sémiques les plus absurdes se vraisemblabilisent dans la parole. L´alliage de deux séries disjonctives n´apparaît absurde que d´un lieu à distance temporelle et spatiale par raport au discours produit: c´est le lieu de la différenciation logique, extérieure au lieu de la parole identifiante (...) la absurdité logique se profile comme une anteriorité indispensable au

vraisemblable discursif. (KRISTEVA, 1969, p. 159-160)4

3 A literatura, alcançada a maturidade que lhe permite se inscrever como uma máquina e não mais unicamente como um espelho, afronta-se com seu próprio funcionamento por meio da palavra; o mecanismo de seu funcionamento atingido a obriga a tratar daquilo que não é um problema inerente de seu trajeto, mas que a constitui inevitavelmente para o receptor, dessa máscara indispensável que ela veste para se construir: a verossimilhança.

4 A palavra (entendida como discurso) aglutina tudo aquilo que se descarta de sua estrutura, assimila todas as diferenças em relação às normas de princípio natural. As combinações sêmicas mais absurdas se tornam verossimilhantes dentro da palavra (discurso). A ligação de duas séries

As transgressões dos valores e convenções sociais ocorrem por meio de observações que não seriam educadas no contexto real e por meio do julgamento sobre o roubo das tortas em que as convenções são desestabilizadas (A Rainha de Copas tenta promover um desequilíbrio no julgamento, que deveria ser justo, por meio da força; solicita que se passe para a sentença “Cortem a cabeça!” antes de o julgamento ocorrer) ou ainda nos jogos de críquete promovidos pela rainha em que não se encontram regras claras. Vejamos a transcrição da passagem do capítulo em que se narra “Um chá muito louco”:

A mesa era bem grande mas os três se amontoavam num canto.

- Não tem lugar! Não tem lugar! – gritaram quando viram Alice se aproximando.

- Está cheio de lugar! – exclamou ela indignada, e se sentou numa poltrona grande, na cabeceira.

- Tome um pouco de vinho – ofereceu a Lebre de Março, num tom encorajador.

Alice olhou bem a mesa toda, e viu que só havia chá. - Não estou vendo vinho nenhum – observou.

- Claro. Não tem vinho - disse a Lebre.

- Então não foi muito educado você oferecer – disse Alice, zangada. - Também não foi muito educado você se sentar sem ser convidada – disse a Lebre de Março.

- Eu não sabia que a mesa era sua. Está posta para muito mais gente, com muito mais de três lugares.

- Você precisa cortar o cabelo – comentou o Chapeleiro, que estava observando Alice com muita curiosidade e agora falava pela primeira vez.

- Você devia aprender a não fazer comentários tão pessoais – disse a menina, severa. – É muito grosseiro. (MACHADO, 2003, p. 71-73)

Em toda a narrativa, percebemos a protagonista tentando aplicar as regras de convivência que ela conheceu no mundo real – que já se trata de uma representação e que é totalmente verossímil -, entretanto essa tentativa é frustrante para a menina, pois tudo funciona de um modo bem diverso. É consensual pensar que as convenções que regem a boa convivência entre pessoas não permitiriam que oferecêssemos a uma visita algo que não possuímos, muito menos que não a convidássemos para se sentar a mesa. No mundo fantasioso da menina, isso é possível. Trata-se de um espaço onde as normas de gentileza, educação, polidez são postas à prova. Alice, na maioria das

disjuntivas parece absurda somente do ponto de vista espacial e temporal em relação ao discurso produzido: é o lugar de diferenciação lógica, exterior ao lugar da palavra identificadora (...) o absurdo lógico se delineia como uma anterioridade indispensável à verossimilhança discursiva.

vezes, questiona essa falta de referência que as personagens do mundo maravilhoso possuem, mas sucumbe a elas, percebendo que se trata de um mundo à parte do seu. Morais (2004) diz que o século XIX marca um forte moralismo religioso e ético, além de um apego às tradições familiares. Nesse contexto moralista e convencional, torna-se lógico o apego de Alice às regras de boa convivência.

Entretanto, à medida que Alice tenta argumentar e aplicar os princípios da verossimilhança, mais ela se aproximará do mundo concreto, mais ela estará próxima de sair do labirinto em que se meteu. Como no caso do julgamento para descobrir quem roubou as tortas:

- Regra 42: Todas as pessoas com mais de um quilômetro e meio devem se retirar do tribunal.

Todo mundo olhou para Alice.

- Eu não tenho um quilômetro é meio de altura – disse ela. - Tem sim – disse o Rei.

- Quase três...- disse a Rainha.

- É, mas de qualquer modo, não vou embora. Além do mais, essa regra não existia. Vocês acabam de inventar.

- Nada disso. É a regra mais antiga do livro. - Então devia ser a número 1 – disse Alice. (...)

- Você nunca deu nem sofreu ataques, não é minha querida?

Dirigira a pergunta à Rainha, que respondeu, furiosa, jogando um tinteiro em cima do Lagarto:

- Claro que não, nunca!

(O coitado do Teco tinha parado de escrever com o dedo em sua lousa, depois de descobrir que dedo não deixa marca. Mas agora recomeçou, apressado, usando a tinta que escorria em seu rosto.)

- Então, essas palavras são um ataque contra a Rainha! (..) – Foi um trocadilho! – acrescentou o Rei, zangado.

Todo mundo riu.

- Que o júri agora dê seu veredito – repetiu ele, provavelmente pela vigésima vez naquele dia.

- Nada disso – disse a Rainha. – Primeiro a sentença, depois o veredito. - Mas que besteira mais absurda! – disse Alice em voz alta. – Como é que alguém pode querer a sentença antes?

- Cale a boca! – disse a Rainha, roxa de raiva. - Não calo! – disse Alice.

- Cortem-lhe a cabeça!

- Quem liga para vocês? – disse Alice, que já tinha crescido até voltar a seu tamanho verdadeiro. Vocês não passam de cartas de baralho... (MACHADO, 2003, p. 119-126)

É mister notarmos que as convenções sociais são quebradas, um mundo em que o esperado é substituído pelo inesperado. Para que entendamos de que modo a situação é surreal e de que modo o tipo de contexto social é desconstruído, consideramos relevante buscar apoio nos esquemas de análise contextual propostos por van Dijk (2004). Segundo o estudioso, a análise do

contexto é importante para a compreensão de um ato de fala qualquer, já que o contexto constitui, numa terminologia de Bakhtin (2003), plano de fundo para o ato de fala. Exemplifiquemos o modelo proposto: num ato de fala, um fiscal de tíquetes de trem solicita que o passageiro lhe mostre o tíquete que lhe dá direito à viagem. Tanto o fiscal quanto o fiscalizado possuem conhecimentos sobre as funções, as posições que exercem no ato de fala, bem como das relações de autoridade que um exerce sobre o outro.

Maingueneau (1996), para a construção de sua pragmática para o discurso literário, apoia-se no mesmo modelo de análise, entretanto, exclui o tipo de contexto social, a instituição e o frame. Para nossa análise do julgamento sobre as tortas, apoiar-nos-emos em van Dijk (2004) por apresentar um modelo mais completo. Primeiro, façamos uma análise de um julgamento, que mais se aproxima da representação da realidade, para depois expormos o empreendimento transgressivo de Carroll. A análise do contexto ficcional carrolliano em comparação a contextos mais verossímeis corrobora o que já expusemos sobre as transgressões dos valores e das convenções na obra literária que analisamos. Não basta para Carroll a verossimilhança, é necessário o

nonsense. Vejamos:

Tipo de Contexto Social: Institucional Público. Instituição: Poder Judiciário.

Frame: Julgamento de um fora-da-lei. Há, portanto, uma contravenção ou um crime.

A – Estrutura do frame: a) Cenário: Tribunal. b) Funções: O Rei (X) juiz

O acusado Valete (Y)

A menina Alice testemunha, ela é uma depoente (Z) O júri (W).

c) Propriedades: X tem como prerrogativa a autoridade de julgamento. Y é acusado por um crime. X exerce sua autoridade e Y tenta se defender das acusações. Z tem subsídios, pois presenciou algo ou sabe de algo para ser

considerada testemunha. W deve ter atenção ao julgamento para inocentar ou culpar Y.

d) Relação: X detém a autoridade sobre a condução do julgamento. X determina a ordem e a seriedade exigida pela situação comunicativa. Z presenciou algo sobre o delito do acusado. W se mantém em silêncio para que possa tomar decisão sobre a culpa ou inocência.

e) Posições: X julga provas sobre a possível culpabilidade de Y, esse é julgado por aquele. Z presenciou algo relevante para a condução do julgamento. Z pode inocentar ou culpar Y pelo delito.

B) Convenções do Frame:

1 – Depoentes devem falar somente na sua vez. 2 – O rei é uma autoridade e deve ser respeitado.

3 – O júri se mantém em ordem e local específico. Não tem a palavra no julgamento.

4 – Deve haver provas para a comprovação da culpa. 5 – Deve haver a ocorrência de um delito.

6 – A testemunha age como tal e nunca como um advogado de defesa. 7 – O veredicto precede a sentença etc.

Lembremo-nos de que o modelo acima constitui uma aproximação com os julgamentos reais e, por meio da leitura da obra, percebemos que a mera reprodução de contextos concretos não constitui objetivo do autor de Alice no

País das Maravilhas. O júri não se comporta adequadamente ao cenário em que

se encontra; eles escrevem com o dedo em lousas, pois não possuem tinta para fazer as anotações. Alice não age somente como testemunha; na verdade ela nem havia testemunhado nada; a menina age como a advogada de defesa do Valete acusado. A Rainha exige que se cumpra a sentença antes de o veredicto ser dado. Enfim, um contexto que exigiria ordem é desconstruído de modo a reafirmar a literatura nonsense de Carroll. Some-se a todas essas “incoerências” situacionais o fato de não haver crime nenhum, pois as tortas não foram roubadas e estiveram no Tribunal o tempo inteiro, como prova de delito que não ocorreu.

Por fim, temos as transgressões históricas, já que, num mundo em que ocorria a primazia dos contos de fadas para crianças, surge uma ruptura: a obra não traz elementos de formação moral ou cultural, pelo contrário questiona-os em toda a narrativa. Relevante perceber que Carroll tenha adotado exatamente a estrutura do conto maravilhoso como base para a construção do conto Alice no

País das Maravilhas, entretanto a adoção dessa base estrutural representa mais

um elemento transgressivo: contos maravilhosos podem ser bons, desde que esteja isentos de conteúdos de formação moral.

As situações comunicativas concretas são a base de criação da obra; portanto, os dados contextuais são importantes na medida em que revelam aspectos da obra e constituem um transgrediente para a análise discursiva e estética. Não somente a estética é relevante para que se chegue à enunciação empreendida pelo autor, mas também todo o contexto real e ficcional e, no caso de Alice, duplamente ficcional, já que não se trata, como já dissemos, de representação artística da verdade, mas de representação carnavalizada da realidade. Nesse jogo de busca de significações, autor e leitor entram em diálogo.

Pensando na importância do autor e do leitor de obras literárias, somos remetidos às colocações de Maingueneau (2005), que nos afirma que a instância de subjetividade enunciativa possui duas faces: por um lado, ela constitui o sujeito em sujeito de seu discurso; por outro, ela o assujeita. Para o autor, a rede semântica que circunscreve a especificidade de um discurso coincide com a definição das relações desse discurso com o seu outro. Assim como foi citado primeiro por Bakhtin (1998, p.118), todo enunciado de um discurso tem dois lados

concretizados pelos enunciadores (autor e leitor), faces que são indissociáveis.

É fato que o leitor desempenha um papel bastante importante na construção dos significados de uma obra literária, afinal, vê-se obrigado a interagir com os contextos e com as transgressões propostas pelos autores. A leitura de Alice no

País das Maravilhas é um exemplo disso, afinal, a interação entre autor e leitor e

a operação de vários conhecimentos por parte do último promove a interpretação literária, ou uma leitura mais adequada dos eventos narrativos. Associe-se a isso a importância de conhecermos os contextos de produção e histórico que engendram um cânone literário.