Concordamos com van Dijk (2004) quando afirma que a forma e a interpretação de uma história qualquer inserida num ato de fala podem ter uma função de ato de narração pretendida pelo ato de enunciação, ou seja, a forma como recontamos uma história traz intenções marcadas por nossa forma de enxergar o evento narrativo, caso o presenciemos, ou de recontá-lo, caso tenhamos sido informados sobre ele. Sobre os estudos dos elementos de linguística para o texto literário, Maingueneau (1995) diz que, quando se trata do gênero literário, “a narração e a noção de situação de enunciação” não recebem, necessariamente, um sentido evidente do escritor; esse deverá ser construído por aquilo que o mesmo teórico chama de paratopia, definida como a negociação difícil entre o lugar e o não-lugar, uma localização parasitária, que vive da própria impossibilidade de se estabilizar.
A situação de enunciação implica fatos de certa relação entre o momento e o lugar por meio dos quais o autor literário enuncia os acontecimentos culturais, políticos e sociais, utilizando também, a diversidade linguística cultural na obra de uma determinada região. Inferimos, por intermédio das afirmações dos dois estudiosos citados, que a forma de contar e recontar a história da menina num mundo mágico sofre a influência dos contextos histórico e geográfico em que se encontra a obra analisada. Também, parece-nos correto dizer que os contextos ficcionais de Alice constituem exemplos de paratopias, afinal ocorre a negociação difícil entre um lugar mágico e um lugar real, esse que não permitia espaço para o sonho.
Entendamos, então, o contexto histórico e de produção em que se insere a publicação do romance Alice no País das Maravilhas. Charles Lutwidge Dodgson, cujo pseudônimo literário era Lewis Carroll, nasceu em 1832 e morreu em 1898. Terceiro de dez filhos, possuía senso de proteção em relação aos irmãos mais novos, viveu a maior parte de sua vida na chamada época vitoriana (governo da rainha Vitória no período de 1837 a 1901). A Inglaterra provava de grande desenvolvimento econômico; de fortalecimento do comércio; de consolidação do poder da Coroa; de descobertas filosóficas, científicas e tecnológicas que contribuíram para a corrosão dos valores morais vigentes.
O contexto histórico exigia de autores para crianças a escritura de livros moralizantes, em que as virtudes deviam ser cultivadas. As obras primavam por valores pedagógicos e familiares e não pelo prazer de contemplação estética. A função dos autores e literatos ingleses do século XIX era a de entretenimento e de transmissão de valores morais. As crianças eram educadas para se comportar como adultas, baseando a educação dos pequenos no binômio culpa e aprovação, ambos resultavam num sentimento de medo (Morais, 2004).
Movimento semelhante aconteceu no Brasil, segundo Lajolo & Zilberman (1991b), com quem Oliveira e Palo (2006) mantêm pensamento convergente. Para as autoras, ocorre, na literatura infantil do século XIX, uma voz moralizante que definem como voz adulta. Em lado oposto, e com objetivos diferentes, encontramos a voz da criança, que é libertária e permite a contemplação estética da obra infantil. Essa voz adulta é facilmente percebida neste poema de Olavo Bilac que expomos a título de constatação da presença da voz moralizante:
Meu filho! termina o dia... A primeira estrela brilha... Procura a tua cartilha,
E reza a Ave Maria! O gado volta aos currais...
O sino canta na igreja... Pede a Deus que te proteja
E que dê vida a teus pais! Ave Maria!... Ajoelhado, Pede a Deus que, generoso,
Te faça justo e bondoso, Filho bom, e homem honrado;
Que teus pais conserve aqui Para que possas, um dia,
Pagar-lhes em alegria O que sofreram por ti. Reza, e procura o teu leito,
Para adormecer contente; Dormirás tranquilamente,
Se disseres satisfeito: "Hoje, pratiquei o bem:
Não tive um dia vazio, Trabalhei, não fui vadio, E não fiz mal a ninguém."
O poema do parnasiano Bilac, poeta parnasiano, tem sua temática voltada para a voz adulta e moralizante. A criança já inicia em dívida com os adultos, para
quem deve pagar por sua existência por meio do trabalho, além de ter de zelar por suas orações. O medo está presente no poema, a criança deve rezar para não perder a figura adulta que representa sua proteção num mundo de perigos para os não iniciados. Apesar do comportamento adulto esperado da criança, ela é vista como um arremedo de um adulto, sem o qual ficará impossibilitada de sobreviver.
Em oposição à literatura infantil vigente no século XIX, Alice não é um compêndio de valores morais e pedagógicos, uma vez que ocorre a negação deles. A protagonista não é a típica criança que se submete - ela contesta, muitas vezes de modo inconsciente, os valores escolares, as convenções interpessoais. Ela demonstra sentimentos que uma criança do século XIX não poderia demonstrar. Um exemplo: no início da narrativa, Alice está cansada da companhia da irmã, por isso segue o Coelho Branco, esse que representa a porta de entrada para um mundo, onde se empreende uma busca solitária da menina: Alice exerce seu protagonismo sem interferência adulta.
Mais ainda, ela busca o espaço onírico como forma de subversão do mundo concreto – ainda ficcional - em que ela está inserida. Na obra, não há valores, virtudes e pedagogia em jogo. Não há, sobretudo, culpa, medo e necessidade de aprovação. Alice quebra com o mundo adulto para se firmar como criança, por isso terá reservado um futuro como adulta saudável, numa explícita crítica ao pensamento vitoriano. Mesmo quando tenta se comportar como uma criança do século XIX, o resultado se torna hilário para o leitor, pois tudo dá errado.
Além do desastroso comportamento de Alice no Mundo das Maravilhas, deparamo-nos com a ridicularização da figura real, que propõe sentenças nunca cumpridas, ninguém a respeita, as relações de poder que exerce sobre as outras personagens são parcialmente questionadas. A Rainha de Copas é uma figura que impõe regras absurdas, que revela descontrole emocional na gerência dos súditos, que tem seu poder questionado por Alice no final da narrativa. A Rainha de Copas, em muitas leituras, poderia relacionar-se à figura da Rainha Vitória, numa clara referência à monarquia parlamentarista, modelo de governo em que a rainha torna-se figura simbólica.
A menina Alice, no final da narrativa, questiona tudo o que a cerca. Afirma que todos não passam de cartas de baralhos, valendo-se de um processo
metonímico: as cartas remetem a um jogo do qual a menina não quer mais fazer parte, pois o compreende com perfeição e percebe que pode controlá-lo. Afinal, para subverter a sociedade é necessário conhecer os mecanismos de funcionamento. O jogo de baralhos é o próprio jogo social de modo metafórico; precisamos entendê-lo para questioná-lo e tornarmo-nos parte importante dele. Nessa passagem do conto, percebemos a iniciativa individual se sobrepondo aos interesses incoerentes do grupo.
Nesse contexto, o moralismo coletivo se contrapõe às iniciativas individuais. Por isso Alice no País das Maravilhas, inspirada numa criança de 6 anos, cujo nome fornece títulos para as duas obras infantis de Carroll, constitui uma subversão à ordem vigente no século XIX. Notamos que Lewis Carroll lê o contexto histórico que o rodeia para a criação da obra e, paratopicamente. O autor cria um espaço fronteiriço em que todas as relações são questionáveis. Ao mesmo tempo surge um mundo, que não está eximido de expor a realidade concreta do autor. Maingueneau nos explica o problema da paratopia do escritor que representa uma pertinência impossível a qualquer mundo:
Longe de enunciar num solo institucional neutro e estável, o escritor alimenta sua obra com o caráter radicalmente problemático de sua própria pertinência ao campo literário e à sociedade. Não é uma espécie de centauro, uma parte do qual estaria imersa na gravidade social e a outra, a mais nobre, voltada para as estrelas, mas alguém cuja enunciação se constitui através da própria impossibilidade de se designar um lugar verdadeiro.
Além, a inscrição do campo literário na sociedade se revela igualmente problemática. Decerto esse campo faz, em certo sentido, “parte” da sociedade, mas a enunciação desestabiliza a representação que normalmente fazemos de um lugar, com um fora e um dentro. Os “meios” literários são de fato fronteiras. A existência social da literatura supõe ao mesmo tempo a impossibilidade de se fechar sobre si e a de confundir a sociedade “comum”, a necessidade de jogar nesse meio- termo (...) A pertinência ao campo literário não é, portanto, a ausência de qualquer lugar, mas antes uma negociação difícil entre o lugar e o não- lugar, uma localização parasitária, que vive da própria impossibilidade de se estabilizar. Essa localidade paradoxal, vamos chamá-la paratopia. (MAINGUENEAU, 1995, p. 28)
.
Dodgson, ou Carroll, vive o paradoxo paratópico: o autor de Alice está numa relação de pertença a um lugar histórico, geográfico, concreto e real, ao qual se opõe e se submete. Nessa negociação difícil entre submissão e oposição, constrói-se a paratopia carrolliana: num contexto em que se fortalecia o Realismo Francês por toda a Europa, surge uma obra ficcional que paradoxalmente não
aborda a realidade tal qual conhecemos, mas que, ao mesmo tempo, retrata-a realisticamente para os leitores mais proficientes. O questionamento, tipicamente realista da sociedade, está inserido na obra que nos traz um mundo de fantasias. Paradoxo que evidencia a impossibilidade de estabilização da obra. Lugar não estável que nos remete a um outro espaço contextual: o da situação comunicativa que engendrou a obra.
2.4 - A gênese do maravilhoso: da “contação” de histórias para o texto