No seu trabalho com crianças delinquentes na London Child Guidance Clinic durante os anos de 1936 a 1939, Bowlby conheceu crianças que furtavam e também crianças
incapazes de mostrar afeto, e se questionou acerca da possibilidade da delinquência e da falta de afeto poderem estar relacionadas com abandono ou falta de relações emocionais com os seus cuidadores nos primeiros anos de vida (Horst, Veer, & Ijzendoorn, 2007). Nós podemos ver mais acerca desta sua experiência com adolescentes delinquentes e incapazes de
mostrarem afeto no seu artigo Forty-four Juvenile Thieves (Bowlby, 1944). Nesse artigo ele relata o seu trabalho e sua experiência com crianças e adolescentes delinquentes, algumas das quais incapazes de mostrarem afeto. Neste relato, podemos ver o procedimento efetuado quando da chegada de uma nova criança, dos testes que ela efetuava, e da tentativa de diagnóstico que era efetuado através de três profissionais: o psicólogo, o assistente social e o psiquiatra. No entanto, e em muitas situações, muitas outras entrevistas eram efetuadas e nas
quais era feita psicoterapia com a criança pelo psiquiatra e conversas com a mãe feitas pelo assistente social. Toda esta situação costumava durar vários meses, podendo chegar a seis meses ou mais. Mas, o que acabou por surgir foi a complexidade das atitudes maternas para com a criança, que só acabavam sendo conhecidas após várias semanas de conversas com o assistente social (Bowlby, 1944).
No entanto, e como podemos ler em Bowlby (1944), a dificuldade em diagnosticar quer as crianças e adolescentes, quer mesmo os adultos, muitas das vezes prende-se com o fato de que eles conseguem, na maioria das vezes, esconder e dissimular qual o verdadeiro problema, levando a crer que está tudo bem ou levando a um diagnóstico errado ou
incompleto. E era aqui, quando as suas entrevistas psiquiátricas não revelavam nada de anormal, que Bowlby recorria aos relatos da mãe ou do professor. E era através do cruzamento de todas estas informações (do adolescente, da mãe e do professor) que ele acabava por fazer o seu diagnóstico. Podemos também concluir que nem sempre é fácil fazer um correto diagnóstico e que, muitas das vezes, precisamos recorrer a diversos meios para obtermos toda a informação necessária e assim, conseguirmos identificar a verdadeira situação e fazermos um correto diagnóstico.
Em Meloy (2013), podemos ver as notas de Bowlby acerca dos quarenta e quatro delinquentes, onde ele afirma que uma prolongada separação da mãe, ou da figura materna, nos primeiros anos leva a uma situação de roubo persistente e a um carácter de sem afeto. Ele alega que estas situações se devem à frustração da separação e que o símbolo do amor é erradamente substituído pelos objetos. Desde os tempos iniciais da psicanálise, a satisfação libidinal era associada com a possessão de coisas, sendo que em bebê era o leite e, mais tarde, em criança, eram os brinquedos e os doces, e mesmo em adultos, temos os chocolates, a bebida, o cigarro, ou mesmo uma boa refeição, pois eles são os portadores dos sentimentos de
bondade de uma pessoa pela outra. Desta maneira, os objetos e a comida são símbolos de afeto. E roubar da mãe seria apenas uma forma de a ter por perto ou de ter algo que a represente. Esta necessidade de roubar estaria assim intimamente relacionada com as separações iniciais e teriam uma componente libidinal na medida em que pretendem ter a pessoa, ou algo dela, presente. E igualmente se a criança ou adolescente sente que lhe foi roubado algo (neste caso a mãe ou figura materna) e que isso lhe provocou sofrimento, ela certamente que terá tendência a infligir o mesmo sofrimento aos outros e isso não seria mais do que vingança por aquilo que sofreu.
Assim, segundo Bowlby, a incapacidade de conter os impulsos e a incapacidade de ter sentimentos de afeto com os outros estariam relacionados com a falta de amor e com a raiva da perda ou separação da mãe ou da figura materna. E o que ele também ressalta é que o amor se torna impossível depois que o ódio e a raiva, devido à separação, se instalam. A fantasia tem aqui um papel importante na medida em que distorce a realidade, e em que se criam imagens que o indivíduo é mau e que não é merecedor de amor e de que o outro não é de confiança, ou que não gosta dele. Estas crianças têm tendência a quererem agradar aos outros porque acreditam (fantasiam) que são uma pessoa má e que não merecem nada e que, se não agradarem aos outros, eles a vão rejeitar. Elas também acreditam (fantasiam) de que os outros a querem punir, e que fazem tudo para as punir, ou que estão a conspirar contra ela. Os sentimentos de suspeição, de segredos e de culpa muitas das vezes caracterizam estas crianças (Meloy, 2013).
Nos exemplos que Bowlby nos dá, ele relata que as crianças nunca pediam nada e que isso sugeria que elas acreditavam que não mereciam receber nada e que elas também não mereciam nada. E o fato das crianças darem tudo aos outros ou precisarem dar coisas aos outros, seria apenas uma maneira delas mostrarem o sentimento de que não merecem ter seja
o que for. Este tipo de pensamentos também é comum nos neuróticos, muitas das vezes, afastando-os da realidade que os cerca ou do contato com os outros. Esta fantasia, que foi criada pelo afastamento ou separação, pode ser corrigida quando a separação é curta e a criança entra de novo em contato com a mãe ou figura materna e lhe é permitido corrigir essas crenças iniciais, através de um contato saudável com a mãe (Meloy, 2013).
De tudo isto costuma resultar danos a longo prazo. E a resposta costuma ser evitar correr quaisquer riscos de que uma nova separação (perda) possa ocorrer de novo. Para evitar voltar a sofrer, a solução costuma ser não se envolver com os outros ou ser indiferente para com eles. E segundo Bowlby, esta era a característica de todos ladrões juvenis que ele acompanhou. Eles não mostravam afeto nem aparentavam se importar de o obter. Algo do gênero: “Vamos evitar a todo custo que o nosso coração se parta de novo”. E esta é a explicação para o seu comportamento rebelde e aparente indiferença, os quais confundem e irritam qualquer um que lide com eles. Esta é e a politica que eles usam para se protegerem dos seus sentimentos (Meloy, 2013).
Por exemplo, em Bowlby, Ainsworth, Boston, e Rosenbluth, (1956), onde os autores fazem um follow-up dos efeitos da separação da criança da mãe, afirmam que as crianças privadas de cuidados contínuos da atenção da mãe, ou mãe substituta, não ficam apenas temporariamente perturbadas, mas que essa perturbação pode persistir e ter efeitos a longo prazo. Estes autores reforçam o que vimos anteriormente, no trabalho de Bowlby com os quarenta e quatro ladrões juvenis, uma vez que uma proporção desses delinquentes tinham sofrido uma separação prolongada de sua mãe nos seus primeiros cinco anos de vida. E de todos esses delinquentes, a maioria deles era incapaz de ter e de manter relações saudáveis com outras pessoas. E de entre aqueles com características de carácter de sem afeto, foram separados das suas mães durante mais de seis meses durante a sua infância. Estas descobertas
sugerem que um rompimento na continuidade dos laços mãe criança numa fase crítica do desenvolvimento das respostas sociais da criança, pode resultar numa deficiência mais ou menos permanente na sua capacidade de se relacionar. Também é aceite que a base da saúde mental do adulto é a sua capacidade para fazer e ter relações contínuas e estáveis com outras pessoas e que o desenvolvimento dessas capacidades no adulto dependem de um
desenvolvimento saudável em criança, sobretudo durante os primeiros três a cinco anos iniciais, quando a criança está criando as suas primeiras relações sociais. Desta maneira, a hipótese psicanalítica diz que a maioria das perturbações de personalidade, assim como os sintomas de neurose e de psicose, são o resultado final de uma disfunção da personalidade na área das relações objectais. E foi com base neste conhecimento que Bowlby e outros
dedicaram uma atenção especial às primeiras relações entre a mãe e a criança durante as suas pesquisas e consultas (Bowlby et al., 1956).
E tal como já vimos antes, Bowlby (1944) sugeriu que a frustração gerada pela
separação era provavelmente a causa dos impulsos agressivos e, por outro lado, que a falta da função inibidora dos seus comportamentos dependia da inexistência de relações satisfatórias. Ele também concluiu que a separação prolongada provocava uma série de perturbações de personalidade, na qual o carácter de sem afeto seria a principal característica e a mais séria.
Foi através deste trabalho que Bowlby colocou em evidência o papel das separações precoces como fatores de perturbações do comportamento e do afeto (Guedeney & Guedeney, 2004). Mas, para poder comparar as diferenças, era necessário ter um grupo de controle e apenas Goldfarb (1943) o tinha feito, tendo encontrado diferenças significativas entre o grupo de crianças adotadas que tinha passado a maioria dos seus primeiros três anos em instituições e o grupo adotado que tinha ficado desde cedo com a sua família adotiva. Estas diferenças entre os grupos mantinham-se aos dez e aos catorze anos.
Muitas das crianças que passaram o início das suas vidas na instituição mostravam uma capacidade de terem relações com as outras pessoas bastante reduzida e Goldfarb atribuiu isso a uma falta de oportunidade deles desenvolverem relações com adultos nos seus primeiros anos. As crianças da instituição também apresentavam um comportamento
agressivo e sem controle e tinham personalidades pobres e passivas, estando as suas reações num nível primitivo e infantil (Bowlby et al., 1956).
Os estudos de Goldfarb com crianças privadas de cuidados maternos e de relações durante vários anos mostraram os impactos que essa separação provocou. No entanto, nas crianças com que Bowlby (1944) lidou, essa separação não tinha acontecido tão cedo, nem durante tanto tempo, mas mesmo assim os efeitos eram semelhantes apesar de a personalidade das crianças não ter sido tão afetada, como no caso das crianças dos estudos de Goldfarb (Bowlby et al., 1956).
Também Dixon (2003), que faz uma revisão do artigo de Bowlby (1944), chama a atenção para o fato de que a preocupação com as práticas de criação das crianças, de Bowlby e outros, se devia à possibilidade dessas práticas poderem prevenir a psicopatologia do adulto. Também Vicedo (2011) nos diz que, desde o início da sua carreira, Bowlby estabeleceu uma ligação entre a falta do amor maternal e a psicopatologia, tendo-se focado no ambiente pessoal da criança que, segundo ele, era a relação mãe-bebê. E na sua pesquisa, Bowlby percebeu que as razões da psicopatologia na criança se deviam à personalidade da mãe e sua atitude emocional relativa à criança, verificando que, em algumas situações, a mãe tinha uma hostilidade inconsciente para com a criança, o que se podia observar pelas privações
desnecessárias, pela sua frustração e impaciência perante as travessuras da criança, assim como pelo mau humor e uma falta de compreensão para com ela (Vicedo, 2011).
da Saúde sobre as crianças sem casa. Em 1951 ele entregou o seu trabalho acerca dos cuidados maternos e a saúde mental, onde se desviava da visão Kleiniana do seu treino psicanalítico, uma vez que ele não aceitava a explicação de que a relação emocional entre a mãe e a criança se devia ao fato dela alimentar a criança (Horst et al., 2007).
Neste relatório, Bowlby defende que é essencial para a saúde mental da criança que ela experiencie uma relação continuada, calorosa, e de proximidade com a sua mãe, ou com uma mãe substituta, na qual ambos tenham satisfação e alegria. E quando este tipo de relação não existe, Bowlby a chamou de privação materna, sendo que ela qual teria graves
consequências para o desenvolvimento futuro do carácter e da saúde mental do indivíduo (Duniec & Raz, 2011).
Este foi um documento bastante importante, o qual influenciou toda a comunidade internacional, suscitando uma reconsideração acerca do cuidado recebido pelas crianças nas instituições de acolhimento, assim como acerca da importância da privação das relações da mãe com a criança (Dixon, 2003). Este trabalho para a Organização Mundial da Saúde teve uma grande repercussão a nível mundial e também a nível social, inspirando também a comunidade científica a investigar mais acerca do tema e da importância da relação mãe bebê ou do apego mãe bebê.
Na prática, este trabalho de Bowlby influenciou as ideias e práticas acerca do bem- estar da criança e das relações sociais e maternais, levando a uma mudança das condições de tratamento das crianças no meio hospitalar (Duniec & Raz, 2011). Bowlby também comparou a separação materna a uma privação nutricional que tinha consequências para o
desenvolvimento emocional da criança, tal como a nutrição tinha para o desenvolvimento físico (Duniec & Raz, 2011).
de Lorenz e de Tinbergen, tendo ficado apaixonado pelo assunto e acabou fazendo amizade com Lorenz com quem se encontrou e visitou na Organização Mundial da Saúde e em
Altenberg. Por sua vez, Lorenz visitou Bowlby na Tavistock Clinic. Por outro lado, Hinde que era outro etologista e seguidor de Lorenz, participava do grupo de estudos semanal do
Bowlby, com quem trocava conhecimentos. A relação entre Bowlby e Hinde era próxima em termos de ideias e em termos de aprendizagem mútua devido ao grupo de estudos semanal, onde ambos trocavam muitas das ideias que contribuíam para uma clarificação e
aperfeiçoamento da teoria do apego da etologia. Podemos dizer que Bowlby encontrou na etologia a confirmação das respostas que ele procurava acerca da importância das relações emocionais entre pais e filhos e que, segundo ele, tinham sérias repercussões e eram independentes de outros fatores, como a alimentação (Horst et al., 2007).
As observações de Bowlby em hospitais e orfanatos levaram-no a defender que o cuidado e amor materno eram essenciais para desenvolvimento emocional do bebê e que existia uma base biológica para o apego do bebê à mãe devido à evolução pela seleção
natural. Desta maneira, ele argumentava que os bebês separados das suas mães ou privados do amor materno iriam sofrer de sérias consequências emocionais. E tal como Lorenz tinha mostrado com os patos, também os bebês humanos privados do contato materno não iriam desenvolver os comportamentos sociais adequados na adultícia (Vicedo, 2010).
Por outro lado, as ligações de Bowlby com Tinbergen eram mais escassas e mais a nível profissional, pois Tinbergen recorreu a ele por causa de um filho com sintomas de autismo e também ele próprio, Tinbergen, devido a uma depressão (Horst et al., 2007).
Numa resposta a quem criticava o uso de Adaptação Evolucionária ao Ambiente, que Bowlby defendeu no contexto relacional mãe-bebê, Hinde (Horst et al., 2007) clarifica que Bowlby salientava a importância do ambiente no qual a criança vivia como determinante para
o seu bem-estar, o qual nada tinha a ver com o ambiente geográfico onde se vivia. Desta maneira, Hinde salienta a falta de compreensão que certos autores tinham do trabalho de Bowlby, os quais tinham feito conclusões apressadas e sem conhecimento de causa. Bowlby dizia que todos os bebês precisavam de estar próximos de suas mães, precisavam mamar e precisavam do conforto do contato e essa era a Adaptação Evolucionária ao Ambiente materno a que Bowlby se referia.
Apesar de tudo, Bowlby sempre teve críticas e algumas delas podemos ler em Van der Horst (2011), sendo que uma delas é o fato de Bowlby ter dedicado especial atenção ao ambiente, no qual a criança vivia e onde sofria as suas influências, e não se ter dedicado ao mundo interno da criança. Isto é, ele não se dedicou a entender como a criança se sentia e como era o seu mundo interno, que seria o assunto da psicanálise. Nós poderemos dizer que uma situação sem a outra, não traz os resultados que se poderiam esperar, caso estas duas situações caminhassem juntas. No entanto, Bowlby acreditava que era o mundo externo que moldava o mundo interno da criança e não o contrário.
De acordo com tudo o que acabamos de ver, percebe-se que Bowlby, assim como muitos investigadores, estava em contato com diversos pesquisadores que contribuíram de maneira significativa para muitas das ideias de Bowlby e do apego, assim como também algumas ideias de Bowlby acabaram por ser incorporadas na etologia e em muitas outras áreas, permitindo assim um crescimento mútuo para todos.