Em meio a diferentes histórias pessoais e trajetórias de formação musical os pianistas delinearam suas escolhas profissionais. Inicialmente, a profissionalização esteve relacionada às opções de formação em nível superior e de trabalho remunerado como pianistas colaboradores. As expectativas com relação à carreira profissional como músicos estão associadas a desejos, sonhos e expectativas sobre o futuro. As falas dos pianistas colaboradores revelam quatro elementos que influenciaram a escolha profissional: o apoio familiar; a necessidade pela subsistência; a identificação (o gosto e o prazer) pela música; a formação musical.
Ao lembrarem da escolha profissional, os pianistas colaboradores mencionam o apoio que tiveram da família. Eleonore, por exemplo, confirma o apoio de seu pai nessa etapa da vida. Ao relatar sua formação no Curso Normal, ela conta que se interessou por português e história. Apesar disso, os estudos de piano durante a adolescência e o incentivo paterno aumentaram o desejo de Eleonore de profissionalizar-se na Música (EE, p. 219). Para Dinorá, o apoio familiar evidenciou-se pelas influências da irmã, que já tinha optado pela carreira de pianista e que, de certo modo, “abriu o caminho” para a aprovação dos pais (ED, p. 103). Para Antonieta e sua família, a música estava presente no lar e na Igreja. As práticas musicais que ela constantemente vivenciava (dentro e fora da Igreja) eram valorizadas pelos pais, o que facilitou sua opção pelo campo da Música (EA, p. 181-182).
As profissões podem ter mais ou menos prestígio de acordo com os modos de inserção dos profissionais na sociedade (COSTA, 1988) e o reconhecimento social que os membros do grupo obtêm pela atividade especializada que desenvolvem (DUBAR, 2005). Assim, Clara associa a profissão de músico a esse reconhecimento social e confirma o apoio recebido dos pais, “apesar deles virem de carreiras tradicionais” (EC, p. 201). De modo semelhante, Janaína menciona que em sua época existia “um preconceito” em relação a profissionalizar-se no campo da Música (EJ, p. 3).
Por vezes, tornar-se músico é visto como necessidade de subsistência. Os pianistas, ao relatarem a conclusão da formação universitária, veem a música sob essa “forma de
subsistência”. A constituição de núcleo familiar também estimulou a busca por trabalho remunerado e a estabilidade no emprego. Por isso, ao avaliar a decisão pela música, Karina relata que “não foi bem uma escolha”, mas uma necessidade financeira (EK, p. 27). Compartilhando da opinião de Karina de que a música representa um mercado de trabalho, Rafaela refere ter querido investir na licenciatura em Música para ampliar suas possibilidades de atuação na rede pública de ensino, à época voltada à área de Atividades40 (ER, p. 78-79).
A identificação com a música, aliada ao prazer em tocar, também influenciou os caminhos da profissionalização dos pianistas. Janaína comenta que a música sempre esteve presente em sua vida e que ela gostava de acompanhar outros músicos. Para Dinorá, não era possível imaginar-se em outra atividade a não ser a música. Clara, ao revelar à mãe a sua opção por ser pianista colaboradora, justificou: “[escolhi] por gostar e estar, assim, tocando o tempo inteiro” (EC, p. 201).
A escolha profissional reflete o desejo de continuar a formação musical e evidencia as concepções dos pianistas sobre a sua atuação. Dinorá revela que desde as primeiras experiências tocando em um coral da universidade tomou a decisão de ser pianista colaboradora, justificando que “estar com várias pessoas” e “poder ajudar com o instrumento” proporcionavam satisfação pessoal (ED, p. 101-102). Em sua fala, é possível detectar características que especificam a natureza coletiva da atividade profissional: a dimensão social do fazer musical e as possibilidades de estabelecer vínculos afetivos com outras pessoas e contribuir para a aprendizagem musical do outro constituem os valores da profissão. No relato de Clara, a menção à oportunidade de continuar tocando piano e fazer música evidencia as razões de opção e, ao mesmo tempo, também sinaliza os valores da profissão (EC, p. 200-201).
A escolha profissional, portanto, recebe influências de uma série de fatores, que levaram os pianistas colaboradores a refletirem sobre a futura profissão e as implicações desta para si próprios. Esse período foi marcado por muitas expectativas e por reflexões que buscavam projetar e compreender a profissão, e prever algumas consequências resultantes dessa escolha para a vida pessoal. As decisões também são influenciadas por valores gradativamente assimilados ao longo da formação e da profissionalização musicais.
A importância dessa etapa na vida dos indivíduos é confirmada por Dubar (2005), que destaca que o período produz mudanças importantes, especialmente quanto à identidade. Segundo o autor, a procura por emprego confere ao sujeito inúmeras possibilidades de “
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A expressão “Atividades” define a atuação de docentes na rede pública entre o 1o e o 5o anos do ensino fundamental. Nesse caso, a formação exigida é a licenciatura plena em Pedagogia.
‘definição da situação’ em que se está inserido” (DUBAR, 2005, p. XIX41). Enquanto atores no mundo social, com vontades e desejos próprios, os sujeitos estão constantemente situando e definindo seus contextos de ação e suas “identidades de ator”. Apesar de receberem essa influência do contexto, Dubar (2005) alerta, essas identidades estão condicionadas pelo passado e pelas histórias subjetivas nas quais os sujeitos se engajam.
Essas autodefinições de atores, em um contexto dado, não são estritamente determinadas pelo próprio contexto. Cada um dos atores tem uma história, um passado que também pesa em suas identidades de ator. Não se define somente em função de seus parceiros atuais, de suas interações face a face, em um campo determinado de práticas, mas também em função de sua trajetória, tanto pessoal quanto como social. Essa “trajetória subjetiva” resulta a um só tempo de uma leitura interpretativa do passado e de uma projeção antecipatória do futuro. As identidades de ator estão assim vinculadas a formas de identificação pessoal, socialmente identificáveis. (DUBAR, 2005, p. XIX).
A importância dessa trajetória pessoal e social dos sujeitos destacada por Dubar (2005) é confirmada pelos pianistas colaboradores quando revelam as influências da família e a importância da formação musical nas mais variadas instâncias relativas à escolha profissional. A educação e os valores recebidos na família, nas relações sociais e pessoais permitiram aos pianistas colaboradores socializarem-se em diversos contextos marcados por subjetividades e facilitaram a opção pela música, pelo piano e pela futura profissão. Segundo Dubar (2005), são “autodefinições” dos sujeitos resultantes de trajetórias sociais e pessoais.
5.2 A ATUAÇÃO PROFISSIONAL: AGIR COMO PIANISTA COLABORADOR
O contato com o mundo do trabalho foi um marco importante na vida pessoal dos pianistas entrevistados; modificou profundamente a visão sobre si, sobre a música, sobre ensinar e aprender música, e sobre as relações sociais; e fomentou reflexões sobre ser pianista colaborador e o papel deste no contexto do CEP-EMB. Em meio aos constantes desafios do trabalho, os profissionais revelaram que seus modos de ser e agir são (re)elaborados e têm estreita relação com sua formação musical anterior. Estes são os principais elementos constitutivos dos modos de ser e agir dos pianistas colaboradores na profissão, por eles elencados: a inserção profissional; as habilidades, os conhecimentos profissionais e as características psicológicas pessoais; os espaços e situações de atuação; as dificuldades; as interações no trabalho; os princípios e as estratégias da atuação; as concepções sobre leitura à