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Nesta subseção, vamos abordar os dois modelos de categorização que são amplamente discutidos na literatura sobre o tema: o modelo clássico e o modelo de protótipos.

3.1.5.1 O modelo clássico

Do ponto de vista histórico, as origens do modelo clássico remontam à filosofia de Aristóteles, considerada por muitos a hierarquia perfeita do mundo. Na visão aristotélica, as categorias eram definidas por propriedades inerentes comuns a todos os seus membros, e um só podia ser considerado exemplar se possuísse todas as características necessárias e suficientes da categoria. Dessa forma, nenhum membro podia ser considerado melhor exemplar da categoria do que os demais.

As categorias deveriam ser independentes de quem estivesse categorizando. A categorização não devia ser influenciada pelos movimentos do corpo humano, pela neurofisiologia humana, pelas capacidades humanas de percepção, pelo aprendizado, pelas lembranças, pela comunicação ou por fatores socioculturais.

A teoria clássica fornece uma explicação direta para o fato de separarmos membros e não membros de uma categoria. Os membros de uma categoria são aqueles objetos (ou exemplares) que exibem as características necessárias e suficientes que definem a categoria; e os não membros são os que não exibem essas características.

Assim, no modelo clássico, está claramente demarcado o que constitui ou não um exemplar de uma categoria, com limites rígidos e bem definidos entre as categorias.

Na visão de Smith e Medin (1981), o modelo clássico é uma teoria psicológica sobre como os conceitos são representados na espécie humana e em outras espécies. Esses autores apontam as características definidoras desse modelo:

1-As categorias são arbitrárias – itens podem ser agrupados de muitas maneiras para formar categorias, uma vez que as pessoas podem aprender a identificar ou construir essas categorias definidas pela sua cultura, pois não existem regras em nosso sistema nervoso que estabeleçam como devemos repartir as nossas observações.

2- As categorias possuem atributos definidores ou críticos – todos os membros de uma categoria compartilham destes atributos definidores, nenhum não membro compartilha deles, e não há sobreposição de membros e não membros.

3- A intensão (ou conjunto de atributos) determina a extensão de uma categoria (quais itens são membros) – não faz sentido falar que uma categoria tem uma estrutura interna, com alguns itens se destacando como membros melhores do que outros itens.

Além de possuir as características abordadas, o modelo clássico baseia-se ainda em três princípios, segundo Smith e Medin (1981):

a) a representação dos conceitos, que envolve descrição sumária da classe, sendo que cada conceito possui definições que vão caracterizá-lo e determinar se tal elemento pertence ou não àquela classe;

b) as características definidoras de uma categoria precisam ser tanto individualmente necessárias quanto suficientemente agrupadas, para definir a categoria;

c) categorias são agrupadas, destacando-se que a categoria subordinada possui todas as características da categoria supraordenada.

Destacamos como aspecto positivo do modelo clássico, o fato de ter alcançado uma grande repercussão em várias áreas do conhecimento. Todavia, com o aumento do número de estudos sobre categorização, impulsionado pelo surgimento de novas disciplinas, começaram a ser apontados problemas relacionados ao modelo clássico. Em meio às críticas, selecionamos as apresentadas por Smith e Medin (1991):

1) a existência de conceitos disjuntivos (a qual é interditada na visão que supões as características como definidoras);

2) a existência de casos confusos (difíceis de reconciliar, na visão que supõe que as características definidoras de um conceito estão aninhadas dentro daquelas de seus subordinados);

3) a insuficiência geral em especificar características definidoras para a maioria dos conceitos.

Com base nas críticas de vários autores, admitimos que o modelo clássico falha na captação de aspectos significativos do comportamento conceitual e não podemos dizer que os conceitos dependem de um conjunto de atributos necessários.

3.1.5.2 O modelo de protótipos

O modelo de protótipos surgiu com o intuito de explicar as falhas do ponto de vista da definição de atributos, como por exemplo, os efeitos de tipicidade e a falta de distinção das concepções.

O modelo dos protótipos resolve muitos dos problemas não vislumbrados pela visão tradicional, uma vez que torna as categorias mais flexíveis e correlacionáveis.

Rosch,(1978) criou o modelo de protótipos baseada na tese de que, se no modelo clássico as categorias são definidas somente pelas propriedades que todos os membros da classe possuem, então nenhum membro pode exemplificar a categoria melhor do que outro. Para ela, o princípio fundamental do modelo de protótipos sustenta que as categorias são organizadas em torno de protótipos centrais.

A categorização linguística se processa, geralmente, na base de protótipos (exemplares típicos, mais representativos, ou melhor, representações mentais destas entidades) e que, consequentemente, as categorias linguísticas apresentam uma estrutura prototípica (baseada em protótipos).

O modelo de protótipo foi desenvolvido como uma alternativa ao modelo clássico, porém, muitos estudiosos questionam a possibilidade desta substituição. Dentre esses estudiosos, citamos Eysenck e Keane (1990), que levantam as seguintes críticas ao modelo de protótipos:

1) Nem todas as categorias têm características prototípicas, apresentando assim, limites no grau de generalidade do modelo. Uma limitação diz respeito aos conceitos abstratos, pois nem todos apresentam estrutura de protótipo. Essa limitação pode ocorrer devido a existência de flexibilidade em pertencer ou não a tais categorias abstratas, diferentemente das categorias concretas;

2) o ponto de vista do modelo de protótipos é limitado no que diz respeito ao conhecimento que as pessoas têm sobre as relações entre categorias. Em geral, sabemos que alguns atributos variam mais do que outros;

3) o modelo de protótipos não explica porque as categorias são coerentes. A explicação para esta propriedade leva em conta que algum mecanismo de semelhança é

responsável pela coerência da categoria. Em outras palavras: as coisas são agrupadas em categorias porque têm certos atributos comuns. No entanto, não podemos considerar que a semelhança seja o único mecanismo para o estabelecimento da coerência. Um exemplo disto é que às vezes formamos categorias com poucos atributos compartilhados, mas que não deixam de ser coerentes.

No quadro a seguir, de forma resumida, mostramos as diferenças entre as categorias no modelo clássico e no modelo de protótipos.

Quadro 4 – Comparação entre as categorias clássicas e as categorias prototípicas

Categorias clássicas Categorias prototípicas

1. As categorias definem-se pela conjunção “propriedades necessárias e suficientes”

1. As categorias estruturam-se à volta de protótipos e por “parecenças de família”

2. Todos os membros de uma mesma categoria têm o mesmo estatuto de membros da categoria

2. Entre os membros de uma categoria, uns são prototípicos e outros periféricos

3. As categorias são discretas 3. Os limites entre categorias são geralmente difusos

Fonte: Silva (2011)

Como vimos, pelas críticas apresentadas, o modelo clássico e o modelo de protótipos apresentam falhas que são evidenciadas na citação a seguir:

As explicações propostas pelos modelos clássico e de protótipo não são ainda consideradas satisfatórias. É muito difícil estabelecer linhas claras entre os pontos de vistas de cada modelo e os pontos em que são mais satisfatórios. Por um lado, o modelo clássico tem dificuldades em explicar os efeitos da tipicidade; por outro, os modelos alternativos não são capazes de explicar satisfatoriamente a organização das categorias, ou seja, o que faz com que as categorias resultem em tipos diferentes. Pode ser que existam categorias que se adéquam melhor ao modelo clássico e outras, ao modelo de protótipo (LIMA, 2007, p.166).

Diante da problemática apresentada pelos dois modelos (clássico e de protótipos) para o estudo da categorização, a autora propõe que uma solução híbrida, combinando o aspecto central com um processo de identificação do conceito, pode ser ainda o meio mais eficiente na abordagem da categorização como um processo cognitivo.

De um ponto de vista mais crítico, pelo que pudemos verificar, nos últimos anos, não tem havido uma correspondência entre a evolução das concepções de cognição e o

desenvolvimento dos modelos de categorização, pois temos dois modelos de categorização consolidados: o clássico (que se baseia na filosofia clássica) e o de protótipos (que se fundamenta no cognitivismo, especialmente na psicologia cognitiva). De certa forma, enxergamos uma lacuna no que diz a novos modelos de categorização baseados em teorias mais recentes no âmbito da ciência cognitiva, pois surgiram novas concepções de cognição, que podem ser exemplificadas com a cognição incorporada e situada e com a cognição distribuída e social, sem o surgimento de modelos de categorização correspondentes. Por conta disso, em nosso trabalho, abordamos a categorização sem a preocupação de seguir um modelo especificamente.

Depois de discutirmos o processo de categorização em diferentes perspectivas no âmbito das ciências cognitivas, com ênfase na perspectiva enatista ou atuacionista, no quadro teórico da cognição incorporada e situada, passamos a fazer uma abordagem sobre o significado na seção subsequente.

3.2 SIGNIFICADO: A COMPREENSÃO DAS CONCEPÇÕES DE TECNOLOGIA