Para Johnson (2007), o desafio de uma teoria do significado incorporado é duplo: 1) Se os conceitos não são representações simbólicas desincorporadas, então, o que
eles são do ponto de vista neural?
2) Todos os conceitos podem ser incorporados, isto é, fundamentados em aspectos da experiência sensório-motora?
Para responder a primeira questão, Johnson (2007) defende que a chave para uma visão incorporada, não representacional, é esta:
Os conceitos não são entidades mentais internas que representam realidades externas. Em vez disso, os conceitos são padrões de ativação neural que podem ser ativados por algum acontecimento real ou percepção motora em nossos corpos ou então são ativados quando nós apenas pensamos sobre algo, sem realmente percebê-lo ou executarmos uma ação específica (JOHNSON, 2007, p.157).(Tradução nossa)
Em se tratando da segunda questão, Johnson (idem) considera a necessidade de se levar em conta os conceitos concretos - aqueles decorrentes de ações físicas ou de relações com objetos materiais (isto é, conceitos de objetos concretos, pessoas e ações corporais) e os
conceitos abstratos – aqueles oriundos de entidades não físicas, instituições, ações, relações e
valores (por exemplo, mente, conhecimento, ideias, justiça, direitos, liberdade). E diz que seus argumentos avançam em duas direções:
Primeiro, devemos examinar as evidências de que o significado de conceitos concretos é baseado em ativação das áreas sensório-motoras do cérebro. Segundo, devemos sugerir que conceitos abstratos (conceitos não vinculados a experiências sensório-motoras específicas) também dependem das áreas sensório-motoras e são, portanto, incorporados (JOHNSON, ibidem).(Tradução nossa).
Embora Johnson (2007) não entre em detalhes sobre as áreas sensório-motoras do cérebro (talvez deixando por conta dos conhecimentos prévios do leitor), consideramos pertinente a nossa iniciativa de acrescentar algumas informações básicas sobre o assunto.
As áreas sensório-motoras do cérebro são as áreas funcionais do córtex cerebral. Dividem-se em dois grupos: áreas primárias ou de projeção e áreas secundárias ou de associação.
1)Áreas motoras– são áreas que recebem as informações sensoriais, as mensagens que têm origem nos órgãos dos sentidos.
As áreas motoras do cérebro são: o córtex motor (controla as atividades musculares específicas), o córtex pré-motor (controla os padrões das contrações musculares coordenadas) e a área de Broca (controla os movimentos da laringe e da boca para a produção da fala). Estão localizadas na parte posterior do lobo frontal.
2)Áreas sensoriais – são áreas de coordenação que interpretam as informações recebidas e ocupam a maior parte do córtex cerebral. Dividem-se em áreas primárias e secundárias.
As áreas sensoriais do cérebro são: a área somestésica (ocupa todo o lobo parietal; distingue as sensações oriundas do corpo e interpreta os sinais sensoriais); a área visual (ocupa todo o lobo occipital; tem a função de interpretar a informação visual); a área auditiva (fica na metade superior do lobo temporal; tem a função de detectar as sensações auditivas, como palavras faladas e sons musicais); a área de Wernicke (localizada no lobo temporal superior, no ponto onde os sinais sensoriais oriundos dos lobos temporal, occipital e parietal se encontram; é importante para a interpretação do significado de frases e de pensamento); a área para a memória de curto prazo (situada na parte inferior do lobo temporal; tem importância para o armazenamento de memórias de curto prazo); e a área pré-frontal (ocupa a metade anterior do lobo frontal; sua função está relacionada à elaboração do pensamento).
Embora não tenham sido abordadas por Johnson (2007), lembramos que, além das áreas sensoriais e motoras, consideradas de projeção, existem também as chamadas áreas de associação. Essas áreas também se situam no córtex cerebral e são envolvidas na produção de muitos processos cognitivos, entre os quais a inteligência, o pensamento e a memória. Dividem-se em áreas secundárias (unimodais) e terciárias (supramodais).
Na figura a seguir, mostramos as principais áreas motoras e sensoriais do córtex cerebral.
Figura 19 - Áreas funcionais do córtex cerebral
Fonte: Guyton (1993, p. 16)
Ainda acrescentamos que existe um órgão chamado tálamo que contribui bastante para o funcionamento das áreas sensório-motoras. O tálamo (do grego thálamo= quarto, câmara) mede cerca de 3 cm e fica situado na parte central do encéfalo, na região conhecida como diencéfalo, envolto por todos os lados pelo cérebro (exceto na parte inferior). Atua como uma estação retransmissora de impulsos nervosos, recebendo informações sensoriais do corpo e passando-as para o córtex cerebral. Todas as mensagens sensoriais de quatro sentidos (visão, audição, paladar e tato) passam pelo tálamo antes de atingir o córtex cerebral; somente o sentido do olfato envia sinais diretamente para o córtex cerebral sem passar pelo tálamo. Da mesma forma, o córtex cerebral envia informações motoras para o tálamo que as distribui pelo corpo. Assim, o tálamo exerce duas funções essenciais para o sistema sensório-motor: integração sensorial e integração motora.
Consideramos essas informações sobre as áreas sensório-motoras do cérebro importantes para o entendimento da teoria do significado incorporado porque, em uma perspectiva neural, os conceitos surgem em um processo de incorporação permanente do organismo com seu ambiente. Galesse (2003), citado por Johnson (2007), argumenta que o intercâmbio de energia entre o organismo e o ambiente resulta em padrões de ativação dentro
de um grupo neuronal funcional. Os organismos vivos processam diferentes energias a que estão expostos: eletromagnética, mecânica e química. Ou seja, a energia interage com os organismos vivos, e, em virtude dessa interação, essa energia pode ser especificada em termos de “estímulos” (visuais, auditivos, somatossensoriais, etc.) para os quais cada organismo está exposto.
4.2.1.1 O caráter multimodal do sistema sensório-motor
No nosso entendimento, um dos pontos mais interessantes da teoria de Johnson (2007) é a ideia de que a percepção é multimodal. Para fundamentar os argumentos da multimodalidade do sistema sensório-motor, Johnson cita as pesquisas realizadas por Dewey e por Gallese e Lakoff .
Dewey (1987), citado por Johnson (2007), observa em seus estudos que há profundidade e riqueza em nossa experiência visual que põe em jogo ou desencadeia outras experiências sensoriais e motoras.
Johnson (idem) afirma que “sabemos que isso é verdade não apenas com base em experiências sutis fenomenológicas, mas também porque temos evidências neurocientíficas” (p. 161).
Os objetos não são apenas formas visual, táctil ou auditiva, não são apenas coisas que vários programas de apoio motor vão interagir com elas. Eles são, ao invés disso, todas essas dimensões em conjunto. Então, a percepção que ocorre dessa maneira é multimodal. Quando uma pessoa vê um objeto, presencia ou imagina uma ação ativa os chamados neurônios- espelho.
Galesse e Lakoff (2005), citados por Johnson (2007), resumem a noção de multimodalidade afirmando que uma ação como agarrar um objeto é multimodal porque: 1) é neuralmente promulgada utilizando substratos neurais usados tanto para a ação quanto para a percepção; e 2) as modalidades de ação e percepção são integradas ao nível do sistema sensório-motor em si e não através de áreas de maior associação.
Com base em citação de Johnson (2007), observamos que os neurônios-espelho foram descobertos em 1994, por acaso, em uma experiência com macacos, pelos neurocientistas Giacomo Rizzolatti, Leonardo Fogassi e Vittorio Galesse, da Universidade de Parma, na Itália. Esses neurônios recebem a denominação de “espelho” porque refletem, espelham ou simulam mentalmente uma ação realizada ou observada. Na prática, é como se a mente espelhasse ou simulasse tudo o que os outros fazem ao nosso redor. Nossa percepção visual
inicia uma espécie de simulação ou duplicação interna dos atos dos outros. Os neurônios- espelho refletem muito do que vemos e ouvimos e estão intimamente associados à aprendizagem e às relações sociais. Localizam-se em diferentes áreas do cérebro, como nos córtices pré-motor, frontal e parietal inferior, no sulco temporal superior e na ínsula (lobo cerebral situado na profundidade da fissura lateral).
As pesquisas sobre neurônios-espelho apoiam a hipótese de que a imaginação é uma forma de simulação. Jeannerod (1994), citado por Johnson (2007), mostra que imaginar certas ações motoras ativa algumas das mesmas partes do cérebro que estão envolvidas em realmente executar essa ação. Kosslin (1994), igualmente citado por Johnson (ibidem), afirma que imaginar uma cena visual também ativa áreas do cérebro como se nós tivéssemos percebido essa cena no mundo.
4.2.1.2 Conceitos concretos usando áreas sensório-motoras do cérebro
Um dos eixos centrais de uma teoria da cognição corporificada é que os conceitos concretos (ou seja, os conceitos de objetos concretos, eventos e ações) são processados usando áreas sensório-motoras do cérebro.
Assim, a visão da corporificação depende em negar que a conceitualização é realizada em áreas do cérebro altamente especializadas que são física e funcionalmente separadas das áreas responsáveis pela percepção e movimentos motores. A hipótese de Galesse e Lakoff (2005), citados por Johnson (2007), é que os conceitos concretos são realizados como esquemas sensório-motores que organizam um sistema de processamento neurofuncional para a significação integrada do que é percebido.
4.2.1.3 A incorporação de conceitos abstratos
A afirmação que apresentamos no item anterior de que os conceitos concretos operam através das áreas sensório-motoras do cérebro pode não parecer surpreendente. No entanto, reconhecemos que é muito mais difícil de ver (e de aceitar) como os nossos conceitos abstratos – conceitos para entidades não físicas, instituições, ações, relações e valores, jamais poderiam ser verdadeiramente corporificados. Para comprovar essa hipótese, Johson (2007) recorre à teoria da metáfora conceptual como um dos principais mecanismos criativos de abstração, pela qual é possível entender como domínios abstratos utilizam as estruturas sensório-motoras do cérebro.
Técnicas de neuroimagem mostram que podemos conduzir os mapas somatomotores do cérebro humano com os estímulos linguísticos literal e metafórico relativos ao corpo, o que tem sido demonstrado em estudos realizados com imagens de ressonância magnética funcional (fMRI).