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O homem é um ser impregnado de inquietudes. Diante das divergências encontra, muitas vezes, estratégias de sobreviver, ajustar e confortar-se com uma determinada situação. De acordo com Hegenberg (1996, p.4), “é a incerteza que o faz pensar, tentando devolver ordem à circunstância que lhe fez problema, para torná-lo, de novo, estável e seguro”.

Zanella (2004) pontua que ser criativo no mundo capitalista torna-se essencial à demanda profissional, pois implica em saber trabalhar em equipe, ter iniciativas e ser polivalentes; e para o pesquisador cabe também tais atributos.

Embora esses conceitos mereçam muitas reflexões, que aqui não cabem, propõe-se uma reflexão sobre em que medida, o contexto social, repercute sobre a “criatividade”. Assim, diante da função do pesquisador, para Zanella (2004), deve-se emergir esses apontamentos na tentativa de balizar um espaço de formação e também criação, pois toda pesquisa demanda uma atividade criadora diante do arcabouço a ser estudado.

Zanella (2004) parte de alguns pressupostos para compreender a construção teórica e epistemológica das relações que envolvem a pesquisa e o pesquisador. Destaca a necessidade de momentos para socialização e apropriação de um conhecimento específico, pois, envoltos às polêmicas e às relações de poder que se apresentam no universo acadêmico, se faz necessários espaços de constituição e construção do ser

pesquisador, para que “permitam a tessitura de relações marcadas pelas possibilidades de reconhecimento, tanto do espaço em si quanto da sua multiplicidade de ser um pesquisador” (ZANELLA, 2004, p. 144).

Nesse sentido, Monceau (2005, p.472) descreve o posicionamento do pesquisador diante de um interesse científico:

[...] poderia ser o de colocar seu saber a serviço de uma experimentação social ou de uma mudança mais ampla. Há um comprometimento do pesquisador na ação de transformação social, podendo esse comprometimento traduzir-se de diversas maneiras: simples constatação de que o pesquisador está envolvido na dinâmica social até o seu comprometimento a serviço de objetivos preexistentes da chegada ao campo ou o objetivo que ele leva para lá. Quer esses objetivos sejam de início os de um financiador (tomador de decisões políticas, empreendedor, dirigente de organismo ou coletivo profissional ou militante) ou os do próprio pesquisador que deverá encontrar parceiros para realizá-los.

Nessa ordem, o cientista precisa pensar na sua prática e como ela deve interagir com a sociedade, pois emanam articulações e proposições que remetam a condições de gerar produtos sociais.

Um artigo publicado por Neto (1997) expõe o processo de profissionalização do cientista de acordo com a teoria do filósofo francês contemporâneo Bruno Latour. Nesse trabalho, o autor reflete sobre a função do pesquisador e de como ele deve se articular diante das diferentes demandas institucionais e acadêmicas. Nas sociedades pós- industriais, o mercado de trabalho exige cada vez mais racionalização e intelectualização dos profissionais e traz a figura do cientista como tendo um trabalho organizado e que exige autoesclarecimento e conhecimento de fatos inter-relacionais. Portanto, ao longo da discussão, o objetivo foi legitimar a utilização do conceito da profissão do cientista perpassando pelo estudo sociológico e histórico que concerne à questão.

Ainda nessa perspectiva, Latour (1989) propõe algumas etapas para o processo de formação do cientista, podendo destacar alguns pontos, a saber:

1) o exercício profissional exige dedicação exclusiva em atividades integradas que impõe aos profissionais reflexões inúmeras;

2) o cientista deve estabelecer estratégias para atrair seu público alvo e satisfazer a sociedade, para tanto, ao veicular seus conhecimentos em revistas e eventos científicos, deve ter uma meta de atuação;

3) o cientista deve ser perspicaz e hábil para provar e convencer o Estado que suas atividades são essenciais à sociedade, além de conseguir manter sua autonomia;

4) ser capaz de definir regras e normas de conduta entre seus pares com o propósito de resolver controvérsias.

Para Kuhn (2009), existe um conjunto de compromissos que sem eles, ser “cientista” torna-se inviável. Um desses compromissos é a compreensão ampliada que o cientista deveria ter sobre o mundo, a fim de ampliar a previsão e o alcance da ordem dos temas em estudo que lhe foi imposta. Isso deverá levá-lo a indagações e investigações inquietantes e constantes em busca de um objeto de interesse. Além disso, o cientista deve desafiar-se com técnicas que lhe respondam melhor e articular as teorias de forma a construir caminhos sólidos de um pensamento construído com coerência. Sendo assim, diante de uma pesquisa entendida como uma atividade para solucionar problemas de diferentes ordens, a essência do cientista acaba sendo cumulativa, pois pode ser vista como um empreendimento de amplificação contínua do alcance e da precisão do conhecimento científico.

O cientista pode compor suas habilidades em solucionar problemas através de técnicas adequadas para tratar determinado fenômeno, o que implica em pesquisadores que se relacionam com o conteúdo já existente em busca de algo mais eficaz e para tanto, esse profissional deve saber o que deseja; deve conceber instrumentos que respondam a sua necessidade e a seus objetivos; e deve ter um olhar investigativo e inquieto (KUHN, 2009).

De acordo com Sacardo e Hayashi (2007, p.44), o pesquisador, quando inicia uma investigação científica, contribui de forma significativa para o avanço de um determinado campo, para tanto deve ter consciência e atitude ao assumir um “fazer científico”, pois se confronta com o saber já existente e demanda a construção de novas evidencias científicas que poderão surgir de suas investigações.

No entanto, vários fatores motivam os pesquisadores na dinâmica da pesquisa e também na comunicação de seus pressupostos teóricos. Para compreender melhor essa configuração, Marchiori et al. (2006) relatam em seus trabalhos algumas motivações que foram delineadas na Figura 4.