O processo de investigação deve ser orientado pela metodologia que melhor evidencie o objeto sob estudo, esclarecendo a questão central ventilada e permitindo uma análise precisa das informações coletadas (MINAYO, 2001), de forma a criar uma engrenagem que garanta uma boa identidade científica (SANTOS, 2000).
Diversas vias de acesso aos possíveis métodos e formas de estudo são vislumbradas na literatura especializada, deixando o pesquisador relativamente à vontade na busca e seleção destas. E, como bem refere Chauí (1994), a multidisciplinaridade é a chave para a apreensão simultânea e fiel de um fenômeno sob estudo. Para Oliveira (1998), o método deve ser um caminho seguro que conduza à melhor interpretação das questões atinentes à pesquisa sob a perspectiva do investigador.
Neste sentido, uma investigação que se propõe refletir a respeito de uma proposta de organização para a EF escolar no EM direcionado à saúde discente, não deve restringir-se apenas a visão de professores, mas buscar com os alunos (razão desse processo) maior abrangência de esclarecimentos das diversas nuances que fazem parte desse contexto.
Considerando-se os objetivos estabelecidos, o presente estudo foi classificado como misto, do tipo descritivo-convergente, na visão de Creswell e Plano Clark (2013). Nesse modelo, segundo os autores, elementos quantitativos e qualitativos são coletados em uma primeira fase e, posteriormente, analisados independentemente e interpretados de forma integrada.
O método misto, segundo Creswell e Plano Clark (2013), foi discutido e implementado por diversos autores, e, geralmente, recomendado com o propósito de melhorar o conhecimento a respeito do fenômeno em estudo. Segundo Flick (2009) essa
combinação de metodologias quantitativas e qualitativas surgiu com o objetivo de qualificar as pesquisas científicas, portanto, devem ser considerados como complementares.
A pesquisa de caráter quanti-qualitativo, ao mesmo tempo em que se apresenta como uma proposta estruturada visando generalizações possibilitou, também, a exploração da individualidade dos sujeitos envolvidos, permitindo novas visões. A pesquisa qualitativa trabalha, conforme Minayo (2001), com um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, analisando de forma mais profunda as relações, processos e fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis; e, a pesquisa quantitativa, entende-se aquela expressa por meio de números, traduzidos pelo pesquisador em construtos, teorias ou resultados que possam ser generalizados, elementos considerados na opinião de Pais-Ribeiro (2007) fundamentais para o relatório final.
Considerou-se para o corpus quantitativo o levantamento de dados extraídos do questionário, adaptado ao Brasil, denominado Bem-Estar Discente na Educação Física – BEDEF – organizado por Lettnin, Jesus e Stobäus (2013). Já para o corpus qualitativo incluiu-se o levantamento de dados através de entrevistas com professores, os diálogos do grupo focal constituído pelos alunos do EM, os elementos apurados do instrumento III (Apêndice 5) construído por eles para os colegas do EM, e as observações das aulas de EF.
Com exceção da técnica de coleta de dados denominada Grupo Focal, as demais escolhidas são de uso comum e reconhecidas por diversos pesquisadores, sendo, portanto, importante explicá-la. A aplicação desta técnica – Grupo Focal – revela-se fundamental para Greenbaum (2000) quando o pesquisador está interessado em compreender porquê acontece determinado comportamento, neste caso o afastamento dos alunos nas aulas de EF. Iervolino e Pelicione (2001), ao estudarem os achados de Krueger e Morgan, explicam que se utiliza o grupo focal para entender as diferentes percepções e atitudes acerca de um fato, prática, produto ou serviço – nesta pesquisa direcionadas ao modelo de (des)seriação para a EF – e que a essência está na interação entre os participantes e o pesquisador, o qual busca seus dados em discussões focadas em tópicos específicos e diretivos, com duração típica de uma hora e meia.
O grupo, segundo os autores supracitados, é formado por 6 a 10 sujeitos que não são familiares uns aos outros e selecionados por apresentar características em comum, que são alvo da pesquisa. Os autores demonstraram a importância da utilização deste
método para completar informações, conhecer atitudes, opiniões, percepções e comportamentos relativos à saúde e para o desenvolvimento de programas. Assim, existe a possibilidade de melhor compreensão do fenômeno no contexto em que ocorre e do qual estes alunos são parte, desde que analisado numa perspectiva integrada.
Algumas características dos grupos focais identificadas por Greenbaum (2000) são citadas por Pais-Ribeiro (2007): autoridade do moderador (manter o grupo orientado e envolvido na discussão); capacidade para utilizar sinais verbais e não verbais como parte do processo de aprendizagem (atenção do moderador para as ações e reações); dinâmica do grupo (promover a interação para enriquecer as informações); atenção concentrada dos participantes (foco e empenho na discussão); capacidade dos participantes serem envolvidos diretamente no processo de investigação (capacidade dos participantes observarem, tomarem decisões e modificarem aquilo que está sendo discutido); segurança do grupo (discussões face a face e de forma apropriada promove cumplicidade e envolvimento); a natureza dinâmica do processo (a dinâmica valoriza os resultados); a rapidez do processo (recolha rápida de informações); o custo do processo (menor custo do projeto).
Para Pais-Ribeiro (2007), o grupo deve ser preparado antecipadamente. Primeiramente deve-se apresentar e definir o papel do moderador e garantir um ambiente amigável, confiável e de plena concentração no assunto. Os participantes devem entender o objetivo da pesquisa e o que vão fazer, como também, participar das regras de funcionamento das sessões. Antes de iniciar as discussões, o moderador deve promover uma breve apresentação dos participantes. É essencial, para o autor, que o moderador evite perguntas de resposta sim ou não, bem como aquelas que conduzem à racionalização, e permitam apenas respostas socialmente desejáveis ou politicamente corretas.
Assim, buscou-se com essas técnicas de pesquisa apreender o fenômeno estudado, a partir da perspectiva das pessoas nele envolvidas, considerando seus pontos de vista mais relevantes. Para tanto, diversos tipos de dados, conforme listados anteriormente, foram coletados e analisados para que se entendesse a dinâmica do fenômeno investigado.