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Gilbert(1988) sinaliza que a partir de meados dos anos 1970, a prática da geografia regional se modifica. A autora trabalha a nova geografia regional a partir das pesquisas realizadas por autores anglófonos e francófonos. Para Gilbert, três concepções marcam uma nova prática dos estudos da diversidade regional. De forma sumária as três concepções desse processo de renovação da geografia regional concebem a região como:

1 Uma resposta local aos processos capitalistas: trata-se da abordagem marxista, associada principalmente aos pesquisadores anglófonos. Constitui uma perspectiva político-econômica, desenvolvida por Coraggio, Massey, Smith, Cooke, Harvey, Damette, Lipietz, Gugliemo, Markusen, Klein.

2 Um foco de identificação: é a perspectiva cultural, mais característica da literatura francesa, desenvolvida por geógrafos humanistas, como Tuan, Frémont, Claval, Ricq, Bassand and Guindani, Pellegrino, Gilbert, Kofman, Duncan, Gibson. A cultura é o objeto primordial dos estudos regionais. Os que trabalham nessa abordagem acreditam que a consciência e identidade regional emergem de bases comuns da informação, de práticas de conhecimento que ligam compreensões individuais ao ambiente material. O objeto da geografia regional está no sistema relacional que liga grupos e indivíduos promovendo adesão e estabelecimento de ideias sobre o mundo natural.

3 Um meio de interação social: compreende a perspectiva interacionista, cuja dimensão política ganha grande relevância. Os autores utilizam fundamentos da teoria social da estruturação de Giddens, sendo citados por Gilbert: Thrift, Gregory, Raffestin, Paasi, Pred, Johnston, Soja, Reynaud, Grasland e Lavertue.

As três maneiras de conceitualizar e trabalhar a diversidade regional têm em comum a analogia estrutural, sendo menos predominante ver a região como estrutura na perspectiva humanista (GILBERT, 1988). A região é uma estrutura, exibe propriedades estruturais, sendo um processo e um resultado, não podendo ser reduzida às suas partes, não existindo fora das relações sociais que a instituem.

A abordagem geográfica influenciada pelo marxismo concebe a região como parte de uma totalidade, colocando no cerne das discussões a divisão territorial do trabalho e o processo de acumulação capitalista. Assim, ampara suas discussões na economia política. As características internas e particulares da região ficam em segundo plano. No Brasil, as reflexões geográficas de tradição marxista assinalam a grande contribuição de Oliveira (1993), que utiliza o conceito de divisão regional do trabalho, considerando que o mesmo permite enxergar a imbricação da dimensão política e econômica do conceito de região,

tornando o mesmo dinâmico por está fundamentado no movimento de reprodução do capital e das relações de produção.

Brandão (2003, p.34) considera importante o legado das formulações marxistas, mas avalia que as mesmas esbarraram em uma concepção estreita de ‘capital em geral’, não discutindo sua pluralidade e suas frações. Para ele, “É preciso mergulhar no concreto e no histórico para captar e apreender as manifestações concretas dos fenômenos inerentes à dimensão espacial do desenvolvimento capitalista em cada situação específica”, considerando impossível estabelecer leis de validade universal ao processo de desenvolvimento. O desafio está em “[...] reter as determinações gerais e procurar recorrentemente decifrar as ‘situações reais’”.

Encontrar uma posição intermediária é um objetivo de muitos geógrafos, que procuram caminhos teóricos e empíricos para defender que as relações dialéticas que criam as regiões envolvem pessoas e sociedade, processos específicos e gerais. Para Gilbert (1988), essa tentativa é buscada por geógrafos culturais orientados socialmente tais como Ley (1978), por marxistas regionalistas embasados pelo humanismo tais como Cooke (1985; 1987) e por teóricos da estruturação tais como Pred (1984), Thrift (1983) ou Paasi (1986).

Segundo Gilbert (1988), a região investigada pelos geógrafos regionais contemporâneos é da ordem das relações sociais, constituindo-se de complexas interações entre os atores sociais em um ambiente material no qual ambos afetam e são afetados pelas relações sociais. Em suas palavras (p.215, tradução nossa), “As relações sociais da região desenvolvem-se por causa de vias específicas pelas quais indivíduos e grupos se relacionam com um espaço regional particular”47.

Os pesquisadores da abordagem político-econômica da região pensam a região como uma estrutura territorial formada em torno da produção (BUCH-HANSON, NIELSON, 1977) ou uma estrutura espacial da produção (MASSEY,1984). Quanto a vertente humanista, Gilbert (1988) destaca o trabalho de Frémont (1976) por apresentar a região como uma estrutura com coerência dada por uma rede de ligações que relacionam povos e lugares, dentro de um espaço específico.

Para Gilbert (1988, tradução nossa), são os autores associados a uma concepção mais coletiva de culturas que começam a usar as referências estruturais da região, o que está atrelado aos desenvolvimentos mais recentes da teoria social. Nessa visão, “[...] a região não pode ser tratada eficazmente sem uma boa compreensão dos mecanismos pelos quais os atores

47

“Social relations within the region develop because of the specific way individuals and groups relate within the particular regional space”. (GILBERT, 1988, p.215).

sociais se relacionam com diferentes regiões. De fato, investigar as propriedades estruturais das relações sociais regionais se tornou com mais ou menos ênfase, a tarefa preliminar de geógrafos regionais contemporâneos”48.

Outro aspecto importante para a renovação da geografia regional é seu interesse pelos mecanismos de formação da região. Para Gilbert, esse renovado interesse pelos estudos regionais tem um rebatimento no ambiente científico, pois permite chegar a uma teoria do processo de formação regional, a partir da rejeição de conceitos da corologia tradicional (tais como o de adaptação e evolução) e a utilização da noção de relações dialéticas. Segundo a mesma autora, a geografia regional ganha uma teoria da formação das regiões ao pensá-las não como resultados fortuitos de qualquer sequência independente de eventos em uma porção da terra, mas ao conceber as regiões se desenvolvendo a partir da interação social regional enquanto sendo condição e resultado das relações sociais entre indivíduos, grupos e instituições no espaço regional. As regiões são estruturadas por processos interligados que variam conforme as circunstâncias históricas.

Gilbert destaca em sua revisão a contribuição de Claude Raffestin, que focaliza as redes espaciais em que a interação acontece. Os geógrafos que trabalham com base nas concepções de Raffestin geralmente mostram que de fato as regiões são territórios. Eles argumentam que as redes específicas regionais de interação social são os primeiros elementos de criação da diferenciação regional.

Gilbert (1988, p. 217, tradução nossa) destaca ainda que “Este processo dialético - o condicionante regional da sociedade e os efeitos da sociedade na região - cria de modo internamente homogêneo o pensamento e a ação que distinguem uma região da outra. Em outras palavras, a região é um processo49 (Frémont, 1976; Raffestin, 1982; Pred, 1984)”.

A partir desse entendimento, uma importante divergência está em reconhecer e questionar o papel dos indivíduos (da agência) na formação regional. A autora exemplifica a divergência a partir da abordagem marxista e cultural. Na perspectiva marxista convencional os membros individuais desempenham um papel muito pequeno na formação regional. Enquanto os geógrafos culturais, tais como Tuan, consideram os indivíduos como agentes principais da formação regional. Para esse autor, por exemplo, a fragmentação do espaço e a

48 “Their view is that the region cannot be dealt with effectively without a good understanding of the

mechanisms by which social actors interrelate in the different regions; indeed, the unraveling of the structural properties of the regional social relations has become more or less explicitly their primary task”. (ibidem., p.216).

49 “This dialectical process - the regional conditioning of society and the effects of society on region – creates the

internally homogeneous mode of thought and action which distinguishes one region from another. In other words, the region is itself a process”.

recriação de espaços enquanto regiões constituem o resultado de como os indivíduos se relacionam com a sociedade, o que depende da consciência do indivíduo e de seu próprio sentido dentro da sociedade, de seu sentido de unidade em relação aos outros. Para Tuan, são as ações individuais dentro de um sistema cultural que contam para esclarecer a chamada coesão regional. (GILBERT, ibid., p. 218)

Thrift (1990; 1991; 1993) discute a existência de uma ‘nova’ geografia regional ou um projeto de sua reconstrução que se dedica a compreender regiões como empreendimentos forjados em mais de uma direção ou sentido, sendo os processos que as constituem múltiplos e sobrepostos, impulsionados mais por fatores externos do que por intermédio de suas próprias condições (GILBERT, 1988; PUDUP, 1988). Todavia, ele alerta: tais processos são filtrados e sacudidos por padrões locais de interpretação e organização social.

Esse autor (1991) fala em variações da geografia regional moderna e relaciona quatro tendências de abordagem regional:

1 Maior atenção é dada a reflexão sobre como os distintos significados são produzidos e contestados nas regiões. Trata-se do reconhecimento e incorporação da dimensão interpretativa, da definição do conteúdo de ações e reações nos estudos regionais;

2 A perspectiva que se preocupa com as formas variáveis dos espaços das regiões, mais notadamente à sua transformação em simulacros de outros espaços, distantes espacial e/ou temporalmente (Jameson, 1984; Thrift, 1989). O pesquisador sinaliza a crescente importância do processo de incorporação do espaço em um sistema de produção comercializável, ele mesmo constituindo um produto;

3 A tendência voltada ao problema das relações entre povos e natureza, pautada em boa medida nas ameaças à natureza provocadas pelos processos de mercantilização e a discussão do crescimento e significado do desejo de “voltar a natureza”, enquanto processo de desconstrução dos modos de vê-la como paisagem ou como meio de recapturá-la em um tipo de autenticidade, de pertencimento a priori (Miller, 1987; Daniels, 1989).

4 O foco voltado aos problemas da escrita das regiões, especialmente aos problemas crônicos de descrição do nexo entre formas analíticas e narrativas (Gregory, 1989; Sayer, 1989). A importância de fazer a estratégia textual consciente é agora estabelecida, especialmente em uma época em que as regiões podem estar se fragmentando.

Thrift acredita que se deve buscar uma via mais teorizada da região. E esse projeto teórico visa tratar povos como agentes, lugares como contextos, e causalidade como uma progressão interativa de velozes estruturas de ações e a movimentação lenta da interação.

Pudup (1988) situa os anos 1980 como um momento de reaparecimento do interesse pela geografia regional, considerando dois focos e fontes diferentes: uma ligada aos praticantes da geografia regional tradicional, que definem o modus vivendi da geografia como a descrição sintética de lugares particulares e que conseguem vigor suficiente para reafirmar sua primazia, conforme sinaliza a autora, mesmo num ambiente de forte enfrentamento

intelectual durante os finais dos anos de 1970 com a onda da ciência espacial. A segunda fonte de interesse em estudos regionais é recente. Trata-se da chamada ‘geografia regional reconstruída’, que cresce, de certa forma, a partir da rejeição da ciência espacial durante os anos setenta e se fortalece com o aparecimento consequente da análise da teoria social em geografia humana.

Pudup considera que as duas abordagens se debruçam em metas há tempos estabelecidas na pesquisa geográfica, enfrentando dificuldades importantes, e nutrindo visões bem diferentes quanto ao futuro da geografia regional e da própria disciplina como um todo. De forma resumida, a autora afirma que “[...] a geografia regional tradicional incentiva a disciplina a recuar aos princípios da descrição corográfica. A geografia regional reconstruída, ao contrário, coloca os estudos regionais na vanguarda conceitual da contribuição da disciplina às ciências sociais”50(PUDUP, 1988, p. 369, tradução nossa).

A pesquisadora destaca o considerável pluralismo substantivo e metodológico do período contemporâneo, o que inclui a tentativa da geografia regional tradicional em se reafirmar, porém sem estabelecer pressupostos rígidos sobre o que constitui uma região ou como se define uma região. Pudup cita ensaios publicados em 1972 nos Anais da Associação de Geógrafos Americanos, sob a redação de John Fraser Hart. Os ensaios são marcados por um naturalismo penetrante que orienta a definição de regiões e de suas fronteiras ou limites. As regiões são definidas o mais frequentemente em torno de províncias fisiográficas. A concepção que fica implícita é a de que aquelas diferenças geográficas físicas nos EUA tem sido a base para regiões geográficas humanas distintas. Pudup (1988) aponta ainda que tais ensaios sugerem que a relação físico-humana é do senso comum.

No geral, essa abordagem interpreta regiões contemporâneas de forma retrospectiva visando capturar os impulsos do momento, incorporando um grande conjunto de estudos geográficos com aguçada atenção para a síntese e para aspectos descritivos. Pudup (1988, p. 372) cita o trabalho dirigido à Associação de Geógrafos Americanos (AAG) por Hart (1982, p. 23), que propõe os estudos sintéticos como ‘a forma mais elevada da arte do geógrafo’, recomendando três denominadores comuns nesse tipo de trabalho: um sentido de tempo e de mudança; nível de detalhe descritivo apropriadamente inverso à escala da região sob estudo; e consideração do ambiente físico, afirmando ainda que

Regiões são dispositivos/instrumentos artísticos subjetivos, e eles devem ser moldados para ajustar a mão do usuário individual. Não pode haver nenhuma

50

“[…] that traditional regional geography encourages the discipline to retreat 'back to basics' in chorographic description. Reconstructed regional geography, by contrast, places regional studies at the conceptual vanguard of the discipline's contribution to the social sciences.” (PUDUP, 1988, p. 369).

definição padronizada de uma região, e não pode haver nenhuma regra universal para reconhecer, delimitar e descrever regiões… A boa geografia regional deveria

começar com, e provavelmente deveria ser organizada em torno do tema dominante de cada região. (HART, 1982, p. 23 apud PUDUP, 1988, p. 372, grifo nosso).

Pudup lembra as ideias da comunicação de Peirce F. Lewis em 1985 na AAG da ‘volta ao básico’ (1985:473), valorizando como fundamentos geográficos o conhecimento da história e do ambiente físico.

Embora Lewis não fizesse nenhuma reivindicação explícita para a geografia regional, ele fez um idêntico, se não mais inequívoco, argumento para a descrição sintética como o principal modo dos estudos geográficos. Nas palavras de Lewis: ‘... isso poderia servir como um tipo de definição de geografia sem refinamento e pronta: descrever a superfície da terra e tentar construir seu sentido’ (1985:471). Ele aconselhou usar todas as ferramentas analíticas necessárias para alcançar o que ele chamou ‘descrição intelectual’ - descrição que se move além do esteticismo.51

A autora questiona muitos aspectos dessa comunicação, sobretudo o naturalismo reinante na geografia regional tradicional, que assume a correspondência entre homens e padrões geográficos físicos na forma de ‘camadas de análise’ corográficas, sendo os métodos analíticos mais semelhantes aos estratigráficos do que a atual explicação e interpretação da Geografia humana. A agência humana é tomada como não constrangida, nem cerceada em suas habilidades e escolhas. A compreensão da sociedade é realizada a partir de estudos de ocupação em sequência, conforme modelos geológicos. A geografia regional tradicional vislumbra e reduz nesse formato, sua habilidade para responder perguntas complexas sobre como e por que as pessoas se comportam e instituem suas crenças/impressões.

No processo de reconstrução da geografia regional, Pudup (1988) destaca os trabalhos substanciais e sistemáticos de Gregory (1978; 1981; 1982), Harvey (1984; 1985), Massey (1985), Pred (1984a; 1984b: 1986) e Soja (1984; 1985). Esses pesquisadores, ao rejeitarem a filosofia positivista subjacente a ciência espacial, permitiram a movimentação para além da crítica da geografia científica. Neste esforço, este grupo acabou desenvolvendo ligações com especialistas de outras disciplinas, notavelmente da história e sociologia, interessando-se pelas relações entre espaço e tempo, construindo afinidades com os trabalhos de Fernand Braudel e com a “teoria da estruturação’ de Giddens.

Com base nessas ramificações e releituras, as regiões não são entendidas apenas como construções produzidas analiticamente, como Hart afirma, ‘pela mão do usuário individual’.

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Lewis made no explicit claims for regional geography, he did make an identical, if not more unequivocal, plea for synthetic description as the principal mode of geographical scholarship. In Lewis’s words: ‘. . . that might serve as a kind of rough and ready definition of geography: describing the earth’s surface and trying to make sense of it’ (1985: 471). He advised using all analytical tools necessary to achieve what he called ‘intellectual description’ – description that moves beyond aestheticism. (p. 372-373).

Elas são produtos da história humana. Como entidades territoriais, regiões são definidas através de processos materialmente históricos e, pela sua reprodução e transformação, tornam- se constitutivas de processos materiais. Devido ao processo histórico de constituição, as regiões são continuamente transformadas, sendo a formação regional o foco de análise em geografia regional, que a deve encarar como um processo geográfico histórico dinâmico:

É importante sair de discussões aparentemente simples como objetos, e para processos e relações de conceitualização. Objetos não são simplesmente dados para análise, mas são eles mesmos produtos, e devem ser conceitualizados de modo a se incorporar, não só as suas características descritivas, mas também o processo de sua produção, a dinâmica mais ampla da qual elas fazem parte (Massey, 1984: 108).

Paasi (2002, p. 802, tradução nossa), também argumenta sobre o renovado interesse pelas regiões (e lugares) e por uma nova geografia regional. Ela situa nos anos 1980 o retorno aos estudos regionais. A nova geografia regional tornou-se um “[...] termo guarda-chuva para a pesquisa que reflete como regiões/lugares podem ser constituídos e se constituem pela vida, relações e identidades sociais (ver Thrift, 1994; 1998)52”. Uma meta importante buscada nesse campo consiste no tratamento das regiões por vias teoricamente informadas, questionando como regiões/lugares são produzidos e reproduzidos enquanto componentes da produção social mais ampla do espaço, negando assim o seu exame apenas como um dado ou através de perguntas dos fenômenos ou processos que acontecem em determinada região. A autora aponta ainda que a noção de região está sendo preterida ao termo lugar devido a associação da ‘região’ com governo/territorialidade e em razão da visão naturalizada do ‘regional’ como um nível entre o local e o nacional.

A referida autora propõe uma distinção analítica entre três ideias de região com as quais os geógrafos se apoiaram: concepções pré-científicas, ideias centradas no campo disciplinar e ideias críticas53. A primeira visão implica na região como uma escolha prática, uma determinada unidade de espaço (unidade estatística, municipalidade ou localidade), necessária para coletar os dados, não tendo nenhum papel conceitual particular. As regiões aparecem como fundos neutros utilizados para fins de estudos aplicados e comparativos.

A segunda concepção considera as regiões como objetos que resultam do processo de pesquisa, frequentemente de classificações formais ou funcionais de elementos empíricos. Estas visões alimentam os debates centrados na questão se as regiões são unidades reais ou categorias mentais. Segundo Paasi (2002, p. 804, tradução nossa), “As regiões resultantes são

52 “[…] an umbrella term for research reflecting how regions/places can be constituted by and constitutive of

social life, relations and identity (but see Thrift, 1994; 1998)” (PAASI, 2002, p. 802).

exemplos de socialização acadêmica e relações de poder/conhecimento, mas mostram também o poder da geografia, uma vez que foram inventados eles podem ser poderosos em dar forma à imaginação e ação espacial, por exemplo, governamental/administrativa54”. A autora chama os pesquisadores para o desafio contínuo de desconstruir as narrativas naturalizadas da relação homóloga entre espaços restritos e grupos culturais nacionais.

A terceira visão, composta pelas abordagens críticas, emergem, conforme a referida pesquisadora, da prática, das relações e dos discursos sociais, esforçando-se para conceitualizar espacialidades como parte de uma rede mais ampla de processos culturais, políticos e econômicos e de divisões do trabalho. As regiões vistas como processos denotam a importância da perspectiva histórica para compreendê-las. As abordagens críticas concebem as regiões como construções sociais, como processos executados, limitados, simbolizados e institucionalizados através de numerosos discursos e práticas que não são limitados inevitavelmente por uma escala específica. Nessa perspectiva, as regiões são

[...] estruturas institucionais complexas, ‘fatos institucionais’, porque são dependentes de acordo e das instituições humanas (Searle, 1995), tais como a imprensa, o sistema educacional, organizações políticas, de governo e econômicas - a maioria delas operando através de escalas. “A construção da região” sempre inclui componentes normativos porque as estruturas institucionais são estruturas de regras, de poder e de verdade/crença, em que as fronteiras, símbolos e instituições se fundem através de práticas materiais. Uma vez criados, são também fatos sociais, desde que eles podem gerar (e serem gerados por) ações tão longas quanto as pessoas nelas acreditem, e tão longas quanto elas tiverem um papel em espaços da