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Capel (1999, p.14) ressalta que ao longo do século XX, foram propostas definições diferentes para a Geografia, “[...] podendo-se distinguir, pelo menos, dois problemas-chave, sem dúvida relacionados mas distintos: o da relação homem-meio e o da diferenciação do espaço na superfície terrestre.” Gonçalves (1982, p. 95-6), utilizando a contribuição de Taaffe (1975), informa que a abordagem regional é um dos três modos de abordar a realidade pela geografia:

1ª. A “visão homem-terra” ou “ecológica” enfatizando as relações entre o homem e o seu meio ambiente natural ou biológico, sendo o ponto de vista predominante até a década de [19]30;

2ª. A visão regional, estudo de área, estudo regional, inter-relações de área,

corologia ou diferenciação de área, que firmaria posição a partir do clássico

trabalho de R. Hartshorne: The Nature of Geography (1939) [ ]

3ª. A “visão espacial” que começa a se firmar a partir dos escritos de Schaeffer (1953) e Ullman contrapondo-se a abordagem hartshorneana, expressando por um lado um estudo de organização espacial [ ].

A tradição de estudos de área ou corográfica15 tem grande importância na história do pensamento e conhecimento geográfico. Ela é uma das tradições delineadas por Pattison (197616) ao discutir a “qualidade geográfica” e a “unidade essencial” nos trabalhos desenvolvidos pelos geógrafos americanos. Pattison (ibid.) identifica quatro tradições, também partilhadas por geógrafos de outras nações: uma tradição espacial de pensamento; uma tradição de estudos de área; a tradição homem-terra e uma tradição de ciência da terra. A tradição do estudo de área existe desde a Antiguidade, ligando-se a uma forma de organizar o conhecimento. Tal tradição tem forte ligação com a história e o conteúdo idiográfico.

Lencioni (1999a), ao discutir o conceito de região, encontra seu ponto de partida nas próprias origens do conhecimento geográfico no período da Antiguidade da cultura ocidental, indicando Estrabão (63 a.C a 25 d.C) o “marco inaugural da Geografia Regional. Todavia, no pensamento científico moderno, considerando-se os estudos e divisões regionais como práticas de análise e interpretação da natureza e da sociedade, a abordagem regional se configura a partir das primeiras décadas do século XIX. Para Lencioni (ibid., p. 93), é com Carl Ritter17 (1779 - 1859) que os fundamentos dos estudos regionais ou de uma Geografia Regional se estabelecem, tendo esse autor realizado,

[...] estudos regionais com o objetivo de identificar as individualidades na totalidade. Seu estudo das regiões baseou-se na comparação das relações causais e na afirmação da importância dos métodos empíricos. Sua visão contribui para o desenvolvimento das divisões regionais fundadas em critérios naturais, em vez de divisões regionais baseadas nos limites administrativos e políticos.

Corrêa (1997, p. 184) informa que, entre o início do último quartel do século XIX, quando a geografia é institucionalizada como disciplina nas universidades europeias e os anos de 1970, três grandes acepções de região foram estabelecidas entre os geógrafos: região

15 Corografia para os gregos compreendia as descrições das diferenças e contrastes da Terra.

16 O texto original As quatro tradições da geografia foi publicado em novembro de 1963 na Convenção Anual

do Conselho Nacional para a Educação Geográfica, em Columbus, Ohio, EUA.

17 Carl Ritter tornou-se o primeiro professor de Geografia (por volta de 1838) da Universidade de Berlim e o

primeiro presidente da Associação Geográfica de Berlim. Lencioni (1999a, p. 92) menciona o livro de Ritter Europa. Ein geographisches, historisches, statistiches Gemäldes für Freunde und Lehrer der

Geographie (Um quadro geográfico, histórico e estatístico para os amigos e professores da Geografia),

natural, região-paisagem e classe de área. Para esse autor, os dados da natureza embasam a primeira concepção, a de região natural, “[...] concebida como uma porção da superfície terrestre identificada por uma específica combinação de elementos da natureza, como, sobretudo, o clima, a vegetação e o relevo, combinação que vai se traduzir em uma específica paisagem natural [ ]”.

Castro (1992b, p. 6) assinala que o paradigma científico clássico na vertente positivista “[...] partia da premissa de que a complexidade do real era apenas sua aparência e que fenômenos ‘aparentemente complexos’ poderiam ser reduzidos às suas partes simples [...]”, por isso todos os fenômenos podiam ser percebidos e explicados na escala regional, essa se impondo como ponto de partida metodológico. A matriz positivista sustenta a leitura determinista da região natural, realizada “[...] por aqueles que adotaram o determinismo ambiental, isto é, a visão darwinista e neolamarckiana como base para o entendimento das relações entre homem e natureza”. (CORRÊA, 1997, ibid.). Bezzi (2004b, p. 44) lembra que na corrente positivista a análise estava centrada na busca de relações causais e leis gerais da natureza. Assim,

[...] a região era percebida concretamente, uma vez que se podia distingui-la na paisagem. [ ] Dessa forma, várias divisões regionais vão estar ligadas aos elementos físicos que compõem os distintos recortes regionais. Citam-se, entre esses elementos, principalmente o clima, a vegetação, a hidrografia, entre outros. (BEZZI, 2004a, p. 39).

Corrêa (1997, p. 185) identifica a segunda acepção de região como região-paisagem, sendo “[...] entendida como o resultado de um longo processo de transformação da paisagem natural em paisagem cultural.” Essa concepção deriva da leitura feita pelo historicismo de base neokantiano, que atribui um caráter idiográfico aos eventos e às regiões, ao tempo e ao espaço. O conceito de região-paisagem assume grande importância na história do pensamento geográfico entre as décadas de 1920 a 1950 (CORRÊA, ibid.). Para Oliveira (2004, p. 32), “[....] a discussão sobre a região na Geografia tem de passar necessariamente pelo historicismo”, que está na raiz filosófica do que os geógrafos chamam de possibilismo.”

É possível identificar na trajetória dos estudos regionais o embate filosófico que opõe, principalmente positivistas e historicistas, travado desde o final do século XIX. Esse debate compõe o próprio processo de formação das raízes do pensamento geográfico moderno, assim como a discussão entre materialismo e idealismo nas ciências humanas.

Reportando-se a abordagem da região na chamada vertente possibilista, Gomes (1995, p. 55) esclarece: “[...] L. Fébvre [1878-1956]18, em 1922, forja a expressão ‘possibilismo’, que pretende ser uma resposta definitiva à idéia de estabelecer leis gerais e regras, tendo por base o ambiente natural”. Gomes (1987, p. 43), ilustra o pensamento possibilista presente nos estudos feitos nesta orientação utilizando-se das palavras do próprio Vidal de La Blache,

O que se deduz dessas pesquisas, em suma, é uma idéia essencialmente geográfica: a de um meio compósito, dotado de uma potência capaz de agrupar e de manter juntos seres heterogêneos, em coabitação e correlação recíprocas. Esta noção parece ser a própria lei que rege a Geografia dos seres vivos. Cada região representa um domínio onde foram artificialmente reunidos seres díspares, que aí se adaptaram a uma vida comum.19

Cabe ao pesquisador da Geografia identificar as regiões e reconhecer nelas as bases dessa coabitação e correlação recíprocas entre esses seres heterogêneos. Vidal de La Blache é o principal representante da Geografia Regional ‘de base empirista objetiva’, que segundo Haesbaert (1990, p. 71) “[...] prioriza as diferenças, aqueles elementos que distinguem e individualizam as ‘ regiões’, enquanto espaços que [...] admitem uma delimitação precisa, moldada principalmente em relação às características fisionômicas da ‘paisagem’”. Corrêa ressalta

A região passa a ser vista como área de ocorrência de uma mesma paisagem cultural. Trata-se agora da região-paisagem, dois termos que nas línguas alemã e inglesa podem ser referidos com uma única palavra, respectivamente, landschaft e

Landscape. (CORRÊA, 1997).

Na perspectiva de La Blache, a região é concebida como “[...] um espaço com características físicas e socioculturais homogêneas, fruto de uma história que teceu relações que enraizaram os homens ao território e que particularizou este espaço, fazendo-o distinto dos espaços contíguos.” (LENCIONI, 1999a, p. 100). As formas de civilização, a ação humana, os gêneros de vida são os fatores que permitem compreender a “personalidade” de cada região. O possibilismo resgata noções estabelecidas pela botânica como adaptações e seleções, aproximando-se da perspectiva determinista (GOMES, 1987).

Para Claval (2002), o estudo da diferenciação regional da Terra compõe um capítulo importante da história da Geografia Humana, na qual os geógrafos voltam-se as combinações de aspectos naturais e de artefatos, considerando-os, muitas vezes, notavelmente estáveis e um

18

FÉBVRE, Lucien. La Terre et l’evolution humaine. Introduction géographique à l’Historie, La Renaissance du Livre, Paris, 1922.

19

Gomes (1987, p.43) faz alusão a LA BLACHE, Paul V. Principes de Géographie p. 7, chamando atenção para a reprodução por esse estudioso do pensamento de Hegel, sem o citá-lo: “Geografia é o estudo das possibilidades que o ambiente oferece aos povos em diversas parcelas da Terra (regiões).”

produto da evolução. Esse enfoque estuda a inserção dos grupos humanos no meio ambiente, a partir da qual os geógrafos traçam a gênese das paisagens agrárias e a descrição das estruturas regionais que se instalam. Claval (2002) engloba as duas perspectivas (determinista e possibilista) como enfoques naturalistas, ressaltando sua atenção à natureza e sua contribuição as reflexões ecológicas contemporâneas.

Paul Vidal de La Blache (1845-1918) e Richard Harsthorne (1899-1992) são intelectuais da tradição dos estudos regionais, porém com diferentes perspectivas. Os dois estudiosos compõem, dentre outros, no dizer de Moreira (2008), as matrizes clássicas originárias do pensamento geográfico brasileiro. O trabalho de Hartshorne é fundamental na história dos estudos regionais sobretudo no marco temporal escolhido nessa parte do trabalho. O papel de Richard Harsthorne aparece no capítulo Os anúncios de uma nova maneira de olhar a região (p.72 - 82), da dissertação de Gomes (1987) sobre as razões da região. Harsthorne questiona os procedimentos e posturas da geografia possibilista francesa e se inspira na Geografia alemã, sobretudo em Alfred Hettner (1859-1942). Lencioni (1999a) informa: Alfred Hettner20 foi muito influenciado pelo neokantismo, que se tornou uma corrente filosófica dominante na Alemanha durante o período de 1880 a 1930. As observações do filósofo Wilhelm Windelband (1848 – 1915) da distinção entre ciências da natureza e ciências da cultura, configurou problemática e objeto central nas discussões de Hettner. Esse estudioso se preocupa com a ameaça de dualidade na Geografia e após um minucioso trabalho de revisão de obras e intelectuais21, chegou a conclusão de que

A Geografia não era uma ciência nomotética ou idiográfica. Era tanto uma como outra. Dizia que quando a Geografia se volta para o estudo das relações entre fenômenos de um determinado território é uma Geografia idiográfica; porém, quando esses fenômenos podem ser classificados em categorias, possibilitando a produção de leis gerais, ela é nomotética. (LENCIONI, 1999, p. 122).

Hettner afirmou o caráter corológico da disciplina geográfica. Para ele, o objeto da Geografia é a diferenciação da superfície terrestre, sendo o estudo regional a essência dessa disciplina. Lencioni (ibid.) apresenta as principais concepções de Alfred Hettner

[...] a interpretação do caráter variável da superfície terrestre se fundamenta no estudo das relações entre os fenômenos de natureza física e humana [ ] que se deve procurar ver como as relações estabelecidas entre esses fenômenos se dão em diferentes lugares e como os fenômenos estão espacialmente interrelacionados. Assim, as particularidades da superfície terrestre, que seriam oriundas da associação de determinados fenômenos, podem ser reveladas. (LENCIONI, 1999, p. 124)

20 Hettner, renovando o pensamento de Ritter, à semelhança do retorno a Kant, expõe seu “[...] mergulho na

Geografia dos fundadores com o conceito de diferenciação de áreas”, na obra “A geografia, sua história, essência e método”(Die Geographie, ihr Wesen und ihre Methoden), publicada em Breslau, em 1927. (MOREIRA, 2008, p. 36).

Para Hettner e para Vidal de La Blache, o conhecimento regional é o produto supremo da Geografia (GOMES, 1995, p. 59). Todavia, La Blache considera a região uma realidade concreta, física, que se evidencia na paisagem, um objeto, “[...] que existe por si mesma, ou seja, ela é auto-evidente e cabe ao pesquisador reconhecê-la por meio de análises” (LENCIONI, 1999a, p. 201). E Hettner concebe regiões enquanto construção intelectual, objeto teórico e não concreto. É o estudioso que constrói o recorte espacial por meio de elaboração de critérios definidos durante a investigação.

A contribuição teórico-metodológica de Hettner no final do século XIX é reelaborada por Hartshorne para pensar a realidade de meados do século XX, marcada por profunda crise econômica, mundialização forjada pelo capitalismo e a hegemonia imperialista se deslocando para os EUA (GONÇALVES, 1982, p. 97). É nesse contexto geral de crise que surge a obra The Nature of Geography: a critical survey of current thought in the light of the past, de Richard Hartshorne, publicada pela Associação dos Geógrafos Americanos (AAG) em 1939 às vésperas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Para Johnston (1986, p. 62), a monografia The Nature of Geography de 1939 “[...] rapidamente, estabeleceu-se como a manifestação definitiva do paradigma da região e do regionalismo”. Johnston (ibid., p. 63), explica que “[...] havia muito debate entre os geógrafos americanos, durante os anos 30 (a maior parte do qual aparentemente não publicado), sobre a natureza de sua disciplina”. E Hartshorne, interessado no caráter e no conteúdo desse debate submeteu em 1938 um artigo aos Anais da AAG, contribuindo às discussões filosóficas.

Ele, então, dirigiu-se à Europa para realizar trabalhos de campo relacionados com problemas de fronteiras, como parte de sua pesquisa em andamento sobre a Geografia Política. Este trabalho foi frustrado pela situação política e, assim, utilizou seu tempo lendo trabalhos europeus, principalmente alemães, sobre a natureza da Geografia. Ele valeu-se dessas leituras para ampliar seu artigo de 1938, acrescentando o subtítulo; o resultado foi um ‘artigo’ de 491 páginas (cerca de 300 mil palavras) que se tornou a maior contribuição filosófica e metodológica à literatura geográfica, então disponível em inglês.

A obra harshorneana de 1939 provoca imenso impacto, sendo objeto de inúmeras críticas, que Hartshorne procura responder no livro Perspectives on the Nature of Geography22, publicado pela AAG em 1959. Nesse livro, o estudioso revisa as próprias ideias, afastando-se daquelas mais ligadas ao pensamento vidalino e aproximando-se mais

[...] para o conceito hettneriano de diferenciação de áreas, em que o conceito de região se amolda aos conceitos mais abstratos, porém mais basilares, de recorte e de área, todos entendidos como formas de manifestação do processo de diferenciação,

que numa interpretação livre entenderemos como o movimento de constituição da diferença, o contrário da identidade que informa o conceito de região. (MOREIRA, 2008, p. 36),

Lencioni (1999a, p. 126), utilizando Propósitos e Natureza da Geografia23, editada em 1978 em português, destaca: para Hartshorne cabe ao geógrafo entender a diferenciação das áreas. O intelectual emprega o termo região, mas com ressalvas, preferindo usar o conceito de áreas-unidades, mais apropriado para definir uma construção intelectual. (LENCIONI, ibid., p. 127).

Seguindo Hettner, Hartshorne aponta procedimentos científicos a serem considerados pelo pesquisador ao produzir divisões regionais, enfocando, entre outras questões, a escala de recortes regionais. Afirma que quanto mais complexo for o conjunto de fenômenos integrados, menor deve ser a área em exame. Hartshorne também salienta os cuidados na apreensão das inter-relações entre os fenômenos, “[...] pois [é] em decorrência de suas combinações que se produz uma integração”. (LENCIONI, 1999a, p. 128).

Para Gomes (1987), Hartshorne, reconhece que todas as disciplinas devem adotar procedimentos nomotéticos e idiográficos. Parcela considerável dos fenômenos observados pela Geografia possui um caráter singular e localização única, por isso, “[...] Hartshorne termina por afirmar a excelência do método regional, das singularidades dando um lugar de destaque ao único na geografia”. (GOMES, 1995, p. 61).

Richard Hartshorne oportunizou importantes discussões metodológicas e preparou o terreno para outras tendências, que se estabeleceram no pensamento científico a partir dos anos 1950. No Brasil, as preocupações conceituais e método de Hartshorne são incorporadas nas obras de estudiosos da região ligados ao IBGE, principal instituição que abriga comunidades de profissionais que se dedicam a propor aspectos conceituais e metodológicos para divisões técnicas e operacionais para o Estado brasileiro.

Na formulação da primeira divisão regional oficial do país, “[...] a abordagem regional é colocada no dualismo, região natural e região humana. Discute-se, também a validade da institucionalização e a estabilidade no tempo de uma divisão regional caracterizada por atributos socioeconômicos [ ]” (DUARTE, 1980, p. 9). Essas questões sobre a divisão proposta pelo CNG - IBGE são relacionadas de imediato a Fábio Guimarães (1941; 1950; 1963), um dos estudiosos que mais se preocupou com os aspectos conceituais e critérios práticos dos estudos e divisões regionais.