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Os vírus dengue tipo 4 foram inicialmente identificados no continente americano em 1981, tendo sido importados da Indonésia e dispersado inicialmente no Caribe. Foram identificados dois genótipos (I e II), sendo o primeiro constituído por cepas do sudeste asiático e Pacífico e o segundo por cepas do continente americano (Lanciotti et al., 1997). Em 2005, foram identificados quatro genótipos (I-III e selvagem) (Klungthong et al., 2004).

Após um período de 28 anos sem circulação no Brasil, os vírus DENV-4 reemergiram no território brasileiro no ano de 2010 através do estado de Roraima, se espalhando por diversos estados do país como Amazonas, Pará, Bahia, Pernambuco, Piauí, Rio de Janeiro e São Paulo (Temporão et al., 2011; Ministério da Saúde, 2011). Desde então, estudos sobre a origem da cepa re-emergente, usando diferentes métodos de inferência filogenética vem sendo

realizados, uma vez que pouco se sabe a respeito de padrão de dispersão e evolução desses agentes infecciosos (Souza et al., 2011).

Um desses estudos, realizado por Souza e colaboradores (2011) analisou amostras oriundas dos primeiros casos autóctones ocorridos nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, verificando que as cepas brasileiras pertenciam ao genótipo II, agrupadas com amostras do Norte da América do Sul e do Caribe e ao genótipo I agrupadas com amostras da Malásia, Jamaica, Trinidad e Tobago, México, Porto Rico, Polinésia Francesa, Indonésia e República Dominicana. Nunes et al. (2012) realizaram estudo semelhante, usando sequencias do gene do envelope e do genoma completo de cepas oriundas de estados da Região Norte do país (Pará, Amazonas e Roraima), confirmando que as cepas brasileiras pertencem aos genótipos I e II, sendo o primeiro constituído por uma cepa isolada no estado da Bahia e o segundo por cepas do Caribe e América do Sul.

A análise filogenética realizada neste estudo mostrou que as cepas brasileiras analisadas, incluindo as cepas do Rio Grande do Norte, pertencem aos genótipos I e II. O genótipo I se apresentou constituído por uma amostra brasileira isolada na Bahia e por amostras do Vietnã e o genótipo II, apresentou-se subdivido em três linhagens de amostras brasileiras com elevado percentual de identidade nucleotídica, a linhagem I (BR-I) constituída por uma amostra isolada em Roraima em 1982, amostras da América do Sul e Caribe, a linhagem II (BR-II) por cepas do estado do Pará (2010-2011), Porto Rico e República Dominicana e a linhagem III (BR-III) constituída por amostras brasileiras oriundas do Rio Grande do Norte, Amazonas e Roraima (2010-2012). Os dados obtidos corroboraram com estudos recentes sobre o sorotipo, adicionando conhecimentos sobre as diferentes linhagens dentro do genótipo II e constatando que as cepas do Rio Grande do Norte (BR-III) estão proximamente relacionadas com a cepa de Roraima isolada após a reintrodução do sorotipo no país, em detrimento das cepas isoladas em 1981-1982 reportadas a casos de dengue no mesmo estado (Osnai, et al. 1983), que de acordo com a presente análise pertence à BR-I.

No tocante aos padrões de migração dos DENV-4, acredita-se que o mais recente ancestral dos genótipos I-III tenha origem do sudeste asiático (Dussart et al., 2012; Nunes et al., 2012), fato constatado pela presença de cepas asiáticas nos ramos de origem de um genótipo cosmopolita como o II (Klungthong et al., 2004) e também observado nas análises realizadas neste estudo.

O estudo filogeográfico realizado por Nunes et al. (2012), já citado anteriormente sugeriu que as principais fontes de exportação desse vírus para o Brasil seriam o sudeste asiático, o Caribe e a Venezuela. Tendo ocorrido múltiplas introduções distintas no país, a mais recente tendo ocorrido de países sul-americanos vizinhos, particularmente a Venezuela onde o vírus se estabeleceu há um longo tempo. Outra introdução ocorreu após o estabelecimento dos vírus no Caribe, se dispersando para o Brasil (RR) e países próximos (Venezuela e Colômbia) e mais recentemente no Brasil pelo estado do Pará.

Os resultados obtidos neste estudo confirmaram os achados de Nunes et al. (2012), uma vez que foi verificada a ocorrência de três possíveis introduções distintas dos DENV-4 pertencentes ao genótipo II no país, sugerimos que a primeira introdução ocorreu de Trinidad e Tobago para o estado de Roraima em 1982 (BR-I), quando os vírus foram detectados pela primeira vez no país, a segunda de Porto Rico para o estado do Pará (BR-II) e a terceira (BR- III) teve origem na Venezuela, entrando no Brasil possivelmente pelos estados de Roraima ou Amazonas e chegando ao estado do Rio Grande do Norte. Os resultados sugerem que as cepas mais antigas, referentes a introdução dos DENV-4 são geneticamente distintas das cepas mais recentes, confirmando a possível ocorrência de evolução local ou de reintrodução, sendo a última opção a mais provável devido as linhagens em questão terem apresentado origens distintas na árvore filogenética. Assim como ocorreu nos outros sorotipos estudados anteriormente neste estudo, a circulação de vírus distintos ocasionada por múltiplas introduções pode ter ocorrido pela introdução de outros sorotipos na região no período onde não foi detectada a circulação de DENV-4 no país, como por exemplo o DENV-2 que causou epidemias em 1998, 2007/2008 e 2010 (Oliveira et al., 2010; Drummond et al., 2012).

Com base nos resultados discutidos, torna-se clara a necessidade da análise de sequências provenientes de um maior número de estados brasileiros para uma compreensão mais detalhada dos padrões de migração dos vírus Dengue no país, bem como a realização de métodos de inferência filogenética mais robustos com objetivo de melhorar a confiabilidade das relações que em alguns ramos foi inferior aos 75% recomendados. Por fim, ressaltamos que a prevenção da emergência de novas epidemias depende claramente de conhecimentos sobre origem, padrão de dispersão desses vírus e identificação de genótipos e linhagens (Rico- Hesse et al., 1997; Drummond et al, 2012), tornando clara a importância de estudos desta natureza.