2.1 Ethical perspectives
2.1.1 Four ethical principles
Os motivos pelos quais a dengue se tornou um grave problema de saúde pública em regiões tropicais e subtropicais não são bem compreendidos, mas sabe-se que envolvem diversos fatores relacionados ao agente etiológico (sorotipos, genótipos mais virulentos, taxa de replicação), ao hospedeiro (condições imunológicas, infecções sequenciais, raça, idade) e ao vetor (adaptação ao ambiente, taxa de reprodução). Além disso, existem regiões do planeta, como o Brasil, que oferecem condições ideais para o estabelecimento e sucesso dos vírus, como por exemplo: população em crescimento, urbanização descontrolada, condições climáticas ideais para proliferação do vetor, sistema de saúde pública e controle de epidemias ineficientes, entre outros (Teixeira et al., 2009; Teixeira et al., 1999; Gubler, 1998).
Na década de 1970, com a reintrodução do A. aegypti devido à falta de sucesso de alguns países em manter o inseto erradicado, DENV-1 e DENV-4 entraram no Brasil pelo estado de Roraima, causando um surto na capital Boa vista durante o ano de 1981 (Nogueira
et al., 2000; Siqueira et al., 2005; Neto et al., 2005; Osanai et al., 1983; Tauil, 2002). No
entanto, foi a partir de um surto ocasionado por DENV-1, ocorrido no Rio de Janeiro em 1986, que a doença passou a chamar atenção da sociedade e dos governantes devido ao grande número de indivíduos infectados, cerca de 1 milhão (Figueiredo et al., 1991). A partir da capital fluminense, o vírus se espalhou pelo Nordeste e Centro-Oeste do país (Nogueira et
al., 1989).
Em 1990, DENV-2 (genótipo III) foi introduzido no Rio de Janeiro causando os primeiros casos de FHD e se espalhando pelo país (Teixeira et al., 2005; Nogueira et al., 1995; Siqueira et al., 2005). Durante a década de 90 os vírus se expandiram para 22 dos 26 estados do país, gerando um grande aumento do número de infectados que chegou a 345.7 mil para 100 mil habitantes, totalizando 1.513.784 casos, fazendo com que, no final de 1998, o Brasil fosse responsável por 85% dos casos registrados nas Américas (Teixeira et al., 2009; Nogueira et al., 2000).
No início do século XXI, mais precisamente durante o ano de 2002, o DENV-3 foi introduzido no país causando uma grave epidemia no Rio de Janeiro, com vários casos de Dengue Clássica e FHD, se espalhando em seguida pelo território nacional (Teixeira et al., 2009; Nogueira et al., 2005). O DENV-4 foi reintroduzido no Brasil, no estado de Roraima, no ano de 2010 após um período de 28 anos sem circulação (Temporão et al., 2011). Esse
sorotipo esteve relacionado a casos de FHD durante a década de 80 no continente americano, inclusive no Brasil e atualmente tem circulação predominante, sendo relacionado a epidemias, fato que pode ser justificação pela imunidade adquirida pela população brasileira especifica aos outros sorotipos circulantes anteriormente (PAHO, 1994).
Existem diferenças significativas entre a dinâmica da enfermidade no Sudeste Asiático e no Brasil. Apesar do número de casos de FHD no Brasil ser considerado alto, 6.455 casos entre 2000 e 2007 (0,21% dos casos registrados), esse número ainda é considerado baixo quando comparado aos índices asiáticos. Os especialistas explicam que isso pode ocorrer por uma falha de diagnostico por parte dos profissionais de saúde brasileiros e também pela miscigenação racial verificada em nosso país, onde a maior parte da população tem ascendência africana e podem ter herdado de seus ancestrais marcadores genéticos que conferem uma resistência maior a FHD, quando comparados a descendentes de europeus e asiáticos (Teixeira et al., 2009; Teixeira et al., 1999; Blanton et al., 2008).
Apesar dos índices de FHD serem considerados baixos quando comparados a outras regiões do mundo, a taxa de mortalidade brasileira no tocante a dengue é considerada alta e apresenta crescimento com o passar dos anos, variando de 1,45% em 1995 a 11,25% em 2007, quando taxas de até 1% são consideradas aceitáveis (Teixeira et al., 2009).
Atualmente o Brasil é considerado o país com o maior índice de infectados pelos vírus dengue no mundo. É interessante ressaltar que os dados sobre o número de infectados pela doença no Brasil, apesar de alarmantes, são subestimados, uma vez que existem casos de infecções assintomáticas que não são registradas pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Assim, acredita-se que o número de pessoas infectadas seja superior aos números oficiais (Teixeira et
al., 2009).
Dentro desse contexto, estudos filogenéticos e epidemiológicos se constituem em ferramentas importantes para compreensão da origem e do padrão de circulação viral em determinadas regiões, gerando informações que poderão ser úteis para prevenção e controle de epidemias.
2. JUSTIFICATIVA
No Brasil, após a re-emergência da dengue em decorrência da reintrodução do A.
aegypti na década de 70, várias epidemias foram notificadas (Tauil, 2001). Atualmente, o país
é considerado o primeiro lugar no ranking internacional referente ao número de casos reportados da doença (Teixeira et al., 2009).
O Rio Grande do Norte, por sua vez, teve o primeiro caso da doença registrado a mais de duas décadas, em 1994. No ano seguinte, o aumento do número de casos na capital (Natal) e a proliferação do vetor promoveram a dispersão do vírus pelo estado (Cunha et al., 1999). Fatores como índice de infestação predial elevado, irregularidade no abastecimento de água e coleta de lixo, bem como o elevado número de imóveis e terrenos abandonados, oferecem condições ideais para a proliferação do vetor aumentando a possibilidade de circulação viral e o consequente aumento do número de casos da doença (Secretaria Estadual de Saúde, 2008).
A variabilidade genética dos vírus dengue pode ser comprovada pelos diferentes genótipos e linhagens detectados em estudos evolutivos realizados nos últimos anos. Diante desse fato, é evidente a importância de estudos de caracterização genética desses vírus, a fim de detectar variantes genéticas, compreender suas origens, bem como monitorar a introdução de novos genótipos ou linhagens virais (Mendez et al., 2010; Osman et al., 2009; Rico-Hesse
et al., 1997).
Com objetivos de realizar a caracterização genética e compreender a evolução dos vírus dengue circulantes no estado do Rio Grande do Norte, analisamos sequências do gene do envelope viral de amostras oriundas de dez municípios do estado coletadas no período de 2010 a 2012. Tais informações poderão ser úteis para a elaboração de estratégias de controle da doença, uma vez que estudos de caracterização genética tem se mostrado essenciais para a compreensão dos padrões epidêmicos e de propagação viral (Mendez et al., 2010).
3. OBJETIVOS 3.1. Objetivo geral
Caracterizar geneticamente os vírus dengue isolados no estado do Rio Grande do Norte durante os anos 2010-2012.
3.2. Objetivos específicos
Sequenciar o gene do envelope dos vírus dengue circulantes no estado do Rio Grande
do Norte durante o período de 2010 a 2012;
Realizar a análise filogenética por meio de comparações das sequencias obtidas neste
estudo com sequencias armazenadas no GenBank, provenientes de outros estados brasileiros e de outros países;
Identificar os genótipos e linhagens dos DENV circulantes no estado do Rio Grande
do Norte e no Brasil;
Pesquisar a origem e o padrão de migração dos DENV isolados no estado do Rio
Grande do Norte e no Brasil;
Verificar a ocorrência de possíveis substituições de aminoácidos na proteína E dos
DENV isolados no estado do Rio Grande do Norte, em comparação com linhagens ancestrais.
4. MATERIAL E MÉTODOS
4.1. Amostras Clínicas
As amostras de sangue ou soro utilizadas nesse estudo foram provenientes de casos suspeitos de dengue atendidos por demanda espontânea em diferentes Unidades de Saúde (Hospitais, Centros e Postos de Saúde) de diferentes Municípios do estado do Rio Grande do Norte, durante o período de Janeiro de 2010 a Dezembro de 2012. Essas amostras foram recebidas pelo Laboratório Central Doutor Almino Fernandes (LACEN-RN) para a realização do isolamento viral em cultura de células C6/36, e encaminhadas para o Laboratório de Biologia Molecular de Doenças Infecciosas e do Câncer (LADIC) para a realização das técnicas de transcrição reversa seguida da reação em cadeia da polimerase (RT-PCR) e sequenciamento do gene do envelope viral. Cada amostra veio acompanhada de ficha de identificação e dados de coleta em relação ao início da doença. As amostras foram transportadas até o Laboratório de Biologia Molecular de Doenças Infecciosas e do Câncer (UFRN) sob refrigeração e foram acondicionadas a -70 ºC até o momento da utilização.
Para a realização deste estudo, este projeto foi previamente submetido à apreciação e aprovação pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (Protocolo N° 136/2009 CEP-UFRN).