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A antinatureza, obra já citada de Clemént Rosset, chega à conclusão de que não é possível pensar a existência por outra via que seja diferente do artificial, do construído. Para isso, ele investiga o presente constituído por todas as suas construções e suas obras tidas como naturais, percebendo que todas têm as mesmas marcas do acaso e da não-necessidade.

Como vimos, nessa obra, Rosset contrapõe o ideário do artifício ao de natureza, evidenciando, assim, uma ideia de artifício. Também é possível apreender um conceito de artifício que não precisa se opor à natureza. É possível pensar o artificial em tudo aquilo que é construído, que simula uma existência, ou que encena outro acontecimento. Muitas vezes, pode ser atribuído a essa construção artificial a ação de enganar, uma vez que se faz passar por algo que não é.

Jorge Luis Borges construiu uma obra literária – incluindo aí sua obra ensaística, visto a presença de um hibridismo que marca igualmente a sua ficção – marcada pela erudição. E em toda a sua escrita é facilmente percebido o alto grau de complexidade da construção de suas histórias. Como vimos na análise de artifícios do escritor, é patente o trabalho de elaboração, que por vezes pode ser comparado ao do artífice que constrói manualmente uma rede de significados para compor um objeto. Assim é no texto borgeano.

Além disso, o trabalho de elaboração da obra borgeana possui suas particularidades. Um material muito utilizado na sua construção ficcional é aquele que reveste a obra de ardis, simulações e encenações que não devem ser tomadas por sua carga de sentido negativo, mas por sua capacidade de questionamento de tudo o que existe no mundo físico, de todo o real comparado à imaginação, à ficção ou mesmo à arte. Há também o questionamento da qualidade atribuída a determinadas existências construídas por mãos humanas – vistas como não-naturais, cópias e construções artificiais – em detrimento a outras.

Numa entrevista, também ficcional, a escritora e professora Maria Esther Maciel conversa com um suposto professor dinamarquês, estudioso de Borges. O texto, que trata dos

artifícios borgeanos e de possíveis aproximações estéticas com outros autores, utiliza os mesmos artifícios de construção recorrentes na obra de Borges. Na conversa, através do hibridismo de ficção e ensaio presente em Borges, o professor dinamarquês desenvolve o percurso da estética do artifício na literatura.

Essa linhagem surgiu no Romantismo, com os alemães do Círculo de Jena, e foi adquirindo proporções e nuances cada vez mais interessantes ao longo do tempo. Jogar com subjetividades duplas ou múltiplas, forjar verossimilhanças, embaralhar estrategicamente realidade e ficção, tensionar o exame crítico com a elaboração literária são artifícios irônicos surgidos com o advento da subjetividade auto-reflexiva dos românticos e com o que se convencionou chamar de autonomização da arte. (MACIEL, 1998, p.130)

E sobre Borges ele diz:

Se ele simplesmente repetisse o famoso truque do manuscrito encontrado num baú, não teria ido tão longe. Ao recriar o truque, inserindo-o numa rede mais complexa (num labirinto, para usar uma palavra borgiana) que envolve escritos apócrifos atribuídos a autores existentes ou inexistentes, citações existentes atribuídas a autores falsos, traduções que são na verdade invenções, autores reais (como Bioy Casares e ele mesmo, Borges) convertidos em personagens de histórias fantásticas, contos escritos como se fossem ensaios ou resenhas de livros, etc, o escritor avança, no sentido de fundar uma outra concepção de literatura, de autor, de tradução, de leitor. (MACIEL, 1998, p.131)

E um dado curioso sobre essa entrevista é que, além de ser ficcional, como foi dito, a sua recepção exerceu a mesma dúvida que os textos borgeanos instauram, pois o personagem do professor, chamado Lars Olsen, que é criado para a entrevista chegou a ser citado como um professor estudioso de Borges real em um texto da poeta, jornalista e escritora Mônica Rodrigues Costa no jornal Folha de S. Paulo20, tratando sobre a publicação de uma obra de Borges.

A partir de tudo o que foi dito, para Jorge Luis Borges, o artifício poderia ser definido por diferentes facetas, as quais podem ser retiradas, por vezes, da sua criação ficcional. Para ele, tal definição passaria pela farsa explícita ou implícita – incluindo o jogo de revelar e esconder as engrenagens da farsa na estrutura narrativa –, servindo como motivo ou tema para a criação artística; pela trapaça; por simulacros de tempo; por realidades sobrepostas e/ou embaralhadas; e por textos e autores falsos.

20 Cf. COSTA, Mônica Rodrigues. “Erudita, poesia de Borges é mais variada do que a sua prosa”.

Todo o engano suscitado pelos artifícios borgeanos não constrói uma ideia pura e simples de realidade como verdade e da ficção como mentira, ou melhor, do real como verossímil e da ficção como inverossímil. Por jogar com esses dois planos, o real e o ficcional, o escritor coloca em dúvida todo o caráter natural da realidade, podendo, assim, construir um terceiro plano, o estético. Borges cria uma realidade estética que pode ser apontada como um plano tão verdadeiro (ou tão falso) quanto a própria natureza, e que, por isso, estabelece a tensão que questiona as fronteiras existentes entre realidade e ficção.

Entretanto, afora a concepção de artifício para Borges citada acima, é possível apreender em sua obra o conceito de artificial também como oposição ao natural, à physis. O professor Luiz Costa Lima percorre em Mimesis e modernidade (1980) o questionamento à mimesis executada por Borges, que nesse caso é também questionamento à antiphysis.

Borges, por conseguinte, inverte a tradição de que se nutrem as ficções. Inversão ficcional que de imediato significa o questionamento da realidade. Borges parece-nos dizer: não há questionamento da mimesis que não seja um questionamento da physis. Uma à outra se associa porque a proposta da

antiphysis supõe não a vontade, fosse até melancólica, de perenizar a fortuita

ação humana pela durabilidade dos monumentos (escritos, pintados, esculpidos), mas, ao invés, a declaração de não identidade dos seres no mundo. (COSTA LIMA, 1980, p. 238)

A representação pressupõe certa identidade, identificação, entre as coisas que existem e Borges inverte isso, desenvolvendo uma ficção que se realiza na superfície da própria escrita literária, não exigindo a existência de uma realidade física prévia, o que a torna uma literatura baseada na antiphysis. 21

A partir de tudo o que foi tratado sobre o artifício, sobre Borges e a utilização que ele faz desse recurso, ou mesmo sobre como ele integra e constitui uma estética do artifício, passaremos ao estudo da obra do escritor carioca Bernardo Carvalho.

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