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1. INTRODUCTION

1.2 Aids to smoking cessation

a si próprios. E nos dois exemplos, um dos motivos para que o Borges mais velho não se lembrasse do encontro está no fato de que tal acontecimento é tão perturbador que ele pode ter feito grande esforço para esquecê-lo.

Os espelhos e a duplicação causada por eles são, na ficção borgeana, um artifício utilizado para ampliar os planos narrativos, uma vez que os dois personagens são os mesmos e também são diferentes, um possui atributos que o outro ainda não conhece. A conjectura sobre quem é a imagem e quem é o homem – “o homem que se crê uma imagem, o reflexo que se crê verdadeiro” (BORGES, 1999b, p. 10) – é a prova dessa amplitude, pois um único personagem, que ao mesmo tempo é dois, questiona a presença dos muitos Borges que se encontram naquela conversa.

O espelho é um artefato que, de alguma maneira, constrói imagens. Esse objeto artificial transporta seus efeitos à ficção do autor de Outras inquisições, promovendo uma criação de elementos não-naturais que questionam a naturalidade daquilo que se quer como origem.

1.2.5. Entrelaçamento de gêneros

O conto “Exame da obra de Herbert Quain”, do volume Ficções, é um texto que faz exatamente o que é proposto no título, examina a obra do suposto autor que tem seu nome também no título.

O texto começa analisando os comentários feitos na ocasião da morte de Quain. O narrador se mostra insatisfeito com as pequenas menções que são destinadas ao falecido autor, além de não concordar com as comparações equivocadas de suas obras com as de Agatha Christie e Gertrude Stein. A partir de então, o narrador do texto começa a analisar os livros de Quain, The God of the Labyrinth, Statements, April March e a peça The Secret Mirror.

Além disso, o narrador do texto, ao final, assume que retirou ingenuamente, da citada obra Statements, um conto chamado “Ruínas circulares” e o colocou no livro O jardim de veredas que se bifurcam. O fato curioso é que o livro com este nome, de autoria de Jorge Luis Borges, é um dos livros que divide o volume Ficções, ou seja, o próprio livro onde se localiza “O exame da obra de Herbert Quain”.

O conto assume o tom de ensaio, de uma análise literária, pois, durante todo o texto, o que o narrador faz é examinar a obra de Quain. E o narrador da história ao que tudo indica é

Jorge Luis Borges, afinal ele é autor do livro O jardim de veredas que se bifurcam. E ainda, o volume em que podemos ler o conto se intitula Ficções, o que promove uma ficcionalização extrema do ensaio sobre a obra de Quain.

Portanto, é possível observar no texto uma mistura de gêneros para a construção da ficção, já que o conto é, a princípio, um ensaio literário. A ficção se constrói no plano da linguagem, ela se constrói a partir de outro texto. Essa mistura se constituirá também um artifício fundamental para a sua literatura.

O ensaio drena a sua ficção da ficção inerente do objeto que pretende analisar. A obra que o ensaio analisa não existe. É inventada. Portanto, o ensaio, sem lastro real, revela sua dimensão inventada, ainda que construído por meio do uso de uma linguagem que a princípio só se justificaria pela pretensão de abarcar o real. O autor revela os perigos que uma linguagem pretensamente objetiva guarda em si: o tom da linguagem não garante objetividade.

Outro exemplo dessa mistura de gêneros literários pode ser visto no conto “Tema do traidor e do herói”. Nesse texto, o narrador começa falando que vem de Chesterton e Leibniz a influência para a criação de um “argumento” para um conto, nas próprias palavras do narrador. E assim ele começa a descrever esse argumento: diz que poderia transcorrer na Polônia, em algum país balcânico ou da América do Sul, mas acaba se decidindo pela Irlanda no início do século XIX.

O narrador enuncia também qual será o nome do narrador do conto que ele desenvolve no relato do argumento: chamará Ryan. As principais ações do conto já foram descritas acima, no tópico “Realidade inventada”. No entanto, é importante marcarmos o fato de o narrador apresentar quem será o narrador da história que ele está resumindo, pois, assim, percebemos camadas na história.

O relato do argumento se desenvolve e chega ao fim contando o que aconteceu/acontecerá na história em que o revolucionário é, ao mesmo tempo, traidor e herói. Assim termina a história, ou seja, o conto é o próprio argumento que ele desenvolve, a narrativa é, afinal, o roteiro daquilo que ela seria se desenvolvida.

O argumento é o conto, ou ainda, o esboço da história é a própria história, não havendo nada mais a ser completado ali. No momento em que se coloca um resumo de história para ser a própria história, percebemos um artifício que coloca a posição do narrador do argumento coincidindo com a do autor, Borges. A mistura de gêneros no texto é o próprio

artifício que potencializa o caráter ficcional do conto, pois percebemos uma narrativa que compreende outra narrativa, fazendo com que a primeira pareça um relato da realidade.

Mais uma vez, percebemos uma construção que se faz passar por outra, com um fator mais interessante aqui: podemos ver a estrutura dessa construção, já que ela ainda não foi finalizada. Comparando ainda a ficção com uma construção, poderíamos dizer que o artificial da edificação é evidenciado porque ela ainda não foi terminada, deparamo-nos com tijolos e vergalhões ainda à mostra, exibindo o que é, de fato a construção. A ficção exibe seus artifícios ao entrelaçar gêneros.

Além disso, é preciso lembrar o trecho do prólogo já citado em que ele menciona como “desvario laborioso e empobrecedor” o trabalho de escrever longos livros. Em “Tema do traidor e do herói”, há uma lembrança dessa afirmativa, pois ele se furta a escrever a história prevista no argumento. E a mistura de gêneros, argumento de conto se tornando o próprio conto, é o artifício utilizado na composição da ficção.